A Revolução de 1905 na Rússia: prelúdio da revolução de 1917

Humberto Carvalho – militante do PCB – RS

As revoltas, movimentos políticos, convulsões sociais, revoluções que ocorreram na Rússia, entre o século XIX e inícios do século XX, foram filhas, por assim dizer, de guerras e do conturbado contexto interno do país.

Nessa linha, encontra-se a Revolta dos Dezembristas.

Alexandre I, czar da Rússia, em 1812, rompeu o Bloqueio Continental à Inglaterra, decretado, em 1806, por Napoleão Bonaparte. Napoleão revidou essa desobediência, invadindo a Rússia e, como notório, a invasão termina com a retirada inglória do exército francês, acossado pelo rigor do inverno e fustigado, ao longo da fuga, pelas tropas russas, causando grandes perdas ao exército napoleônico.

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Dalcídio Jurandir – Os Comunistas e a Religião

Dalcídio Jurandir

Texto originalmente publicado no jornal Tribuna Popular, nº 60.

29 de julho de 1945.

Transcrição por Andrey Santiago.


O povo vem compreendendo quem são os mais furiosos e maiores inimigos do Partido Comunista. As tenebrosas campanhas de ontem não podem ter hoje quase nenhuma repercussão porque foram muito desmoralizadas. Os “imundos papeis Cohen” não podem mais se repetir, grande é a consciência do povo ou melhor, grande é a consciência o mundo para que se veja nos comunistas os inimigos da paz, da liberdade da religião e da família.

Os povos sabem a história dos comunistas na sua luta desigual, obstinada e heroica para manter a paz, afim de evitar o horror desta guerra e sabem que essa luta agora será fundamental para eles, porque é fundamental para todos os homens e mulheres. Sabem que durante a guerra em toda a parte onde o fascismo estendeu as suas garras, foram os comunistas, os homens de vanguarda, de maior sacrifício, os mais resolutos, os mais conscientes do perigo fascista e os mais conscientes da necessidade de destruir o fascismo.

O sacrifício de milhões de comunistas no mundo inteiro na luta contra o fascismo e um fato que os povos não esquecem, um ensinamento para a paz e para a liberdade, um orgulho para a civilização. Foram os primeiros a enfrentar o monstro hitlerista, a aceitar a guerra para vencer o fascismo e conservar as conquistas elementares da democracia. E agora, depois da guerra, a vitória se consolidará com a conquista da paz. E os comunistas se apresentam dispostos a tudo fazer ao lado dos povos para manter a paz, aprofundá-la não só em nome do que a democracia já conquistou, mas do que ela terá ainda e muito a conquistar.

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Campanha colaborativa “Ana Montenegro: a luta revolucionária das mulheres”

LIVRO SER OU NÃO SER FEMINISTA E OUTRAS OBRAS ESCOLHIDAS

“ Um reencontro que exige justiça para a realidade da memória histórica das lutas daquelas mulheres.”

A primeira mulher a ser exilada no período da ditadura militar no Brasil devido às importantes tarefas que cumpria na agitação e propaganda e nas relações internacionais do Partido Comunista Brasileiro (PCB), Ana Montenegro foi uma dessas militantes, como escreveu Brecht, imprescindíveis. Na Bahia, quando as bandeiras com seu nome balançam no ar em manifestações, sempre encontramos alguém para falar de suas histórias e seu vigor para a luta. Como muitos contam, mesmo quando idosa, ela pegava um ônibus e ia para o Subúrbio Ferroviário de Salvador ou para qualquer lugar que a convidasse, prestar assistência jurídica à classe trabalhadora mais pauperizada ou fazer falas públicas sobre as lutas comunistas.

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Do Manifesto de Agosto de 50 à Declaração de Março de 58: dois passos à frente e dois atrás

Por Carlos Arthur Newlands “Boné”

(com contribuições dos camaradas Golbery Lessa, Ivan Pinheiro e reprodução de parte de artigo escrito pelos camaradas Muniz Ferreira, Milton Pinheiro e Ricardo Costa)

Foto: V Congresso do PCB – 1960

Introdução

              No ano do centenário de fundação do PCB – Partido Comunista Brasileiro, o tema da Declaração de março de 58 assume especial relevância no debate das comemorações desta efeméride: basta lembrar que a declaração de Março foi o estopim do processo que culminou, no V Congresso do PCB, na explicitação de divergências profundas que geraram o “Manifesto do 100”, embrião da criação em 1962 do PC do B (que cria esta sigla nova, recuperando o nome original de 1922 de Partido Comunista do Brasil).

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Marighella e seu outro – Carlos

Extraído de A Terra é Redonda | Por DÊNIS DE MORAES*

Considerações sobre a trajetória política e intelectual do “engenheiro que escrevia versos”

Em memória de Paulo Mercadante.

Quando elaborava a biografia do escritor Graciliano Ramos, no limiar dos anos 1990, conheci um Carlos Marighella que extrapolava as imagens míticas do comandante guerrilheiro da segunda metade da década de 1960. Tive o privilégio de ouvir os relatos e ler as páginas do diário do advogado e ensaísta Paulo de Freitas Mercadante (1923-2013), um dos amigos da irrestrita confiança de Graciliano, sobre o seu convívio fraterno com Carlos, a partir da redemocratização de 1945. Os três eram militantes do Partido Comunista Brasileiro (PCB), sendo Marighella o veterano (ingressou em 1934) e Graciliano o novato (filiou-se em 18 de agosto de 1945). Paulo lembrou-se de Graciliano emocionado ao receber a soma em dinheiro que amigos comunistas conseguiram reunir para ajudá-lo em momento de agruras financeiras. O único dirigente que participou da coleta de doações foi Carlos Marighella.

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Lindolfo Hill: um outro olhar para a esquerda

Carmen Dea Hill, filha de Lindolfo, e Alexandre Hill, autor da sua biografia.

Lançado em setembro de 2021, o livro “Lindolfo Hill: um outro olhar para esquerda” (Instituto Caio Prado Jr., 250 páginas) recupera a memória do vereador comunista no município de Juiz de Fora – MG, cassado no contexto de perseguição política do governo Eurico Gaspar Dutra contra o PCB no final da década de 1940. O professor Alexandre Müller Hill Maestrini, autor da biografia, também representa a família de Lindolfo Hill na luta pela restituição simbólica de seu mandato. O requerimento enviado à Câmara Municipal de Juiz de Fora e assinado conjuntamente por dirigentes do Partido Comunista Brasileiro, além do PCdoB e do PT, lembra que

O operário Lindolfo Hill era presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil de Juiz de Fora e apoiava as causas das lutas de classes por melhorias da vida e eliminação da inflação. Nas eleições de 19.1.1947, o município com 34.408 eleitores e uma população de 70.849, elegeu seu primeiro vereador comunista com consideráveis 938 votos. Como a maior expressão do PCB de Juiz de Fora, Lindolfo Hill foi o segundo mais votado.

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200 anos de Dostoievski – sobre a possibilidade de um novo mundo

Por Rômulo Caires

O escritor russo Fiodor Doistoievski completaria 200 anos no dia 11 de novembro e depois de tantos anos após suas últimas publicações, que inclui o monumental romance Os Irmãos Karamazov, sua influência e interesse não cessam de aumentar no Brasil. A cada dia que passa, ganhamos traduções melhores e mais completas da sua obra. Tradutores como Boris Schnaiderman e Paulo Bezerra tornaram-se notórios por verterem diretamente do russo o complexo texto do escritor e permitir que os leitores de língua portuguesa acessassem esta obra, que representa não só um vasto panorama da sociedade russa do século XIX como também um grande inventário das ideias circulantes no mundo ocidental. 

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Socialismo: Balanço e Perspectivas (sobre o fim da URSS)

Em 25 de Dezembro de 1991 Gorbachov renuncia à presidência da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), depois de um golpe de estado chefiado por Boris Yeltsin, dando fim ao estado soviético.

Transcrevemos abaixo o documento “Socialismo: Balanço e Perspectivas”, aprovado no XIV Congresso Nacional do PCB:

Texto aprovado no XIV CONGRESSO NACIONAL DO PARTIDO COMUNISTA BRASILEIRO (PCB) – com algumas informações atualizadas

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Minervino de Oliveira: um negro comunista disputa a Presidência do Brasil

TraduAgindo

Texto de Petrônio Domingues, doutor em História pela Universidade de São Paulo e professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS)

Originalmente publicado em 2017, na Revista de Cultura e Política Lua Nova.


All Negroes are aware of the mass of lies on which the prejudice is built, of the propaganda which is designed to cover the naked economic exploitation.

C. L. R. James

No segundo semestre de 1929 a sucessão presidencial foi o assunto da agenda nacional que mais despertou a atenção da população brasileira. A imprensa produziu inúmeras matérias, reportagens e artigos para informar, debater e especular sobre as eleições presidenciais, marcadas para 30 de março de 1930. O presidente da República, o representante da oligarquia paulista Washington Luís, declinou do apoio ao seu sucessor “natural”, Antônio Carlos de Andrade, governador de Minas Gerais, preferindo indicar Júlio Prestes, governador de São Paulo. Washington Luís descumpriu a “política dos estados” – na qual as oligarquias dos principais estados, sobretudo de São Paulo e Minas Gerais, definiam o candidato presidencial a cada sucessão e se revezavam no poder da República -, o que parte da historiografia chamou de “política do café com leite”, já que São Paulo e Minas Gerais se tratavam dos maiores produtores de café e leite do país, respectivamente.1 Em julho de 1929, ele declarou que Júlio Prestes catalisaria o arco de alianças dos Partidos Republicanos, e não escondeu que o aparato político do domínio oligárquico de dezessete dos vinte estados do Brasil seria colocado a serviço de seu candidato. O preterido Antônio Carlos, jogando com a insatisfação das demais facções oligárquicas, articulou uma chapa de oposição, cujo cabeça escolhido foi Getúlio Vargas, governador do Rio Grande do Sul. Formou-se então a Aliança Liberal, aglutinando as “máquinas políticas” de três grandes oligarquias dissidentes (Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba), que recebeu ainda o apoio do Partido Democrático de São Paulo. O programa da Aliança Liberal não se diferenciava dos apresentados pelas oposições oligárquicas em disputas anteriores, a não ser por uma ênfase maior em reformas políticas e medidas de regulamentação do trabalho, almejadas pela classe operária há longa data.

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Cuba e a Revolução Socialista

Por FLORESTAN FERNANDES*

A experiência revolucionária cubana não ocorreu por acidente.
Para muitos, é um enigma que a Revolução, que iria abrir pelo meio a História das Américas, tenha ocorrido em Cuba. Por que Cuba? Poderíamos seguir em frente, desdenhando esse debate, no fundo, ingênuo. Proceder desse modo seria ignorar, porém, que a Revolução cubana transcende a Cuba e ao Caribe: ela coloca as Américas no próprio circuito de formação, difusão e expansão de um novo tipo de civilização. Representa, para todas as Américas, a conquista de um patamar histórico-cultural que parecia nebuloso ou improvável e, para a América Latina, em particular, a evidência de que existem alternativas socialistas para a construção de uma sociedade nova no Novo Mundo. Apanhar o tema por aqui implica, sem dúvida, em uma deflexão. Não há nada de mal em aceitá-la, desde que se mantenha presente a ideia de que semelhante discussão é preliminar (ela não explica a Revolução Cubana). Não devemos, sob qualquer hipótese, atar Cuba aos que ficaram para trás e o que há de mais importante a conhecer tem de ser visto por Cuba e através de Cuba.

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