O socialista que ajudou a derrotar o colonialismo português

Amilcar Cabral, Fevereiro de 1964. Wikimedia

PUBLICADO ORIGINALMENTE EM REVISTA JACOBIN

Uma entrevista com
Peter Karibe Mendy

Tradução
Gabriel Landi Fazzio

Antes de seu assassinato em 1973, Amílcar Cabral era um dos principais anticolonialistas da África – um brilhante engenheiro agrônomo e socialista cuja liderança na luta armada contra o domínio português pôs o império de joelhos.

Nascido em 1912, Amílcar Lopes da Costa Cabral era um prolífico teórico marxista que não apenas liderou a guerra de independência que derrubou o domínio português na Guiné-Bissau e em Cabo Verde, mas influenciou a luta pela descolonização em todo o continente.

 

A primeira batalha – uma guerra de libertação de treze anos que ficou conhecida como “Vietnã de Portugal” – mobilizou dez mil membros do Partido Africano de Cabral pela Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) contra 35 mil tropas oficais e mercenários portugueses.Durante décadas, os portugueses sustentaram um regime colonial profundamente explorador e profundamente repressivo. Então, em 3 de agosto de 1959, as autoridades coloniais mataram cinquenta estivadores que estavam sob a liderança do PAIGC. O massacre convenceu muitos no movimento de libertação de que um caminho pacífico para a independência nacional era impossível. Eles teriam que pegar em armas.

Engenheiro agrônomo por formação, Cabral era um pan-africanista e socialista comprometido – defendendo a independência de todas as colônias africanas de Portugal, enquanto também trabalhava para criar um bloco socialista unificando Guiné-Bissau e Cabo Verde. Nas áreas liberadas durante a guerra, Cabral começou a construir uma economia quase social-democrática que apresentava planejamento estatal, empresas estatais, cooperativas e pequenas empresas privadas. Ainda que Cabral não tenha vivido para ver uma Guiné-Bissau e Cabo Verde livres – ele foi morto em 20 de janeiro de 1973, provavelmente por um assassino apoiado por Portugal – a luta de libertação que ele liderou ajudou a desencadear a queda da ditadura fascista de Portugal e seu império colonial.

Na sua nova biografia, “Amílcar Cabral: um revolucionário nacionalista e pan-africanista”, o estudioso da Guiné-Bissau Peter Karibe Mendy fornece uma introdução acessível à vida de um dos pensadores e estadistas mais originais da África. Sa’eed Husaini conversou recentemente com Mendy sobre o trabalho de Cabral como engenheiro agrônomo, suas opiniões sobre economia e luta armada – e que conselho ele daria para as lutas democráticas de hoje.

SH

Por que você decidiu escrever uma nova biografia de Amílcar Cabral?

PKM

Desde tenra idade, tive consciência da importância de Cabral nas lutas de libertação armada dos povos da Guiné-Bissau (então chamada Guiné Portuguesa) e Cabo Verde. Cresci ouvindo e lendo muito sobre a guerra sangrenta contra os colonizadores portugueses. A liderança efetiva de Cabral desempenhou um papel central no resultado, que culminou não apenas na independência das duas nações da África Ocidental anteriormente governadas em Lisboa, mas também serviu como um catalisador vital para a queda de quase meio século da ditadura fascista em Portugal e para o colapso do império português na África.

Embora tenha sido escrito muito sobre Cabral nas últimas quatro décadas, suas realizações notáveis permaneceram confinadas a um pequeno grupo de estudiosos africanistas e leitores em geral. No contexto do triunfalismo neoliberal, as qualidades visionárias de liderança e ideias progressistas de Cabral permaneceram amplamente desconhecidas no mundo em geral, e na pós-independência da África em particular, enquanto na Guiné-Bissau e Cabo Verde, esse conhecimento diminuiu significativamente.

Daí minha forte motivação para escrever a biografia.

SH

Seu livro documenta a notável jornada de Cabral, de estudante de agronomia a líder de um movimento de libertação bem-sucedido – e também a um dos principais teóricos sociais de sua geração. Que aspectos da formação inicial de Cabral o colocaram nesse caminho de vida?

PKM

Cabral era de origem humilde, crescendo em um ambiente colonial caracterizado por exploração e opressão brutais. Sofreu dificuldades e testemunhou em primeira mão “o povo morrendo açoitado” em sua terra natal (Guiné Portuguesa) e “o povo morrendo de fome” em sua terra natal ancestral (Cabo Verde).

Como estudante universitário em Portugal e como engenheiro agrônomo treinado, ele experimentou o racismo – que ele considerou “repugnante” em sua manifestação colonial no caso de Angola, onde trabalhou como jovem agrônomo africano.

SH

É correto dizer que Cabral encontrou pela primeira vez idéias revolucionárias em forma cultural e literária?

PKM

O encontro de Cabral durante o colegial com o movimento literário Claridade – que teve como objetivo definir e afirmar a identidade crioula específica do povo de Cabo Verde – o motivou a escrever poemas e prosa. Enquanto os poemas e a prosa da época se concentravam nas crises existenciais geradas pelo drama recorrente da seca, fome, pobreza, insularidade e emigração, os poemas e contos de Cabral, bem como sua crítica à literatura nativista emergente, enfatizavam a necessidade transcender a desesperança e o escapismo e se envolver em profundas mudanças.

Cabral argumentou que a utilização da cultura como arma era imperativa porque o domínio colonial implicava opressão cultural. A libertação nacional, concluiu, “é necessariamente um ato de cultura”.

SH

Como o livro documenta, Cabral estava entre um grupo de estudantes africanos que estudavam na Europa na década de 1940, que se sentiram atraídos pelo socialismo e até se juntaram a partidos políticos socialistas e comunistas europeus. O que atraiu estudantes africanos “culturalmente liberados” em Portugal para lutar contra o fascismo português?

PKM

O envolvimento de Amílcar Cabral e de seus colegas estudantes africanos na luta contra o fascismo português precedeu e, em certa medida, paralelizou o processo de “re-africanização do espírito” que experimentaram ou o “retorno às raízes” que empreenderam. Como assimilados (africanos colonizados considerados suficientemente “civilizados” para serem “assimilados” na sociedade portuguesa), eles tinham os mesmos direitos e obrigações legais que os cidadãos de Portugal.

No entanto, apesar do status de cidadãos portugueses, alguns dos estudantes africanos, como Cabral, já estavam conscientes da dura ordem colonial estabelecida em seus países e mantida firmemente pela ditadura fascista em Lisboa chamada Estado Novo. Esses estudantes se identificaram e se envolveram em atividades antifascistas como “patriotas”, mas foram particularmente atraídos pelos socialistas e comunistas portugueses que tinham mensagens de igualdade e justiça social. Seu engajamento ativo nas atividades clandestinas contra o regime permitiu que alguns deles – como Cabral, Agostinho Neto e Mario de Andrade, de Angola, e Marcelino dos Santos, de Moçambique – tivessem acesso à literatura fornecida pelo Partido Comunista Português.

SH

Após seus estudos, Cabral retornou à África na década de 1950 para realizar uma pesquisa agrícola em nome do estado colonial português. No entanto, ao realizar essa pesquisa, Cabral tomou consciência das maneiras pelas quais a economia colonial estava afetando o solo, o meio ambiente e os meios de subsistência dos agricultores africanos. Como o colonialismo desestruturou os meios de subsistência dos camponeses?

PKM

Como engenheiro agrônomo, Cabral estava bem ciente do impacto negativo do colonialismo para a terra e o meio ambiente. Ele estudou e relatou a degradação ambiental e, principalmente, a erosão do solo resultante do intenso cultivo de produtos de exportação em Cabo Verde, Guiné Portuguesa e Angola – impactos que afetaram adversamente a vida e os meios de subsistência das populações colonizadas.

A economia colonial da Guiné Portuguesa era basicamente uma economia agrária camponesa que produzia mercadorias como amendoim, arroz, sementes de palmeira e borracha para exportação. O censo agrícola de referência realizado por Cabral em 1953 mostrou que essas mercadorias de exportação eram cultivadas e reunidas sem a introdução de tecnologia avançada, sem deslocamentos fundamentais das instituições tradicionais, sem desapropriação significativa da terra e sem grandes deslocamentos populacionais.

No entanto, os meios de subsistência dos camponeses foram desestruturados pela obrigação de pagar impostos coloniais em dinheiro, o que exigia o envolvimento em uma economia de exportação e colocava em risco a segurança alimentar. Embora o arroz fosse (e continue sendo) a cultura básica mais importante, também era um dos principais produtos de exportação. A exportação de arroz causou escassez em algumas partes da colônia. Cabral destacou a importância do cultivo de arroz para a segurança alimentar da população indígena e alertou sobre a produção de amendoim que causou degradação do solo e prejudicou a agricultura tradicional.

SH

Mais radicalizado pelo encontro com as realidades da vida camponesa na Guiné Portuguesa e pela observação da violência do estado colonial, Cabral desistiu de seu trabalho como engenheiro agrônomo em 1960 para se tornar estrategista político e teórico do movimento de libertação em tempo integral. Como era Cabral no campo da política e quando, para ele, a violência se tornou necessária?

PKM

A firme aversão de Cabral ao que ele chamou de “violência gratuita” está bem documentada. Ele condenou veementemente os massacres portugueses em São Tomé e Príncipe em fevereiro de 1953, Moçambique em junho de 1955 e dezembro de 1972, na Guiné Portuguesa em agosto de 1959 e Angola em fevereiro e março de 1961.

Ele era a favor do diálogo, mas os portugueses eram intransigentes. O uso da violência foi uma medida de último recurso e a violência usada foi seletiva para evitar ou minimizar os danos colaterais.

Cabral não era um soldado treinado e nem frequentou uma academia militar. Mas ele tinha uma mente afiada que abordava a resolução de problemas com análise crítica e profunda reflexão sobre cenários construídos e possíveis resultados. Ele era um pensador estratégico e um diplomata muito articulado e habilidoso que apresentava argumentos convincentes pela causa da libertação nacional.

Desde sua decisão de dedicar sua vida à luta pela libertação até sua morte prematura, Cabral sacrificou sua posição relativamente privilegiada na metrópole e na sociedade colonial portuguesa como um agrônomo “civilizado”, “assimilado”, formado na universidade, em favor da identificação com seus companheiros colonizados, oprimidos e explorados. Isso foi consistente com sua noção de “suicídio de classe”.

SH

Certo, no livro você explica: “Reconhecendo o papel de liderança da pequena burguesia nacionalista na luta armada, Cabral enfatizou a necessidade de ‘cometer suicídio como classe’ e ‘renascer como trabalhadores revolucionários’ para evitar o ‘traição aos objetivos da libertação nacional’ e impedir a transição do colonialismo para o neocolonialismo.” É correto dizer que Cabral ajudou a desencadear a queda do Estado Novo em Portugal?

PKM

As ideias revolucionárias de Cabral e a sua conduta na luta pela libertação armada influenciaram alguns dos soldados portugueses que lutavam contra seu exército. O “movimento dos capitães” que mais tarde se tornou o Movimento das Forças Armadas (MFA) nasceu em Bissau em agosto de 1973 e foi liderado por oficiais juniores fatigados pela guerra que admiravam Cabral e aceitavam a ideia radical de que o colonialismo português na África deveria acabar.

O MFA realizou um golpe de estado em 25 de abril de 1974, que derrubou a ditadura do Estado Novo, de 48 anos, restaurou a democracia liberal em Portugal e facilitou o desmantelamento do império português na África.

SH

Você salienta que as áreas que foram liberadas sob o PAIGC de Cabral durante a luta de libertação tiveram ganhos econômicos marcantes. No entanto, muitos desses ganhos foram perdidos nos anos seguintes à sua morte. Por quê?

PKM

Nas áreas da Guiné Portuguesa liberadas pelo PAIGC, surgiu um sistema de Lojas Populares em resposta ao desejo de Cabral de “destruir a economia do inimigo e construir a nossa”. A economia agrícola camponesa foi reorganizada para beneficiar as necessidades básicas dos moradores, com as Lojas do Povo servindo como pontos de venda para produtos excedentes que eram trocados por mercadorias importadas.

Como engenheiro agrônomo, Cabral sabia que o destino de sociedades agrárias como seu país estava muito ligado ao desenvolvimento da agricultura e que, para que a produção agrícola aumentasse ou se sustentasse em alto nível, produtores e agricultores rurais precisariam ser incentivados com preços atraentes. Sua estratégia de desenvolvimento econômico enfatizava a agricultura como a base da economia da nação independente emergente e baseava nela o desenvolvimento e a industrialização nacionais. A estratégia implicava significativa intervenção estatal.

No entanto, durante a primeira década de independência, em seu esforço para consolidar a soberania sobre a economia nacional, o partido governante do PAIGC implementou um plano de desenvolvimento urbano que reforçava as disparidades rural-urbanas. Com um sistema de preços desincentivador e infraestrutura de transporte precária, a produção agrícola diminuiu.

A crise econômica resultante obrigou o partido no poder a abandonar a estratégia de Cabral e adotar reformas econômicas liberais, incluindo programas de ajuste estrutural aconselhados e amplamente financiados pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e pelo Banco Mundial. Os esforços para reestruturar a economia da Guiné-Bissau em favor da “economia de mercado livre” tiveram pouco impacto na profunda crise do desenvolvimento, caracterizada pela deterioração da infraestrutura física e social.

SH

A teoria revolucionária de Cabral visava desmantelar o colonialismo e a ditadura. O que Cabral diria hoje aos cidadãos das democracias emergentes nominalmente independentes da África?

PKM

A teoria revolucionária de Cabral visava acabar com a dominação colonial, mas ele acreditava que esse objetivo só alcançaria a “independência da bandeira”. Ele fez uma distinção entre a luta pela independência que termina na dependência neocolonial e a luta de libertação nacional que envolve descolonização mental e profundas transformações socioeconômicas que impactassem favoravelmente a vida das pessoas.

A mensagem de Cabral aos cidadãos das democracias iliberais da África contemporânea seria: A luta continua.

SH

O que ele poderia dizer aos cidadãos das democracias ocidentais hoje, enquanto lutam contra a possibilidade de recessão democrática?

PKM

Dados os paradoxos e contradições prevalecentes nas democracias ocidentais, Cabral pode se sentir justificado por seu conceito de “democracia revolucionária” – que enfatiza a participação popular em decisões que afetam vidas e meios de subsistência, controle popular sobre instituições estatais, empoderamento por meio de educação e treinamento, e o estabelecimento de uma economia eficiente para satisfazer necessidades e aspirações fundamentais.

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Quem é a classe trabalhadora brasileira?

A construção da ideia de mercado de trabalho no Brasil ainda se afirma como um instrumento de classe da ordem do capital que tergiversa sobre a exata definição da classe trabalhadora brasileira.

 

 

“Woman Washing Clothes”, de Charles Alston. Imagem extraída da capa do livro A classe trabalhadora, de Marcelo Badaró Mattos (Boitempo, 2019)

 

Por Sofia Manzano.

Um dos maiores problemas para a compreensão da realidade é a propositada confusão entre termos e conceitos presentes, não só nos meios de comunicação, mas também em trabalhos acadêmicos e científicos. Assim, dados que aparecem na mídia sobre emprego, desemprego, classe trabalhadora etc., por mais que correspondam às pesquisas dos institutos como IBGE e DIEESE, carecem de análise cuidadosa para se chegar mais próximo do que realmente ocorre com a população brasileira, principalmente a parcela dessa população que é a responsável pela produção da riqueza, ou seja, a classe trabalhadora.

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Panafricanismo e comunismo: conversa com Hakim Adi

A par da história dominante dos partidos comunistas europeus, centrada na classe operária metropolitana, é possível reconstituir a trajetória subterrânea destes militantes comunistas e panafricanos, minoritários nos seus partidos, mas ativamente apoiados por Moscovo no intervalo entre as duas guerras. Trata-se de uma época em que os jovens partidos comunistas são dominados por Brancos, metropolitanos, ou por colonos nas colónias. Para combater o oportunismo, o chauvinismo implícito ou explícito desses militantes, a Internacional comunista procedeu à estruturação de uma série de organizações transnacionais, encarregadas de coordenar a atividade revolucionária em torno da «questão negra»: África do Sul, colónias da África negra, segregação nos Estados Unidos, etc. Hakim Adi conta agora esta história inédita, a de um encontro original entre o comunismo, o nacionalismo negro e o panafricanismo.

 

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Contra o revisionismo histórico: o pacto de não agressão germano-soviético e a Segunda Guerra Mundial

por Jones Manoel

A verdade é que, se hoje o mundo não fala alemão e a escravidão racial aberta não campeia pelo mundo, se a barbárie colonialista sofreu duros golpes no século XX, devemos agradecer à União Soviética – seu povo, o Exército Vermelho, o Partido Comunista da URSS e seu líder máximo, Josef Stálin. É isso que a União Europeia quer ocultar, mas não vai conseguir.

 

Vyacheslav Molotov assina o pacto de não agressão germano-soviético em 23 de agosto de 1939.
Ao fundo e ao centro, Joachim von Ribbentrop e Josef Stálin.

 

Recentemente, no último dia 19 de setembro, a União Europeia aprovou um documento chamado “Sobre a importância da memória europeia para o futuro da Europa”. O escrito tem como objetivo indicar a história oficial da União Europeia (UE) e combater aqueles que supostamente solapam a democracia e o histórico de defesa dos direitos humanos do continente. Numa palavra, visam atacar de uma só vez a história do movimento comunista, a Rússia e a China.

Dentre os vários absurdos contidas no documento, a resolução defende que a UE nasceu da luta contra o “totalitarismo comunista” (stalinismo) e nazista e afirma categoricamente que a Segunda Guerra Mundial teria sido causada pelo Pacto de Não-Agressão Germano-Soviético, o famoso Pacto Molotov-Ribbentrop. Diz o documento:

“Salienta que a Segunda Guerra Mundial, a guerra mais devastadora da história europeia, foi o resultado imediato do infame Pacto de Não-Agressão Germano-Soviético de 23 de agosto de 1939, também conhecido como Pacto Molotov-Ribbentrop, e dos seus protocolos secretos, através dos quais dois regimes totalitários que partilhavam o objetivo da conquista do mundo dividiam a Europa em duas zonas de influência”.

Pedro Marin, em brilhante artigo, fez um mapeamento da institucionalização do anticomunismo nos diversos países da Europa e de outros continentes, inserindo a resolução da UE no seu contexto sociopolítico maior. Eu, considerando a existência do presente escrito, me coloco uma missão diferente: tentarei mostrar como é uma mentira grotesca essa noção de que foi o Pacto Molotov-Ribbentrop que causou a Segunda Guerra, procurando inserir esse acontecimento em seu devido contexto histórico, e debater os temas correlatos (como o uso do Pacto como uma suposta prova empírica da afinidade entre Hitler e Stálin, ambos dirigentes de regimes “totalitários”, como diria Hannah Arendt).

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SIMPÓSIO: 100 ANOS DA INTERNACIONAL COMUNISTA (1919-2019)

Departamento de História (FFLCH) da Universidade de São Paulo – 16 a 18 de outubro de 2019

Programação

Quarta-Feira 16 de outubro

9:00 (AH):  INTERNACIONAL SOCIALISTA, REVOLUÇÃO RUSSA E TERCEIRA INTERNACIONAL: Osvaldo Coggiola – Debatedor: Rodrigo Ricupero

9:00 (AG): O PARTIDO COMUNISTA NA HISTÓRIA DO BRASIL: José Salles – Augusto Bonicuore – Sofia Manzano – Lucca Maldonado – Frederico Falcão

9:00 (ANS): OS ARQUIVOS E O ESTUDO DA INTERNACIONAL COMUNISTA: Bernhard Bayerlein – Debatedor: Daniel Gaido

9:00 (AMS): INTERNACIONAL COMUNISTA E REVOLUÇÃO LATINO-AMERICANA: Deni Rubbo – Yuri Martins Fontes – Claudia Romero – Mariano Schlez

14:00 (AH): O ANARQUISMO E A INTERNACIONAL COMUNISTA: Ricardo Rugai – Acácio Augusto – Marly Viana – Felipe Correa – Elvio Rodrigues Martins

14:00 (AG): COMUNISMO E INTELECTUALIDADE BRASILEIRA: Francisco Alambert – Marcelo Ridenti – Paulo Barsotti – Marcos Antonio Silva – Pedro Pomar

14:00 (ANS): AS EDITORAS DA INTERNACIONAL COMUNISTA: Dainis Karepovs – Marisa Midori – Lincoln Secco – Flamarion Maués – Felipe Lacerda

14:00 (AMS): A INTERNACIONAL COMUNISTA E A CHINA: José Rodrigues Mao Jr – Andrea Longobardi – Aldo Sauda – Francisco Prandi

14:00 (CAPH): A EDUCAÇÃO NA INTERNACIONAL COMUNISTA: Carlos Bauer – Debatedores: Cássio Diniz – Ítalo de Aquino

17:30 (AH): A INTERNACIONAL COMUNISTA E OS PAÍSES ÁRABES: Soraya Misleh – Debatedor: Reginaldo Nasser

17:30 (AG): GRAMSCI, O PC ITALIANO E A INTERNACIONAL COMUNISTA: Deise Rosalio – Bernardo Ricupero – Alvaro Bianchi – Lincoln Secco

17:30 (ANS): A INTERNACIONAL COMUNISTA E A QUESTÃO NEGRA: Wilson H. Da Silva – Eduardo Januário – Gisele Sifroni – Geferson Santana

17:30 (AMS): LUIS EMILIO RECABARREN E O PARTIDO COMUNISTA CHILENO: Horacio Gutiérrez – Debatedora: Gabriela Pellegrino

19:30 (AH): A INTERNACIONAL COMUNISTA ENTRE LÊNIN E STALIN: Bernhard Bayerlein – Debatedor: Osvaldo Coggiola

19:30 (AG): HUNGRIA 1919: A REPÚBLICA DOS CONSELHOS OPERÁRIOS: Tibor Rabockzai – Debatedor: Milton Pinheiro

19:30 (ANS): A INTERNACIONAL COMUNISTA E A INSURREIÇÃO DE 1935: Marly Viana – Gilberto Maringoni – Elizabeth Cancelli – Maria Aparecida de Paula Rago

19:30 (AMS): INTELECTUAIS E INTERNACIONAL COMUNISTA: Deni Rubbo – Alessandro Soares – Marcos Del Roio – Muniz Gonçalves Ferreira

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Quatro princípios para a formação política revolucionária

 

 

Por Jones Manoel

BLOG DA BOITEMPO

Sabemos bem que sem boa formação política é impossível uma prática política correta e eficiente. Mas o que afinal constitui uma boa formação política?

O objetivo da coluna deste mês é expor de maneira mais ou menos sistemática o que considero ser os maiores erros no processo de formação política da militância da esquerda revolucionária. Sabemos bem que sem boa formação política é impossível uma prática política correta e eficiente (ainda que a boa formação política por si só não garanta isso). Mas o que é uma boa formação política? Buscando ser o mais didático possível, proponho destrinchar a questão sistematicamente em quatro princípios, que passo a abordar detidamente a seguir.

 

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Pinochet, o triunfo do fascismo de mercado e a admiração mútua com o general Franco


Alejandro Torrús
 – ODIARIO.INFO

Tal como sucede todos os anos em 11 de Setembro, os grandes media recordaram as Torres Gémeas de Nova Iorque e ignoraram o golpe fascista de 1973 no Chile. Há muitas razões de actualidade para não esquecer o fascismo chileno: a sua estreita articulação com a corrente neoliberal do capitalismo; o papel dos EUA no incentivo e preparação do golpe; o facto de este fascismo dos anos 70 se associar ao que ainda vinha da década de 30 (como o franquismo) e ser incensado por forças que integram, um pouco por toda a parte, o actual levantar da cabeça da extrema-direita.

Esta quarta-feira marca os 46 anos do golpe de Estado no Chile que derrubou Salvador Allende. O doutor em História Mario Amorós publica “Pinochet. Biografia militar y política”, uma obra que aspira a converter-se numa referência mundial para estudar a figura do ditador chileno desde o início da sua carreira no Exército até aos seus últimos dias de vida.

Era o 11 de Setembro de 1973. A República do Chile era a democracia mais avançada da América Latina, mas o contexto internacional era complicado. Muito complicado. Três anos antes, o candidato da Unidade Popular Salvador Allende havia-se imposto nas eleições presidenciais com a sua “via pacífica para o socialismo”. Mas os Estados Unidos tinham como muito claro que a Unidade Popular não podia triunfar. Tinha-o deixado muito claro o seu secretário de Estado, Kissinger, durante uma reunião do Conselho de Segurança Nacional realizada em 1970. “O sucesso de um governo marxista eleito pelo povo seria um claro exemplo (e até um precedente) para outras partes do mundo”. Ali mesmo, em 1970, começaram os ataques à economia chilena para a isolar, a enfraquecer e a desestabilizar até fazer do Chile um país ingovernável. Allende, porém, resistia.

A Unidade Popular permanecia no poder e mantinha o apoio social. Foi então, em 11 de Setembro, que se recorreu à violência. Às armas. Ao sangue. Quando o exército chileno conquistou o seu próprio país e Allende perdeu a vida encurralado no Palácio de la Moneda. “A história é nossa e fazem-na os povos”, lançou o socialista na sua última mensagem à nação chilena.

Nesse 11 de Setembro de 1973 consumou-se a infâmia. Um acto de guerra, como o bombardeamento do palácio de La Moneda, acabava com a democracia chilena. Os partidos políticos eram banidos, as liberdades e os direitos dos cidadãos eram suprimidos. Chegavam o exílio e a repressão sistemática. Acabavam também o controlo dos preços, a distribuição de leite nas escolas e a proteção laboral dos trabalhadores. O império do terror era imposto. No topo da ditadura brutal e como seu rosto visível foi-se impondo a figura de Augusto Pinochet, que havia sido o chefe máximo das Forças Armadas durante a presidência de Allende. Esse militar apresentava-se assim perante o mundo como um paradigma de ditador impiedoso e entronizado pela traição. Como escreveu o historiador Josep Fontana, Pinochet simbolizou como ninguém a imagem do fascismo na América Latina.

Agora, quando passam 46 anos sobre esse momento crucial, o Doutor em História da Universidade de Barcelona, Mario Amorós, publica Pinochet. Biografia militar y política (Edições B), a primeira biografia histórica do ditador documentada em arquivos e bibliotecas de quatro países diferentes, centenas de artigos e referências na imprensa, discursos, entrevistas, testemunhos e opiniões de familiares e colaboradores. Em suma, um trabalho de mais de 800 páginas que aspira a converter-se em referência mundial para tratar uma das figuras mais importantes do século XX: Augusto Pinochet.

Este livro chega, além disso, num momento novamente complicado. Líderes como Jair Bolsonaro, presidente do Brasil, manifestaram-se a favor de Pinochet e do seu golpe de Estado. Também seguidores de Donald Trump, que escolheram o seu nome para uma polémica T-shirt com o lema “Pinochet não fez nada de mal!” e em cujas costas se vê um helicóptero a atirar pessoas pelos ares. E até Vox, em Espanha, estabeleceu contacto com José Antonio Kast, líder da extrema-direita chilena. Assim, a vaga reaccionária que percorre o mundo trata de recuperar para si a figura de Pinochet. O golpe de Estado de 11 de Setembro não seria um acto de guerra, mas sim uma “intervenção” para salvar o Chile do comunismo. Pinochet não seria um ditador, mas um governante autoritário que, através da Constituição de 1980, se auto limitou. Em suma, Pinochet teria lançado as bases para um Chile moderno.

Talvez por isso, o trabalho de Amorós é agora mais imprescindível do que nunca. A História contra o esquecimento, contra a manipulação. “Pinochet simboliza a imagem do fascismo na América Latina. Mas neste caso não falamos do fascismo da Europa entre as guerras. Trata-se de um fascismo de mercado. O golpe no Chile foi o golpe de uma classe social, a burguesia, que se serviu da força do Exército para esmagar organizações de esquerda e implantar um modelo neoliberal de economia da forma mais brutal”, explica Amorós ao Público. O autor, de facto, descreve Pinochet como um “ditador impiedoso que demonstrou uma ambição insaciável de poder”. “E o seu instrumento foi o terror, pois não hesitou em desencadear a única guerra em que participou ao longo de sua vida: a guerra contra um povo desarmado”, escreve Amorós.

Assim, a repressão da ditadura chilena também serviu para converter o Chile no laboratório mundial do neoliberalismo. O ditador cedeu em 1975 o comando económico do país a um grupo de jovens profissionais formados na Universidade de Chicago e que aplicaram as receitas neoliberais de Milton Friedman e Arnold Harberger. Em suma, a ditadura chilena realizou uma contrarrevolução capitalista em toda a regra que desfez o processo de nacionalizações iniciado por Allende, devolveu aos seus proprietários originais as terras ocupadas pelos camponeses, liberalizou os preços, reduziu o gasto público em mais de 25 % e revogou leis que impediam os despedimentos de trabalhadores. Tudo isso foi recomendado pelos Chicago Boys e pelo plano elaborado por Friedman para o Chile. O plano teve como principal apoio a repressão e a violência.

“O ‘milagre chileno’ dos Chicago Boys, tão exaltado por certos sectores, supunha que, após a sua derrota no plebiscito de 1988, em 11 de Março de 1990 Pinochet entregasse um país que tinha 40% da sua população em situação de pobreza. absoluta. E seus efeitos fazem-se sentir até hoje com umas pensões miseráveis, uma assistência médica adequada apenas para aqueles que a podem pagar, o ensino superior mais caro da América Latina e uma fractura social das mais nítidas do mundo “, denuncia Amorós

Uma admiração mútua entre ditadores

O terror de Pinochet chegou a tal ponto que, segundo documento do Ministério dos Assuntos Exteriores, o embaixador espanhol no Chile, Enrique Pérez-Hernández, recomendou ao ditador chileno “moderação e clemência” e indicou que a repressão contra a esquerda estava a ser “muito dura”. Pinochet, segundo esta documentação, garantiu ao funcionário espanhol que tomaria cuidado, principalmente em casos concretos como o de Neruda. Outro documento da diplomacia espanhola fazia um balanço de como era a situação no Chile naqueles dias: “A situação está absolutamente controlada pela Junta de Governo; mas na ponta das baionetas e das metralhadoras”. “A repressão tem sido dura e continua a sê-lo. Alguém viu que nada menos de 200 mortos são levados todas as noites para o necrotério e inclusivamente o nosso embaixador viu-os durante o dia. O número de mortes calcula-se em cerca de 4.000, dos quais metade em combate e a outra metade fuzilados sem julgamento”, informava a diplomacia espanhola.

No entanto, embora a diplomacia tenha informado o regime franquista das graves violações de direitos humanos cometidas no Chile, o ditador espanhol correspondia-se com o chileno. Apenas um dia após o golpe de Estado no Chile, Pinochet enviava uma carta a Francisco Franco para comunicar a substituição do embaixador do Chile em Espanha e transmitir-lhe uma admiração que, segundo Amorós, era mútua: “Peço-lhe que aceite os votos sinceros que formulamos pelo o bem-estar de Vossa Excelência e pela grandeza da Espanha”. De facto, dois anos depois, em 18 de Setembro de 1975, apenas dois meses antes da morte de Franco, o chefe do Estado Maior do Exército Espanhol, tenente-general Emilio Villaescusa, entregava a Pinochet, em nome de Franco, a máxima distinção do Exército espanhol em tempos de paz, a Grande Cruz ao Mérito Militar.

A morte de Franco estava próxima, mas a correspondência entre os dois ainda não havia terminado. Em 27 de Setembro, Franco executaria os últimos cinco fuzilamentos da ditadura. Três membros da ETA e dois do FRAP seriam fuzilados após conselhos de guerra sem as menores garantias processuais. O mundo voltava as costas ao regime de Franco. Mas Pinochet aplaudia: “Estou certo de que desta dura prova emergirá uma Espanha ainda mais forte, unida e respeitada pela força das suas convicções e pelo ressurgimento de suas atitudes e guardo a esperança de que no futuro se valorizará melhor o esforço dos povos de carácter para forjar o seu próprio destino “.

Pinochet foi recebido em Espanha à porta do avião por Juan Carlos I. Abraçaram-se. A carta seria respondida pelo ditador espanhol nos seguintes termos: “Não podemos tolerar que a maquinação urdida por organizações inimigas da nossa pátria comprometa o normal desenvolvimento, em paz e prosperidade, do nosso povo e é dever do governante preservar a paz e segurança do seu país contra aqueles que subvertem a ordem pública comprometendo a estabilidade e o sossego da sociedade ”.

Esta foi a última comunicação estabelecida entre Franco e Pinochet. O espanhol morreria em 20 de Novembro daquele ano e o chileno acorreria a Espanha para o seu funeral. Chegou o dia 21. Sexta-feira. Ao pé do avião, recebia-o Juan Carlos, herdeiro do ditador. Abraçaram-se. “Nestes momentos em que Franco passou à história, é um Caudilho que nos mostrou o caminho a seguir na luta contra o comunismo”, declarou Pinochet depois de se reunir alguns minutos com aquele que pouco depois seria proclamado rei da Espanha.

Paralelismos entre as duas ditaduras

A admiração que Pinochet sentia pelo ditador Franco também ficou à vista naqueles dias em que o autoproclamado “caudilho” da Espanha era enterrado. O assessor do ditador chileno Federico Willoughby-MacDonald leu um comunicado em que estabelecia paralelismos com a ditadura espanhola: “A Espanha sofreu durante muito tempo tal como nós sofrermos a tentativa perversa do marxismo que semeia o ódio e pretende mudar os valores espirituais por um mundo materialista e ateu. A coragem e a fé que engrandeceram a Espanha inspiram também a nossa luta actual … “.

De facto, Pinochet seguiu uma estratégia semelhante à de Franco para justificar, ao longo dos anos, a sua participação no golpe de Estado. “Em Pinochet aprecia-se um providencialismo presente. Tal como Franco fez, justificou praticamente o golpe para salvar o Chile do comunismo. Apenas faltou apenas proclamar-se Caudillo do Chile pela graça de Deus”, diz Amorós.

As semelhanças são importantes. Pinochet, como Franco, não foi o instigador do golpe de Estado, mas juntou-se a ele à última da hora e foi inteligente o suficiente para impor seu poder aos demais militares golpistas. Pinochet, como Franco, justificou o seu golpe de Estado como um “dever patriótico” de salvar o Chile das garras do comunismo e face ao risco de “quebrar a unidade nacional”. Os golpistas chilenos, como os espanhóis, contactaram uma potência estrangeira (Brasil) para dispor de armas de guerra caso o golpe de Estado de 11 de Setembro fracassasse e se chegasse a uma Guerra Civil, como em Espanha. E Pinochet, como Franco, esforçou-se muito para manter uma propaganda que o situasse como uma espécie de enviado de Deus para salvar o seu país.

“Co toda a razão, o fascismo espanhol considerava Pinochet como um dos seus”, escreve Amorós
De facto, o mesmo ditador chileno confessou ao presidente do Cabildo da Gran Canaria, Lorenzo Olarte, em 24 de Novembro de 1975, na sua escala de regresso ao Chile, que gostaria que fosse construído no seu país “um Vale dos Caídos” que o recordasse para a posteridade, como escreveu o jornalista Fernando Olmeda na obra El Valle de los Caídos. Una memoria de España.. E assim, como relata Amorós, o fascismo espanhol considerou Pinochet como “um dos seus”. A admiração comprovou-se nas Cortes durante a cerimônia de juramento e proclamação de Juan Carlos de Borbón como rei da Espanha. O ditador chileno foi aclamado pelo público estacionado na rua tal como quando se sentou no Congresso: “Particularmente, os militantes de Falange vitoriaram-no e lançaram sobre ele as suas boinas vermelhas. Com toda a razão, o fascismo espanhol contava-o como um dos seus.” .

No entanto, o ditador chileno não teve o seu Vale dos Caídos. As suas cinzas permanecem enterradas numa capela de um terreno particular da família Pinochet em Los Boldos, na costa central do Chile, sob uma lápide de mármore. Entretanto, em Espanha, Franco continua no Vale dos Caídos e o Supremo Tribunal tornará público em 24 de Setembro se permite ou não a exumação de Franco.

Fonte:https://www.publico.es/politica/pinochet-triunfo-fascismo-mercado-admiracion-mutua-general-franco.html

Notas sobre conservadorismo e pensamento político de direita

Comissão Nacional de Formação Política do PCB – Partido Comunista Brasileiro

a) Relação do tema com a atualidade da crise do capital

Não é por mera coincidência que a ascensão mundial das direitas tenha ganhado impulso a partir do final da década passada, se tornando cada vez mais forte nos primeiros anos da atual. É no ano de 2008 que vêm à superfície os efeitos devastadores dessa que tem sido classificada como a mais aguda crise do capitalismo desde o Crash da bolsa de 1929, e a subsequente Grande Depressão dos anos 1930. O recurso à memória ajuda a esclarecer a relação entre tais fenômenos –  crise econômica e recrudescimento autoritário – pois a história testemunha a escalada fascista e o conflito imperialista como desfecho do abalo de 90 anos atrás. Se por um lado há uma inegável diferença de estágios de amadurecimento do sistema que entra em crise, por outro permanecem similaridades estruturais que iluminam as bases materiais dessa ofensiva conservadora atual.

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