O papel dos militares no Brasil Republicano

 

Mais uma vez, na história da República brasileira, se coloca a questão militar, isto é, a interferência indevida e inconstitucional dos militares no jogo politico da classe dominante. Mas não fariam, eles próprios, parte deste jogo?
São perguntas que passaremos a debater, pois neste momento, em que milhares de militares, da ativa e da reserva, ocupam cargos no governo Bolsonaro/Mourão, torna-se premente a indagação: já vivemos, novamente, sob um governo militar? As instituições da democracia burguesa estão funcionando como diz a grande mídia, ou apenas são a aparência do mundo real, no qual prevalecem as decisões dos representantes dos altos comandos militares, particularmente do Exército?

Para debater essas e outras questões, a FDR convida o General Bolívar Meirelles e os professores Muniz Ferreira e Paulo Ribeiro da Cunha. A conversa será transmitida ao vivo no dia 01 de março, às 18:30, pelo Facebook e YouTube.

Modernidade, capitalismo e racismo

Por Charlie Post, via The Brooklyn Rail, traduzido por Gustavo Guimarães*

lavrapalavra.com/2021/02/08/para-alem-do-capitalismo-racial-por-uma-teoria-unificada-do-capitalismo-e-da-opressao-racial

 

 

Para além do “capitalismo racial”: por uma teoria unificada do capitalismo e da opressão racial | LavraPalavra

 

N.T.: Charlie Post é professor de Ciências Sociais, Serviços Humanos e Justiça Criminal na Universidade da Cidade de Nova York; um exímio pesquisador de história sociológica, especialmente da gênese e desenvolvimento do capitalismo, das relações sociais de raça, das relações de trabalho e seu desenvolvimento; e um histórico militante socialista. Para mais escritos seus (em inglês), aqui e aqui

Esse texto é uma adaptação do capítulo de conclusão de seu livro The American Road to Capitalism (em tradução livre: A Via Americana ao Capitalismo) que, além disso e ao mesmo tempo, enseja adentrar nas discussões levantadas no último período de lutas radicais nos EUA, sobretudo sobre a relação entre raça e classe — ou, melhor, entre racismo/opressão racial e capitalismo. Aqui, o autor combate tanto as teses que defendem uma relação “acessória”, “oportunista” ou “contingente” entre raça e as relações de produção capitalistas, quanto a tese do “capitalismo racial”: explicação cada vez mais popular nos meios antirracistas radicais, mas que acaba reproduzindo uma lógica fragmentária que falha em compreender as raízes essenciais da raça e o capitalismo em si, como totalidade contraditória e articulada de relações sociais. O artigo foi publicado originalmente em Brooklyn Rail. As notas do autor, do texto original, estão indicadas por números em colchetes. As notas da tradução, por letras com asterisco. Essa tradução foi feita com a autorização do autor do artigo original.


O levante impulsionado pelo assassinato de George Flyod pela polícia em Minneapolis colocou novamente a questão racial no centro da política nos EUA. Enquanto a direita nega enfaticamente a existência do racismo e defende mais repressão contra os que protestam contra a violência policial, a esquerda — tanto a liberal quanto a socialista — está lutando para lidar adequadamente com a rebelião popular. Para os liberais, o problema é simplesmente uma questão de “falta de diversidade” — é que a polícia, as classes médias, as lideranças corporativas estadunidenses e o establishment político não “refletem” a população como um todo. Os liberais esperam desvirtuar essas lutas, como fizeram com aquelas dos anos 1960 e 1970, promovendo uma nova classe média não-branca sem tratar ou resolver a pobreza e a insegurança crescentes dos trabalhadores não-brancos. Como Asaid Haider [1] argumentou, os neoliberais transformaram a “política identitária” de um ataque contra o racismo, o sexismo e o capitalismo para uma demanda por diversificação da elite política e econômica, sem interferir minimamente nas desigualdades massivas de riqueza e renda.

A esquerda socialista também está tentando se sincronizar com os novos eventos. A principal organização da esquerda estadunidense, o Democratic Socialists of America (Socialistas Democráticos da América, de sigla DSA), foi pega de surpresa por essas novas lutas, e tem tido dificuldade em se deslocar da rotina da política eleitoreira do Partido Democrata para se engajar na organização de um movimento contínuo contra o racismo e o capitalismo [2]. Alguns no DSA falharam em acolher as demandas mais radicais da revolta — pelo desfinanciamento, desarmamento e dissolução da polícia — e, em vez disso, argumentaram por uma campanha continuada ao redor de demandas “universais” por melhores salários (incluindo os da polícia) e mais verbas para os serviços públicos [3]. Alguns na esquerda, que querem transcender tanto o identitarismo neoliberal quanto o reducionismo de classe, avançaram na ideia do “capitalismo racial”. A ideia de que o capitalismo e o racismo estão interligados pode ser traçada até Marx, através dos trabalhos de Eric Williams, Oliver Cromwell Cox, e, mais recentemente, Cedric Robinson; e é utilizada, hoje, para defender uma política que fomente a organização tanto contra a opressão racial quanto a exploração de classe. [4]

Em um post recente no site Dissent, Michael Walzer admite estar “intrigado” pelo termo “capitalismo racial” [5]. Enquanto reconhece que as histórias do capitalismo e do racismo coincidem nos Estados Unidos, Walzer afirma que nem todos os capitalismos envolvem racismo. Ele argumenta que “a forma de capitalismo patrocinada pelos comunistas chineses é obviamente não-racial”, porque muçulmanos perseguidos são “caucasianos” e todos os trabalhadores que Friedrich Engels estudou em Manchester em 1844 eram brancos. Como “o capitalismo é o explorador universal”, ele é “cego quanto à cor” — “qualquer trabalhador disponível servirá”. Então, “capitalismo e racismo precisam ser analisados separadamente… a sobreposição é circunstancial, não necessária”.

O argumento de Walzer sofre de dois problemas. Primeiro, ele reduz o racismo — a noção de que a humanidade é dividida em grupos distintos, com características imutáveis que tornam um grupo inerentemente superior, e os demais inerentemente inferiores [7] — a diferenças fenotípicas. Como o marxista britânico Satnam Virdee defendeu, a análise de raça precisa ir além de entendê-la como “um fenômeno codificado por cores, para incluir outras modalidades de racismo” [8], como o racismo anti-irlandês e o racismo antissemita. Assim como os irlandeses eram racializados como parte de uma raça “céltica” inerentemente inferior na Grã-Bretanha dos séculos XIX e XX, as diferenças entres chineses han dominantes e os muçulmanos uyghur são racializadas — feitas essenciais e imutáveis, permanentes. Em segundo lugar, e de certa forma mais profundamente, Walzer e outros “reducionistas de classe” confundem as pré-condições históricas para a emergência do capitalismo com os efeitos necessários e inevitáveis da reprodução do capital via acumulação e concorrência. Eles são, então, incapazes de explicar a persistência universal da desigualdade racial entre as pessoas trabalhadoras sob o capitalismo [9].

Infelizmente, as tentativas de mobilizar a noção de “capitalismo racial” para defender uma relação necessária, em vez de contingente, entre capitalismo e racismo, feitas pelos críticos de Walzer, reproduzem a separação analítica entre racismo e capitalismo. Em uma resposta espirituosa a Walzer, Olúfẹ́mi O. Táíwò e Liam Kofi Bright utilizam dos trabalhos de Cox e Robinson para demonstrar como capitalismo e racismo estão entrelaçados. Enquanto tanto Cox quanto Robinson adotam o problemático “modelo da comercialização” para explicar o surgimento do capitalismo, onde ele emerge naturalmente da expansão do comércio [11], suas perspectivas sobre a relação entre capitalismo e racismo são fundamentalmente incompatíveis. Cox afirma — corretamente, na minha visão — que o racismo, como uma forma específica de diferenciar seres humanos, se desenvolveu com as relações capitalistas de propriedade e é uma característica necessária desse sistema. Robinson, pelo contrário,

sustenta que o feudalismo europeu já era “racializado”, bem antes da emergência do capitalismo. Assim como as teorias contemporâneas da interseccionalidade, onde raça e classe são tratados como sistemas separados, mas interligados, de opressão [12], a noção de “capitalismo racial” de Robinson enxerga a relação entre racismo e capitalismo como historicamente contingente — se o capitalismo houvesse surgido fora da Europa, o racismo não teria sido uma de suas características necessárias.

A alegação de Robinson de que o racismo existia na Europa antes do surgimento do capitalismo é baseada numa confusão fundamental entre os modos capitalistas e pré-capitalistas de diferenciação dos seres humanos. Na Antiguidade Clássica e no feudalismo, os humanos diferenciavam-se uns aos outros por categorias como religião (“pagãos e fiéis”) e comunidades de parentesco (“estranhos e vizinhos/parentes”). Ambas as categorias tendiam a ser altamente flexíveis e variáveis através de conversão, adoção, casamento e procedimentos similares. Não havia necessidade da noção de divisões inerentes, fixas e imutáveis entre seres humanos, porque a desigualdade social estava legal e judicialmente inscrita nas relações de classe pré-capitalistas. Em modos de produção baseados na servidão, escravidão e outras formas de coerção legal, era presumido que a desigualdade fosse a condição natural da humanidade. Apenas com o capitalismo nós vemos o nascimento da igualdade jurídico-legal no mercado de trabalho; e a desigualdade substantiva de capital e trabalho na produção capitalista requer a invenção da raça.

É verdade que uma forma de proto-racismo surgiu na Península Ibérica antes do surgimento do capitalismo. No final do século XIV e no início do século XV, as monarquias absolutistas em Castela e Aragão, temendo que judeus e muçulmanos convertidos mantivessem secretamente seus rituais religiosos, definiram que apenas os cristãos de “sangue puro” seriam elegíveis para cargos venais [13]. Mas foi apenas com a emergência da escravidão africana, na Virgínia do final do século XVII, que ocorreu a cristalização da raça. Até então, embora a escravidão já existisse há milênios, ela era apenas uma das inúmeras formas de trabalho não-livre (servidão, colonato, etc.), e não exigia nenhuma explicação especial. Na esteira da rebelião de Bacon de 1676, a servidão por contrato [indentured servitude] e outras formas de trabalho não-livre que haviam trazido europeus para as colônias desapareceram na Virgínia, deixando não-livres apenas os escravos de ascendência africana até o início do século XVIII. Aqui, pela primeira vez, a liberdade e a igualdade perante a lei (formais) pareciam ser a condição “natural” dos seres humanos — exigindo uma noção de diferença intrínseca e permanente para explicar porque os africanos permaneceram não-livres [14]. A raça e o racismo não desapareceram com a abolição da escravidão do Novo Mundo no século XX: ao invés disso, generalizaram-se pelo mundo capitalista. Os termos específicos da ideologia racista — quais características específicas tornavam alguns grupos superiores e outros inferiores — evoluíram com o movimento das relações de classe e das diferenciações. Enquanto os escravos racializados eram vistos como ingratos, indignos de confiança e estúpidos, os trabalhadores assalariados racializados tornaram-se empregados indisciplinados, irregulares e refratários. No mundo colonial, a suposta “incapacidade” dos povos nativos de “melhorar” a agricultura justificava a apropriação de terras e recursos pelos colonos [15].

Mais importante ainda, a reprodução das relações sociais capitalistas de propriedade através das “leis naturais” [dull compulsions] do mercado [a*] — o que Marx chamou de lei do valor — torna a relação entre capitalismo e racismo necessária, e não histórica ou teoricamente contingente. Colocado de forma simples, a noção de “capitalismo racial” é redundante — não existe capitalismo “não-racial”. Muitos marxistas não entendem a relação necessária entre capitalismo e racismo porque presumem que a operação da lei do valor deve homogeneizar o trabalho, criando processos de trabalho genéricos, igualando lucros e salários entre e dentro das indústrias [16]. Embora esta concepção da teoria do valor, da acumulação e da competição de Marx seja bastante difundida, ela não reflete nem a teoria madura de Marx nem a história real do capitalismo. A reprodução do capitalismo não produz homogeneidade, mas heterogeneidade entre capitalistas e trabalhadores, dentro da classe e entre as classes [17] [b*]. As noções de que a acumulação e a concorrência deveriam homogeneizar as condições de produção, os processos de trabalho, as taxas de salário e semelhantes são, em última análise, derivadas da visão idealizada de concorrência da teoria econômica neoclássica — a “concorrência perfeita”. A concorrência capitalista real, ao longo da história deste modo de produção, nunca correspondeu ao mundo dos sonhos da “concorrência perfeita”.

A concorrência e a acumulação reais realizam-se através de constantes inovações tecnológicas na forma de uma progressiva mecanização da produção, diferenciando capital e trabalho de duas maneiras. Primeiro, o processo de mecanização em um ramo da produção leva uma parte da força de trabalho a se tornar dispensável do ponto de vista do capital, e consequentemente, ser dispensada [c*]. Essa constante reposição do que Marx chamava de “exército de trabalho de reserva” (ou “exército industrial de reserva”) [reserve army of labor], a massa de desempregados e subempregados, não apenas mantém os salários dentro dos limites da lucratividade do capital, mas cria a possibilidade de processos de trabalho, taxas de lucro e salários heterogêneos entre os diferentes ramos da indústria. Enquanto as indústrias cada vez mais intensivas-em-capital desfrutam de maiores lucros e da possibilidade de maiores salários, a constante reposição do exército de reserva permite a constante reprodução das indústrias intensivas-em-trabalho com menores lucros e menores salários. Simplificando, o “trabalho suado” (menos mecanizado) sob o capitalismo não é nenhum tipo de resquício atávico [atavistic hangover] de formas anteriores de produção, mas a consequência necessária da contínua, e necessariamente desigual e combinada, mecanização da produção [18]. A constante geração do exército de reserva, com trabalhadores experimentando diferentes níveis de precariedade e desespero, produz trabalhadores que têm poucas outras opções que não seja aceitar os piores trabalhos — Setores intensivos-em-trabalho e de baixos salários podem evitar o aumento dos salários se alimentando desses estoques de trabalhadores desesperados.

Em segundo lugar, a concorrência dentro das e entre as indústrias necessariamente diferencia os processos de trabalho, taxas de lucros e salários. Os capitalistas estão em posição de adotar o capital fixo (meios de produção) mais avançado quando eles entram em um ramo de produção ou abrem novas unidades produtivas. Entretanto, “a presença de investimento em capital fixo” torna impossível que essas novas técnicas sejam “imediatamente adotadas por todas as empresas do setor […] Ao invés de criar empresas idênticas, a concorrência, portanto, cria uma contínua re-diferenciação das condições de produção [19]. De maneira simples, tanto a acumulação quanto a concorrência produzem e reproduzem diferenciação entre os trabalhadores — a matriz social para a produção e reprodução da raça e do racismo [20]. A raça é a consequência necessária e não-intencional da concorrência e acumulação capitalistas: raça e classe são co-constituídas sob o capitalismo [21].

As relações de produção capitalistas dão origem a uma experiência vivida contraditória para tanto capitalistas e trabalhadores [22]. De um lado, o capitalismo é a primeira forma de trabalho social na história humana onde a exploração acontece através do que aparece como a troca de equivalentes no mercado de trabalho [23]. Ao invés de depender da dominação pessoal ou outras formas de coerção extra-econômica, capitalistas e trabalhadores se confrontam no mercado de trabalho como possuidores de mercadorias distintivas — os capitalistas possuindo dinheiro, e portanto os meios de produção, e os trabalhadores, sua força de trabalho. Os capitalistas geralmente compram a capacidade de trabalho dos trabalhadores por seu valor, as condições sociais historicamente constituídas de reprodução da força de trabalho dos trabalhadores. À medida que os capitalistas consomem força de trabalho — colocam os trabalhadores para trabalhar em processos de trabalho sob o comando do capital —, os trabalhadores são obrigados a produzir um valor que exceda o valor de seus salários.

A compra e venda de força de trabalho dá origem a um vocabulário muito específico da experiência vivida que espontaneamente disfarça a exploração e promove a noção da igualdade entre todos os seres humanos. Em Salário, Preço e Lucro [Value, Price and Profit] (1865) [24], Marx afirmou que, sob a escravidão, todo trabalho aparecia como não-pago, e, sob a servidão, a divisão entre trabalho pago e não-pago era claramente visível na divisão de culturas ou colheitas e trabalho. Em contraste, sob o capitalismo “até mesmo o trabalho não-pago parece ser trabalho pago” porque “a natureza da transação inteira é completamente mascarada pela intervenção de um contrato…”. No Capital (1867), Marx identificou como isso produz uma experiência vivida específica:

“A esfera da circulação ou troca de mercadorias, em cujos limites ocorre a venda e compra da força de trabalho, é, de fato, um verdadeiro Éden dos direitos inatos do homem. É o domínio exclusivo da Liberdade, Igualdade, Propriedade e Bentham. Liberdade, porque tanto o comprador quanto o vendedor de uma mercadoria, digamos, força de trabalho, são determinados apenas por seu livre-arbítrio. Eles firmam o contrato como pessoas livres, que são iguais perante a lei. Igualdade, porque cada um se relaciona com o outro, como um simples possuir de mercadorias, e eles trocam equivalente por equivalente. Propriedade, porque cada um dispõe do que é seu. E, Bentham porque cada um visa apenas seus próprios interesses.”[25] [d*]

Entretanto, assim que deixamos o mundo idealizado da troca de mercadorias, entramos no mundo real da produção, acumulação e concorrência capitalistas — o mundo real da exploração. O capitalismo necessariamente produz desigualdades substanciais — entre capital e trabalho, dentro da classe trabalhadora, e entre diferentes sociedades na economia mundial capitalista. Enquanto antes do capitalismo a desigualdade era pressuposta como “natural”, no capitalismo ela precisa ser explicada, de uma forma que seja compatível com a noção de que todos os seres humanos devem ser livres e iguais. Isso requer uma re-naturalização da diferença através da divisão da humanidade em grupos com características imutáveis, fazendo alguns superiores e outros inferiores. A única forma de dar sentido e coerência, para trabalhadores e capitalistas, a uma sociedade onde tudo aparenta ser igual — mas existe desigualdade real e concreta — é retirando de algumas pessoas a condição de “plenamente humanas”.

As diferenciações racial e de gênero são as maneiras mais comuns de capitalistas e trabalhadores compreenderem e negociarem a heterogeneidade do mercado de trabalho. As diferenças de gênero, que estão fundamentadas na construção social das diferenças biológicas entre homens e mulheres [e*], são ideologicamente naturalizadas. Colocando de outra forma, as diferenças de gênero são ideologicamente reduzidas à biologia nas sociedades capitalistas, e esta supostamente explicaria a inferioridade inerente das mulheres aos homens. A raça, é claro, não tem existência biológica, apenas uma realidade social e histórica. O racismo naturaliza [e essencializa] diferenças em aparências físicas, religião, linguagem e semelhantes. Dessa forma, a ideologia racista providencia um mapa mental poderoso para a experiência vivida contraditória da acumulação e da concorrência capitalistas.

A estrutura do mercado de trabalho capitalista, com sua diferenciação entre os exércitos de trabalho ativo e de reserva [active and reserve armies of labor] e entre os ramos de produção relativamente de baixos salários/intensivos-em-trabalho e de altos salários/intensivos-em-capital, tanto compele quanto possibilita [26] capitalistas e trabalhadores a estruturarem racialmente a distribuição da força de trabalho pela economia. Em outras palavras, os seres humanos produzem e reproduzem a diferenciação racial, mas não sob as condições de sua própria escolha. O papel dos capitalistas na organização racial do mercado de trabalho e na promoção deliberada de divisões racializadas entre trabalhadores é bem documentado historicamente. O capital é confrontado com uma massa de trabalhadores, quase todos eles capazes de executar qualquer tarefa exigida, dado o rebaixamento dos níveis médios de habilidade e treinamento necessários para a maioria dos empregos. Os empregadores usam “características” raciais fictícias para determinar quais são os trabalhadores mais “confiáveis” e “eficientes” para diferentes tarefas [27].

Entretanto, as pessoas trabalhadoras, especialmente quando as organizações de luta coletiva contra o capital — como sindicatos — não são capazes ou não estão dispostas a confrontar os empregadores e o Estado, também tentam organizar a concorrência com outros trabalhadores em linhas raciais. Como Robert Brenner e Johanna Brenner argumentaram, “os trabalhadores não são apenas produtores coletivos com um interesse em comum — tomar coletivamente o controle sobre a produção social. Eles também são vendedores individuais de sua força de trabalho, em conflito uns com os outros por causa de empregos, promoções etc.” [28]. Quando a luta coletiva contra o capital e o Estado aparece como “irrealista”, “utópica”, os trabalhadores se voltam uns contra os outros. Os trabalhadores tentam construir socialmente a si mesmos como “brancos” para se protegerem das pressões do exército de trabalho de reserva sempre racializado e da ameaça de serem facilmente substituídos à medida que o capital desqualifica o trabalho — torna-o menos complexo, retira progressivamente a qualificação e habilidade necessárias para realizá-lo [f*] — através da fragmentação das tarefas e da mecanização [29]. Foi essa forma de concorrência entre trabalhadores no mercado de trabalho que incentivou os trabalhadores brancos altamente qualificados do pré-Guerra Civil [Americana] a projetarem “nos trabalhadores negros o que eles ainda desejavam em termos da ausência imaginada da alienação [imagined abscence of alienation], mesmo quando resistiam a serem tratados como escravos, ou como ‘white n*ggers’ [g*]” [30]. O resultado da concorrência contínua entre trabalhadores — que espelha a concorrência entre capitalistas — é a super-representação de trabalhadores não-brancos no exército de trabalho de reserva (com consistentes maiores taxas de desemprego, subemprego e pobreza) e nos setores mais intensivos-em-trabalho e de menores salários da produção [g*].

A vantagem racial das pessoas brancas está fundamentalmente enraizada nessa concorrência, enquanto elas procuram manter menores níveis de desemprego e pobreza, obter maior acesso à moradia e educação para seus filhos, e afins. Entretanto, a reprodução contínua e espontânea da raça por meio da acumulação e da concorrência enfraquece a capacidade coletiva dos trabalhadores de resistir às demandas do capital, criando uma espiral decadente de salários e condições de trabalho para todos os trabalhadores. Não é nenhuma surpresa que os “salários psicológicos da branquitude” [“wages of whiteness”] [h*] se tornaram no mínimo bastante minguados na era do neoliberalismo. Porém, uma unidade multirracial da classe trabalhadora não será algo produzido espontaneamente — demandará a reconstrução de uma cultura e organização de solidariedade [solidarity] [31]. Claramente, as lutas por demandas universais e que abarcam toda a classe — maiores salários, melhor segurança no trabalho e prevenção contra o desemprego, planos de saúde, assistência médica e aposentadoria não ligados a um vínculo empregatício etc. — serão cruciais para construir um movimento de trabalhadores multirracial. Toda medida que reduz a concorrência entre trabalhadores debilita o apelo da supremacia branca. No entanto, um movimento de trabalhadores multirracial não será construído apenas mediante lutas por demandas “universais”. A agitação e a propaganda “cegas-à-raça” [“color-blind”] feitas aos trabalhadores pelas correntes dominantes do movimento sindical de operários industriais das décadas de 1930 e 1940 permitiram que as divisões raciais entre trabalhadores se aprofundassem e contribuíram para o fracasso do movimento em organizar os trabalhadores do Sul [32]. Assim, demandas raciais específicas — como o desfinanciamento e desarmamento da polícia, o fim da segregação habitacional e educacional, o fim dos benefícios e da categoria de antiguidade [seniority] na fábrica e na indústria como um todo [33], ações afirmativas na contratação e promoção de funcionários, a legalização de imigrantes sem documentação e a construção de um caminho para sua cidadania, entre outras demandas do tipo — serão essenciais para construir uma solidariedade de classe multirracial entre trabalhadores. De forma simplificada: uma organização e uma política classista realmente efetivas — que sejam capazes de forjar unidade entre uma classe trabalhadora necessariamente racialmente heterogênea — deve incluir demandas e formas de organização antirracistas.

NOTAS E REFERÊNCIAS (AUTOR)

  1. Asad Haider, Mistaken Identity: Race and Class in the Age of Trump (Londres: Verso, 2018). [Versão em português: Armadilha da Identidade: Raça e Classe nos Dias de Hoje. Veneta, 2019]
  2. Justin Charles, Michael Esealuka, Cinzia Arruza, Haley Pessin, Brian Bean, “Socialists and the Uprising: An Activist Roundtable” Tempest https://www.tempestmag.org/2020/08/socialists-and-the-uprising/
  3. Dustin Guastella, “To End Police Violence Fund Public Good and Raise Wages,” Nonsite.Org (9 de julho, 2020) https://nonsite.org/policing-symposium/
  4. Eric Williams, Capitalism and Slavery (Chapel Hill, NC: University of North Carolina Press, 1944) [Versão em português: Capitalismo e Escravidão. Companhia das Letras, 2012]; Oliver C. Cox, Caste, Class, and Race (Nova York: Doubleday & Co., 1948); Cedric Robinson, Black Marxism: The Making of the Black Radical Tradition (Chapel Hill, NC: University of North Carolina Press, 1983).
  5. Michael Walzer, “A Note on Racial Capitalism,” Dissent (July 29, 2020), https://www.dissentmagazine.org/online_articles/a-note-on-racial-capitalism and “A Reply” Dissent (7 de agosto, 2020), https://www.dissentmagazine.org/online_articles/a-reply-to-olufemi-o-taiwo-and-liam-kofi-br ight
  6. Friedrich Engels, The Condition of the Working Class in England (1845), https://www.marxists.org/archive/marx/works/download/pdf/condition-working-class-england .pdf [Versão em português: A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra. Boitempo, 2014].
  7. Essas características supostamente imutáveis [que constituem a raça] podem ser imaginadas tanto como biológicas, como eram das décadas de 1880 a 1940; ou culturais, como são desde os anos 1950. Ver Stephen Steinberg, The Ethnic Myth: Race, Ethnicity and Class in America, 3ª ed. (Boston: Beacon Press, 1989), Parte Dois, Introdução e Capítulo 4 para uma discussão de como a “cultura” se tornou uma característica herdada e imutável no pensamento racial do pós-Segunda Guerra Mundial.
  8. Satnam Virdee, Racism, Class and the Racialized Outsider (Londres: Palgrave, 2014), p. 3.
  9. A saudosa Ellen Meiksins Wood, uma estudiosa do capitalismo muito mais sofisticada do que Walzer, comete um erro metodológico semelhante ao argumentar que “igualdade sexual e racial… não são, em princípio, incompatíveis com o capitalismo”. Democracy Against Capitalism: Renewing Historical Materialism (Nova York: Cambridge University Press, 1995), p. 259. [Versão em português: Democracia contra capitalismo: a renovação do materialismo histórico. Boitempo, 2003.]
  10. Olúfẹ́mi O. Táíwò e Liam Kofi Bright, “A Response to Michael Walzer” Dissent (7 de agosto, 2020) https://www.dissentmagazine.org/online_articles/a-response-to-michael-walzer]https://www.d issentmagazine.org/online_articles/a-response-to-michael-walzer
  1. Ellen Meiksins Wood, The Origins of Capitalism: A Longer View (Londres: Verso Books, 2002). [Versão em português: A Origem do Capitalismo. Zahar, 2001.]
  2. Para uma excelente exposição e crítica da interseccionalidade, ver Holly Lewis, The Politics of Everybody: Feminism, Queer Theory, and Marxism at the Intersection (Londres: Zed Books, 2016), pp. 273-274. [i*]
  3. Ver os ensaios coletados em Max S. Hering Torres, María Elena Martinez e David Nirenberg (org.), Race and Blood in the Iberian World (Zurique: LIT Verlag, 2012); e David Nirenberg, “Was There Race Before Modernity? The Example of ‘Jewish’ Blood in Late Medieval Spain” em Benjamin Isaac, Joseph Ziegler e Miriam Eliav-Feldon, The Origins of Racism in the West (Nova York: Cambridge University Press, 2009), pp. 232-264.
  4. Os melhores estudos da invenção da raça na Virgínia colonial continuam sendo: Theodore Allen, The Invention of the White Race, Volume Dois: The Origins of Racial Oppression in Anglo-America (Londres: Verso, 2012), Edmund S. Morgan, American Slavery, American Freedom: The Ordeal of Colonial Virginia (Nova York: WW Norton & Company, 1975, capítulos 15-16); Barbara J. Fields, “Slavery, Race and Ideology in the United States of America”, New Left Review I / 181 (maio-junho de 1990), pp. 95-118.
  5. Apesar de sua perspectiva teórica “pós-colonial”, Colonial Lives of Property: Law, Land and Racial Regimes of Ownership (Durham, NC: Duke University Press, 2018), de Brenna Bhandar, descreve como o direito moderno, e suas leis de proteção à propriedade, nos assentamentos de colonos brancos codificaram as ideologias racializadas que justificaram a expropriação de populações indígenas.
  6. Por exemplo, David Roediger e Elizabeth Esch afirmam que “Do Manifesto Comunista em diante, o capitalismo recebeu por mais de 160 anos o crédito das correntes dominantes do marxismo por introduzir um ‘caráter cosmopolita na produção e consumo em todos os países’ […]. O valor surge do trabalho abstrato, não da acentuação das diferenças entre os trabalhadores”. The Production of Dif erence: Race and Management of Labor in US History (Nova York: Oxford University Press, 2012), p. 6. O entendimento de Roediger e Esch da teoria do valor, acumulação e concorrência são extraídos de Michael Lebowitz, “The Politics of Assumption, the Assumption of Politics” Historical Materialism, 14: 2 (2006).
  7. Anwar Shaikh, Capitalism: Competition, Conflict, Crisis (Nova York: Oxford University Press, 2016); Howard Botwinick, Persistent Inequalities: Wage-Disparity Under Capitalist Competition (Chicago: Haymarket Books, 2018).
  8. ibid., Botwinick, capítulo 3.
  9. ibid., Botwinick, p.131.
  10. Para uma aplicação do trabalho de Botwinick sobre diferenciais de salários para raça por economistas profissionais, ver Patrick L. Mason, “Race, Competition and Differential Wages”, Cambridge Journal of Economics 19 (1995), pp. 545-567.
  11. David McNally, “The Dialectics of Unity and Difference in the Constitution of Wage-Labour: On Internal Relations and Working-Class Formation” Capital & Class, 39:1 (2015), pp. 131-146.
  12. Minha abordagem de raça como uma ideologia e um conjunto de práticas está enraizada no trabalho de Barbara Jeanne Fields, em particular, “Slavery, Race and Ideology” ibid., pág. 110-113. Ideologia [aqui] não é o equivalente a propaganda — ideias produzidas pela mídia, escolas e similares e “impostas” a uma população passiva de trabalhadores. Nem é equivalente a “doutrina” — um conjunto coerente e estável de crenças sobre o mundo. Em vez disso, a ideologia é o “vocabulário da ação e experiência do dia a dia” (p. 111). Dito de outra forma, as ideologias são os mapas mentais da experiência vivida de opressão.
  13. Karl Marx, Capital, Volume I (Harmondsworth, Inglaterra: Penguin Books, 1976), Capítulo 6. [Versão em português: O Capital {Livro I}: crítica da economia política. O processo de produção do capital. São Paulo: Boitempo, 2011].
  14. Marx, Value, Price, and Profit (Chicago: CH Kerr and Company, 1910), pp. 83-86. [Versão em português: Salário, Preço e Lucro. https://www.marxists.org/portugues/marx/1865/salario/index.htm].
  15. Marx, Capital, I, p. 280.
  16. A noção de que as estruturas tanto compelem quanto possibilitam que os agentes atuem de determinadas maneiras é extraída de Alex Callinicos, Making History: Agency, Structure and Change in Social Theory (BRILL, 2004).
  17. Ver Roediger and Esch, The Production of Dif erence, Capítulo 5.
  18. Johanna Brenner and Robert Brenner, “Reagan, the Right and the Working Class” Against the Current (Old Series) 1, 2 (Winter 1981), p30.
  19. Harry Braverman, Labor and Monopoly Capital: The Degradation of Work in the 20th Century (Nova York: Monthly Review Press, 1974) [Versão em português: Trabalho e Capital Monopolista — a Degradação do Trabalho No Século XX – 3ª Ed. LTC, 2012]. Infelizmente, a maioria dos leitores da obra-prima de Braverman tende a equiparar a desqualificação [deskilling] com a homogeneização do trabalho. O próprio Braverman deixou bem claro que a tendência de desqualificar [deskill] o trabalho constantemente diferencia os trabalhadores.
  20. ibid., Roediger, Class, Race and Marxism, p. 68.
  21. Ver Vivek Chibber, “Rescuing Class from the Cultural Turn” Catalyst 1;1 (Primavera de 2017).
  22. Ver Michael Goldfield, The Southern Key: Class, Race, and Radicalism in the 1930s and 1940s (Nova York: Oxford University Press, 2020).
  23. Os capítulos 5-7 de Divided We Stand: American Workers and the Struggle for Black Equality (Princeton, NJ: Princeton University Press, 2001), de Bruce Nelson, demonstram como a aceitação da antiguidade departamental [seniority departamental] nas indústrias por parte da CIO [Congresso de Organizações Industriais, hoje AFL-CIO, maior central operária estadunidense] preparou o terreno para a reprodução das divisões raciais entre os metalúrgicos e outros trabalhadores industriais organizados no período do pós-guerra.

NOTAS DA TRADUÇÃO 

[a*] O termo utilizado por Marx, “dull compulsions”, invoca uma ideia de forças objetivas e desinteressadas que guiam a produção capitalista e a vida dos trabalhadores, mas não em um sentido mecanicista. Aqui, adotamos a tradução da Editora Boitempo, em sua última edição do volume I d’O Capital, que adota a expressão “leis naturais”.

[b*] Para os leitores marxistas e latino-americanos desse texto: a compreensão de Post do funcionamento da concorrência e acumulação capitalistas via diferenciação que serão expostas a partir desse ponto parece derivar fundamentalmente, além, claro, de Marx; da teoria do “desenvolvimento desigual e combinado” proposta por Lênin em seu Imperialismo e desenvolvida posteriormente por Trotsky e outros intelectuais marxistas (Rosa, Mandel e os demais citados nominalmente pelo autor). No entanto, sabemos que o auge de uma teorização sobre a particularidade da reprodução do capital e da lei do valor via diferenciação e inter-dependência de capitais mais e menos produtivos é a Teoria Marxista da Dependência [TMD] (cf., sobretudo, Dialética da Dependência [Marini, Ruy Mauro. In: TRESPADINI, R. STEDILLE, J. P. Ruy Mauro Marini: vida e obra. São Paulo: Expressão Popular, 2011.]). Por isso, é especialmente interessante para nós, marxistas brasileiros, perceber a compatibilidade da perspectiva de Post com a TMD, vide nossas preocupações em relacionar dependência, superexploração do trabalho e racismo.

[c*] O termo utilizado no texto original é “made redudant”, que tem o sentido tanto de que essa parte da força de trabalho se torna descartável para o capital quanto que ela é, efetivamente, demitida; estando os dois processos conectados. Por isso traduzimos como “se torna dispensável” e “é dispensada” invés de manter apenas uma expressão, como no original.

[d*] Tradução livre a partir da versão d’O Capital utilizada por Charlie Post. A parte em que Marx cita “Bentham” parece ser uma referência ao economista utilitarista Jeremy Bentham e sua ideia de que o mercado era o local em que os agentes obtinham o que lhes era mais útil, trocando; portanto, satisfaziam seus interesses individuais.

[e*] No original, “Gender dif erences, which are rooted in the social construction of biological dif erences between men and women, are ideologically naturalized”. Ao que dá a entender, o autor reconhece o gênero como tendo uma realidade biológica para além de social, enquanto raça, não. Traduzimos fielmente.

[f*] No original, “desqualifica” é “deskill” e quer representar o fato de que o desenvolvimento da produção capitalista via mecanização torna cada vez mais fáceis os manejos do trabalho e da

tecnologia na indústria e exige cada vez menos qualificação, formação e habilidade/destreza. Entretanto, em português, “desqualificar” também tem um sentido moral, de menosprezar e/ou insultar. Por isso adicionamos a frase entre travessões, que não estava presente no original, para esclarecer o sentido da palavra.

[g*] A expressão “n*gger[s]” é particular da língua inglesa americanizada e está atrelada a um sentido radicalmente pejorativo em relação a pessoas negras, quando utilizada por pessoas brancas; e tem um longo histórico de associação com a supremacia branca e o racismo nos EUA. Por isso, optamos por não traduzi-la. A expressão que o autor adota, “white n*ggers” se refere a pessoas trabalhadoras brancas sendo tratadas de forma similar, em termos de opressão e condições de vida, às pessoas negras.

[h*] “Wages of whiteness” é uma categoria histórica do movimento negro estadunidense, especialmente do século XX, que designa os benefícios relativos que os trabalhadores brancos tem em relação aos trabalhadores negros no capitalismo estadunidense; às vezes meramente ilusórios, visto que funcionam a favor do capitalismo (ou da escravidão como sistema) e por isso contra os interesses dos trabalhadores brancos em última instância. No Brasil, às vezes a expressão foi traduzida como “salário psicológico”, acentuando esse caráter mais moral e psicológico dos benefícios dos trabalhadores brancos em relação aos negros sob o capitalismo; e a expressão “branquitude” como tradução para whiteness parece ser bem recente na literatura antirracista, tendo vindo ao Brasil de outra tradição teórica. Optamos por “salários psicológicos da branquitude”.

[i*] Não há tradução para o português do ótimo livro de Holly Lewis que, além de oferecer uma crítica à interseccionalidade e a epistemologia pós-estruturalista que a fundamenta, empreende uma crítica geral ao feminismo pós-estruturalista e à teoria queer pós-estruturalista, elaborando novas sínteses teóricas e divulgando o marxismo queer [Queer Marxism]. No entanto, existe material de crítica marxista à interseccionalidade em português que parte da mesma perspectiva teórica que Lewis, a Teoria da Reprodução Social. Recomendamos principalmente a dissertação de mestrado Unidade, diversidade e totalidade: a Teoria da Reprodução Social e seus contrastes, de Rhaysa Ruas, que também funciona como uma síntese dessas críticas; e Feminismos interseccional e da reprodução social: rumo a uma ontologia integrativa, de Susan Ferguson publicado pelos Cadernos Cemarx.

*Agradecimentos a Ellara e Dani Corrêa pela ajuda.

 

 

A luta por moradia e a ocupação Carlos Marighella

A luta por moradia e a ocupação Carlos Marighella

A FDR entende que a formação política marxista-leninista deve partir de rigorosos estudos teóricos, mas jamais sem subestimar a importância da prática social e das experiências concretas de luta. Por isso, no dia 10 de fevereiro, às 14:00, conversaremos sobre os desafios da luta por moradia digna com Brankim e Edvânia, lideranças da Ocupação Carlos Marighela (Fortaleza – CE).

O debate será transmitido ao vivo na nossa página no Facebook e nos canais do Jornal O Poder Popular e Classe Esquerda no YouTube. Na mesma ocasião anunciaremos o ganhador do sorteio para padrinhos e madrinhas da FDR. O prêmio é o livro “Política, Estado e Ideologia na trama conjuntural”, de Mauro Iasi.

 

“Derrubar tudo isso é possível”: LavraPalavra entrevista Jodi Dean

Por Marcelo Bamonte e Jodi Dean | LavraPalavra

 

JODI DEAN

A intelectual comunista e professora universitária estadunidense Jodi Dean reflete sobre o estágio organizativo da esquerda radical, a partir de sua teoria do corpo e do sujeito político, buscando respostas que capacitem as forças revolucionárias a assumir uma posição dirigente na luta de classes.


Na luta para a construção de novos horizontes, a organização é fundamental. É assim que pensa a professora marxista Jodi Dean, 58, militante do PSL (Party for Socialism and Liberation) dos Estados Unidos. “devemos continuar a extrair de Lênin o imperativo absoluto de se organizar e de nos mantermos organizados”, completa. Dentro de sua carreira acadêmica, a escritora já coleciona mais de treze publicações, sendo as mais famosas O horizonte comunista e Camarada: um ensaio sobre pertencimento político, publicado em 2019 (ambas inéditos em português).

Sua teoria, que bebe de fontes pós-modernistas, leninistas e da psicanálise, não abandona o estrito senso de urgência para a construção de uma nova movimentação política. Aliás, orbitando entre os mais diversos significados, a busca de um corpo político que envolva as massas parece ser um dos maiores desafios a serem cumpridos para a reconstrução dos movimentos revolucionários. “Se você não tentar se engajar na luta de uma forma concreta, material e organizada, então você não está fazendo nada, está apenas adicionando à esfera da mídia ao invés de participar da luta”, enfatiza.

Mas essa busca é árdua, assim como a reconstrução e o senso de pertencimento à luta que possa vir a destronar um sistema que oprime e explora a classe trabalhadora. Se por um lado “é difícil para as pessoas verem a promessa política e de poder de um povo revolucionário”, por outro, é necessária a construção de um senso coletivo de organização que não só situe a classe trabalhadora como sujeito de sua própria história, mas que forneça as condições para tal práxis. “Temos que canalizar esse conhecimento para a convicção de que lutar – e lutar contra isso – e principalmente derrubar tudo isso é possível”, finaliza.

A entrevista segue na íntegra:

LavraPalavra: Seu trabalho reflete sobre os possíveis horizontes comunistas e a possibilidade das massas agirem como um sujeito revolucionário. Para você, que lições podemos aprender de Lênin que podem ser aplicadas hoje? Os conceitos revolucionários de partido de vanguarda e luta anti-imperialista adaptam-se hoje à luta dos países do primeiro mundo?

Jodi Dean: Eu penso que uma das coisas mais importantes que aprendemos com Lênin, e é uma lição que muitos, particularmente na esquerda dentro dos países imperialistas, simplesmente abandonaram, é que você tem que se organizar! Há um tipo de senso comum estranho que se instalou na esquerda nos últimos 30 ou 40 anos que é totalmente espontaneísta, tanto que pensa que os compromissos organizados com a luta são necessariamente constrangedores ao invés de capacitantes. Então, eu acho que a coisa absolutamente mais importante que devemos continuar a extrair de Lênin é o imperativo absoluto de se organizar e de nos mantermos organizados. E, assim que se começa, há um monte de coisas que mentalmente e até conceitualmente começam a mudar. Você começa a perceber que um monte de coisas diferentes que passam como “críticas” em partes da esquerda na verdade não são particularmente interessantes ou relevantes, porque elas não tem nada a ver com organização, com como você está tentando construir uma força coletiva capaz de assumir o poder e vencer. Então eu acho que um foco em se organizar também começa a instalar muita clareza e redireciona o pensamento de uma forma que tem potencial para realmente ser algo, para realmente ser uma força material.

LavraPalavra: Falando sobre organização, Slavoj Žižek escreve que “se você quiser renovar o projeto comunista como uma alternativa real ao capitalismo global, temos que marcar uma ruptura clara com a experiência comunista do século 20”. Olhando para o desenvolvimento das forças produtivas no novo século de globalização intensa, você vê esta afirmação como correta? Se sim, como podemos renovar este projeto?

Jodi Dean: Para ser honesta, eu não tenho 100% de certeza do que ele quer dizer com uma “ruptura clara”. Quero dizer, a União Soviética não existe mais, se isso não for uma ruptura clara, eu não sei o que é (risos). Talvez ele queira uma ruptura com um foco eurocêntrico e que esteja totalmente investida nas lutas comunistas em todos os outros lugares no mundo. Por que alguém gostaria dessa ruptura? Talvez romper com o projeto europeu? Talvez seja isso o que significa, mas não acho que seja. Não acho que “romper” seja a palavra certa, acho que devemos mudar o foco para de onde vem a inspiração certa. O que dizer dos partidos e lutas em andamento que não desmoronaram ou entraram em colapso em 1991? Só para ficar bem claro, não estou 100% certa do que ele entende por ruptura completa. Na verdade, eu não acho que seja consistente (esse argumento) em seu trabalho, considerando que ele continua a se inspirar em Lênin. Quero dizer, se seria uma ruptura clara, por que ele ainda estaria escrevendo através de Lênin ao invés de promover esse rompimento que ele mesmo clama? Então, eu não sei, não acho que não faz muito sentido falar em termos de uma ruptura. Acho que faz sentido estar inspirado pela natureza contínua das lutas contra o capitalismo e as lutas contra o imperialismo, estarmos inspirados pelos camaradas que estiveram dispostos a morrer nesta luta, e eu não quero me separar delas, eu quero segurá-las lá no alto, e que continuem a nos inspirar.

LavraPalavra: Pegando este gancho da inspiração, o filósofo marxista italiano Domenico Losurdo traça o conceito de “autofagia” na esquerda, onde a mesma, assumindo as características e vícios da ideologia dominante, não faz mais uma autocrítica construtiva, mas sim uma observação regada de uma culpa quase cristã, considerando o comunismo em si como fadado à derrota desde o início. Você vê esse conceito como atuante dentro da esquerda hoje? E dentro do nosso campo o que você considera mais perigoso, os desvios da direita que acabam assassinando o horizonte revolucionário ou os desvios da esquerda que levam ao sectarismo?

Jodi Dean: Acho que quero dizer que nenhum dos dois, e deixe-me explicar o porquê. Eu realmente acho que a acusação de sectarismo é realmente exagerada, de que é uma desculpa que os liberais de esquerda não-militantes costumavam usar para tentar justificar seu próprio fracasso em se comprometer, em colocar sua vida além das críticas e decisões que eles tomam. Há um tipo de pose de esquerda onde a pessoa fala muito sobre os horrores do capitalismo, fascismo, imperialismo, demanda por revolução e uma mudança total que massacre tudo, e ainda assim eles não colocam nada de suas próprias vidas para trás por essa causa. Ao invés disso, é um discurso de “não há partido, todos os partidos são sectários e estão divididos”. Se você não tentar se engajar na luta de uma forma concreta, material e organizada, então você não está fazendo nada, está apenas adicionando à esfera da mídia ao invés de participar da luta. Minha questão, passando por sua pergunta, é: acho que a reivindicação do sectarismo é realmente exagerada, e que na esquerda não deveríamos estar levantando-a uns contra os outros. Em vez disso, o que precisamos fazer é construir o que temos, e quando houver oportunidades, trabalhar com outras partes de um, digamos, meio progressivo mais amplo. Quando não temos esse tempo, então continuamos fazendo o trabalho que pensamos ser o mais valioso. E a razão pela qual não quero caracterizar esse “novo perigo da direita” é por conta de que o fascismo tem sido um problema por mais de setenta anos e isso não é novo (risos), não é como se de repente Bolsonaro ou Trump aparece, e então os partidos na Hungria, Polônia, até o Boris Johnson no Reino Unido, como se fossem novos desenvolvimentos. Eles fazem parte de um longo legado que remonta à primeira metade do século XX, podemos marcar até para mais antigamente se quisermos, mas eu acho que para tentar falar sobre o que é novo, é um erro. Isso soa como um “oh, adivinhem o que aconteceu, existia um tempo maravilhoso reinado pela democracia e todos estavam incluídos e então, de repente, as coisas ficaram ruins e havia fascistas”. Isso não é o caso. A história do século XX nos deixou muito claro.

LavraPalavra: Mencionando a história do século XX, gostaria de entrar em um ponto polêmico aqui no Brasil. Você analisa com muito cuidado o papel de Stálin na URSS em seu trabalho, e você mencionou que “o stalinismo é a prova de que o comunismo não pode funcionar na prática, dada a intensa disputa pela manutenção do status quo“. No Brasil, um país da periferia do sistema capitalista, a figura de Stálin é aclamada por muitos e odiada por muitos também dentro da esquerda, com os grupos se dividindo entre elogios galopantes e uma crítica repleta de anticomunismo. Quais são seus comentários sobre a figura de Stálin? Você acha que há uma maior tendência para os partidos comunistas do primeiro mundo terem uma crítica mais enfática sobre sua figura e os países do terceiro mundo realmente o reivindicarem mais?

Jodi Dean: Acho que é muito claro que na Europa, no Reino Unido e nos Estados Unidos é quase impossível dizer qualquer coisa, mesmo que ligeiramente positiva sobre Stálin. Mas agora eu quero qualificar isso. Particularmente na esquerda branca, se olharmos para os negros no Partido Comunista dos Estados Unidos, você sabe, nos anos 30, 40, 50 e, depois, até os anos 60 e 70, quando um tipo de esquerda ocidental e comunistas social-democratas de esquerda eram 100% anti-Stálin, havia um homem chamado Hosea Hudson que dizia ” Joseph Stálin não fez nada contra mim”. É como se os comunistas negros fossem muito menos propensos a aderir a esta moda anti-Stálin. Em vez disso, eles eram mais eles, continuaram a valorizar as ideias de opressão nacional que faziam parte da plataforma comunista nos Estados Unidos e eles deram esse crédito a Lênin e Stálin como um termo comum, para interesse de enfatizar a opressão nacional e não tratar o racismo apenas como uma questão raça, mas como uma luta em termos de opressão nacional. Então, por conta dessa associação geral da questão com Stálin, o anti-stalinismo que tem sido tão pronunciado, principalmente na corrente principal dos Estados Unidos, particularmente desde a Guerra Fria, depois a Era McCarthy, desde o discurso secreto de Krushchev, é um discurso que não é tão compartilhado. Uma vez que você começa a olhar para diferentes grupos nos Estados Unidos, então até mesmo essa coisa geral, de todo mundo ser anti-Stálin, meio que começa a ir embora. Para a corrente dominante, digo, a esquerda progressiva e a esquerda branca progressista, trazer Stálin é automaticamente tornar qualquer tipo de comunismo ilegítimo, eles pensam que Stálin prova a absoluta e total falência de uma natureza corrupta, criminal e totalitária do comunismo, e de fato é por isso que eu acho que eles estão tão envolvidos com a figura de Stálin, porque eles podem o usar como uma arma para atacar comunistas de qualquer tipo.

LavraPalavra: Já que estamos falando sobre as figuras revolucionárias, trazendo a teoria do sujeito e do corpo revolucionário de Badiou, você argumenta que a tarefa principal é criar o corpo revolucionário que possa encontrar as massas, colocando as pessoas como sujeito da política. Qual a principal dificuldade em alcançar essa tarefa hoje?

Jodi Dean: É realmente difícil construir um partido (risos). Se organizar é difícil. E eu acho que, para alguns, eu diria para alguns jovens, especialmente do final dos anos 90 e na primeira década dos anos 2000, havia um tipo de fantasia que “ah, não precisamos de formas organizacionais como o partido, podemos apenas usar a internet, nos conectar com todos online, ter um blog, um website e tudo isso”. O tipo de trabalho de organização das bases não seria mais necessário, tudo que você realmente precisa é das mídias. Bem, as pessoas não pensam mais assim, mas isso trouxe um tipo de vício de esvaziamento da práxis, um conjunto de práticas que não foram orientadas para fazer o trabalho de base e alcançar profundamente as comunidades. Agora, é claro, isso não significa que todos estão nessa. Sempre houveram grupos organizadores realmente comprometidos, trabalhando com populações, não estou tentando menosprezar essas pessoas, estou apenas tentando descrever aqui o que se tornou mais dominante, o que se tornou mais visível e por que ficou mais difícil alcançar as pessoas. Quero dizer, organizar é difícil, é demorado e quando as economias estão se tornando mais e mais desiguais, quando o capitalismo está se intensificando, as pessoas não têm tanto tempo, talvez tenham que trabalhar dois ou três empregos, não têm tempo para a política comparado ao tempo que têm quando há uma espécie de rede de bem-estar social ou estado de bem-estar social. Organizar se torna mais difícil. Então, acho que o problema real tem sido a sensação de que a organização não é necessária e, em seguida, a desintegração das condições que permitem que as pessoas tenham tempo para se organizar, essas duas coisas trabalham juntas, personificadas em um problema real. E também temos que ser honestos, pessoas reais e partidos reais também podem ser difíceis de se trabalhar. Os esquerdistas não fazem nenhum favor a si quando são condescendentes, rudes, não-inclusivos ou assediadores sexuais e este tipo de coisa. São problemas reais que as pessoas tentaram apontar nos partidos e sempre que esses problemas não são resolvidos, enfraquecem toda a organização da esquerda, significa que a esquerda organizada está afastando as pessoas de fazer o tipo de trabalho comprometido que temos que fazer.

LavraPalavra: A dificuldade de colocar as pessoas como um sujeito da política, então, implica na falta de camaradagem que você aponta em seu artigo na Jacobin e nas suas obras? O advento do personalismo, como estávamos falando sobre Stálin, atrapalha que tenhamos a visão dos líderes revolucionários do passado como agentes do coletivo?

Jodi Dean: Essa é uma pergunta muito boa, muito interessante. Eu gosto do jeito que você ancorou o tipo de perda ou problema de camaradagem, dessa ausência como parte do motivo pelo qual é tão difícil para as pessoas verem a promessa política e de poder de um povo revolucionário, e a razão para isso é porque não temos os coletivos que são fortes o suficiente para evocar isso e produzir esse senso, ambos ao mesmo tempo. Pensemos que há um evento ou uma ação realmente importante que acontece, pegando aqui nos Estados Unidos, por exemplo, o protesto de George Floyd. Houve uma manifestação de mais de cem mil pessoas na Filadélfia, foi enorme. Mas então, o que acontece é que as pessoas começam a desvendar e criticar a própria demonstração em vez de dizer “oh meu Deus, as pessoas estão saindo às ruas indignadas, isso é incrível, vamos agora empurrar as pessoas para frente” e ainda assim há o discurso de que, lá no meio, algumas dessas pessoas “não sabiam o que estavam fazendo, ou algumas dessas pessoas estão se manifestando pela primeira vez, haviam muitos liberais no meio, etc.”. As pessoas começam a esmiuçar demais ou criticar, e então você volta à estaca zero, tendo que continuar construindo e reconstruindo. Eu acho que a motivação por trás desse tipo de desmoronamento de crítica é a falta de camaradagem, que faz com que essas pessoas minem os organizadores e minam o potencial de todas as pessoas que saíram às ruas.

LavraPalavra: Se organizar é obviamente uma tarefa muito difícil. Lênin comenta sobre o princípio da construção de um jornal coletivo que funcionaria como um organizador coletivo. Para você, qual é o papel do jornalismo hoje para os comunistas? Este conceito de organizadores coletivos ainda se aplica ou devemos procurar outras formas de organização?

Jodi Dean: Eu acho que com certeza o conceito de organizador coletivo ainda se aplica. A verdadeira pergunta é: se podemos estender isso além de jornais para podcasts, rádio, Youtube, todos os vários tipos de mídia que são produzidos agora. Criar algo que vai além da mídia impressa, e acho que a resposta tem que ser um grande “sim”. O desafio aqui é orientação diferente entre reconhecer o trabalho midiático e o trabalho jornalístico como organização coletiva, e refletir sobre isso em termos capitalistas de que temos que obter um determinado número de acessos, temos que conseguir anunciantes, dinheiro e esse tipo de coisa, porque essas são duas orientações realmente diferentes. Um dos lados realmente pensa em toda a esfera da mídia e quer posicionar a mídia de esquerda dentro disso. O outro lado enxerga as pessoas que podem ser mobilizadas e pensa no trabalho principalmente como um organizador coletivo. Então eu acho que a orientação é diferente, porque se você está pensando em alcançar todos, talvez você não possa ter algo que vai falar sobre Stálin (risos), você pode não ter algo que vai ser muito explícito sobre a necessidade de uma organização comunista. Mas se você o pensar como um organizador coletivo, então você deve ter essas coisas. Eu acho que, na verdade, tem sido realmente emocionante nos últimos anos ter esse florescimento de mídia de extrema-esquerda, um que agora está se reforçando mutuamente. As pessoas começam a ver seus próprios movimentos, elas veem, claro, nem sempre, mas podem ver as pessoas como camaradas em potencial… então acho que a parte do organizador coletivo está começando a se manifestar realmente na mídia online, meios que não eram totalmente expressados de maneira aparente como há dez anos atrás.

LavraPalavra: Esse advento da mídia nos permite, aqui no Brasil, a seguir as mais diversas posições dos partidos comunistas e dos partidos socialistas. Olhando para a recente eleição de Joe Biden, nós sempre prestamos atenção às posições do PSL (Party for Socialism and Liberation), sempre pontuais. Então gostaria de perguntar: qual é o papel do PSL na luta de classes norte-americana e quais são seus comentários em geral sobre o Biden?

Jodi Dean: Antes de tudo, o PSL é um partido comprometido ao internacionalismo e internacionalismo de gerações, a uma classe trabalhadora multi-gênero. Então, estamos bem ali como Partido comunista/socialista revolucionário, engajado na luta de classes antirracista e anti-imperialista. Esse é, antes de mais nada, nosso compromisso, somos um partido revolucionário. Você pode não se surpreender ao ouvir que, nos Estados Unidos, nós não somos tão enormes (risos), não é como se fossemos os partidos tradicionais como republicanos e democratas, mas temos uma presença forte, quero dizer, acho que podemos ser um dos poucos partidos comunistas/socialistas revolucionários restantes, então isso é realmente importante, e temos construído uma infraestrutura de mídia realmente incrível para apoiar esse trabalho. Esse é o PSL. Agora, sobre o Biden… quero dizer, Biden é um imperialista, ele sempre foi um político da classe capitalista para a classe capitalista, feliz em toda a sua carreira por trabalhar com supremacistas brancos para redigir um projeto de lei sobre o crime… ele é um dos dois partidos imperialistas capitalistas. Um ganhou e o outro perdeu. Isso não significa que ele tem cem por cento da forma, por exemplo, de Donald Trump. Todos os liberais estão em um estado de tipo “oh, está tudo bem agora”, e todos nós do lado comunista estamos pensando: Sério? Como sua eleição vai ser boa para todos? Como será bom para as nove milhões de pessoas da classe trabalhadora que ficaram desempregadas, e para todas as pessoas que não têm seguro de saúde? Simplesmente pelo fato de como Biden foi muito explícito sobre o projeto de Medicare para todos? Nossa posição é de que ele é um presidente da classe capitalista e para a classe capitalista.

LavraPalavra: Falando sobre essa classe capitalista e olhando para o orçamento do Pentágono para 2021, destinado ao setor de propaganda anti-China, eu gostaria de discutir um pouco sobre o país. Os setores aqui no Brasil discutem se a China não é realmente uma experiência socialista, como era no passado. Qual é o ponto de vista dos revolucionários nos EUA sobre a China? Vocês consideram a China uma experiência socialista agora e vocês acham que a China pode oferecer algo para a luta revolucionária nos EUA?

Jodi Dean: Acho que a coisa mais importante a reconhecer é que, de forma alguma, alguém deve acreditar na propaganda norte-americana. Também de forma alguma devemos abandonar, negligenciar ou menosprezar a experiência comunista e o legado da China. Eles tiveram que fazer várias escolhas economicamente, é um pouco infeliz, mas eles têm historicamente um partido comunista, isso é parte de sua autocompreensão e eles reconhecem que o longo percurso da luta pela construção do comunismo é muito importante. Então, acho que o que deve ser a orientação-chave em relação à China é a de tomarmos cuidado para não nos tornarmos presas das tentativas imperialistas norte-americanas de demonizar o outro grande país do mundo. Devemos reconhecer os sucessos do país – quero dizer como no que diz respeito ao COVID, no que diz respeito a muitos dos seus projetos internacionalistas que são úteis na construção e úteis no fornecimento de, digamos, vacinas e infraestrutura para outros países – mas o país, hoje, não é o Mao Zedong (risos). Isso não é motivo para chorar em voz alta, mas não devemos de forma alguma participar de qualquer tipo de demonização da China.

LavraPalavra: Observando a situação de pandemia agora, todos nós sabemos que às vezes, na história, temos os momentos em que pensamos que podemos agir para que haja um avanço em nossa luta de classes. Na Rússia, por exemplo, em 1905 e 1917, com a debilitação do Governo Provisório e da Duma, a Primeira Guerra Mundial e etc. São os momentos decisivos. Você acha que neste momento, onde os países capitalistas não conseguiram conter o vírus, é o momento em que podemos fomentar os comunistas e colocar as ideias comunistas em circulação novamente? Porque sabemos que o advento do vírus expõe essa contradição letal no sistema capitalista, um sistema que naturalmente gera muitas contradições que ele em si mesmo não pode resolver.

Jodi Dean: Sim, você está absolutamente certo sobre as contradições do capitalismo e como elas são mais visíveis agora mais do que estiveram em uma década, e elas são visíveis e palpáveis ​​para a grande maioria dos trabalhadores. Nos Estados Unidos, a COVID é como um genocídio. Negros, pardos e nativos americanos foram desproporcionalmente mais afetados. Especialmente em comunidades nativas americanas, com todos os seus agentes mais ancestrais – que sabem falar as línguas – que estão infectados e morrendo. As condições nacionais desse vírus são muito claras em todo o espectro da classe trabalhadora. No início havia muita celebração e exaltação dos profissionais essenciais por seus sacrifícios, que praticamente desapareceram em termos de “bem, todos têm que voltar ao trabalho, basta pegar sua vacina” e “olhe, esses bilionários ganharam muito dinheiro durante a situação”. Então, há uma espécie de dissipação do forte senso de apreciação e gratidão pelos trabalhadores, que eu acho que foi na verdade um momento importante da parte inicial da pandemia. Isso significa que simplesmente estar ciente das contradições não é o suficiente. Como comunistas, o que temos que fazer é organizar as pessoas para que se sintam fortes o suficiente e capazes de lutar, basicamente lutar. Para estarem dispostas a lutar para mudar o sistema, para eliminar o sistema que produz as contradições, e isso significa que as pessoas devem realmente ter um pensamento de que há algo pelo qual estão lutando e que podem fazer isso. Eu acho que esta é a parte onde a esquerda precisa se concentrar mais. Todo trabalhador sabe que está ferrado pelo sistema, isso é parte da consciência da classe trabalhadora. O que todo trabalhador não sabe é exatamente como podemos nos unir para operar uma mudança fundamental, e no que deve consistir essa mudança. Essas são as coisas que absolutamente temos que promover. E eu acho que, na verdade, uma das coisas que torna o legado comunista importante nessas situações é o fator de uma abordagem centralizada. Parte dos problemas foi causada por esses países capitalistas como os EUA, Reino Unido, Brasil. A situação foi totalmente fragmentada e orientada para o mercado, apenas totalmente para que a experiência da pandemia seja completamente diferente para os muito ricos e os muito pobres, para os banqueiros versus trabalhadores, tem sido terrível, mas temos que canalizar esse conhecimento para a convicção de que lutar – e lutar contra isso – e principalmente derrubar tudo isso é possível.

 

Extraído de https://lavrapalavra.com/2021/01/25/derrubar-tudo-isso-e-possivel-lavrapalavra-entrevista-jodi-dean/

O Marx de José Paulo Netto

Milton Temer escreve sobre a monumental biografia de Karl Marx que José Paulo Netto acaba de publicar pela Boitempo.

Guito Moreto / Agência O Globo

 

Por Milton Temer.

José Paulo Netto nos dá mais um exemplo dos muitos que sua vida já nos proporcionou, não só como militante, mas como professor e formulador. Este seu Karl Marx: uma biografia se inscreve entre os livros fundamentais de quem se pretenda informar sobre a teoria marxiana, não pela lavagem cerebral da leviana mídia corporativa, mas pelo que realmente produziu, com suas pesquisas e descoberta, o genial Karl Marx.

Porque é da teoria, e não de detalhes da vida privada de Marx, que Zé Paulo se ocupa nessa biografia, por cuja elaboração despendeu mais de um ano de dedicação exclusiva, e de um confinamento pré-pandemia só interrompido pelas palestras a que não se furtava a dar, por convocação.

O desenvolvimento de Marx, do democrata radical ao comunista, passando pelo socialista, se apresenta ao longo da história de como ele evolui do hegelianismo idealista ao materialismo dialético. Ao materialismo histórico. E, neste salto, o papel fundamental de suas descobertas na crítica à economia política que então embasava o surgimento do capitalismo e de sua burguesia.

Instigante, o livro nos estimula a voltar aos originais; a reler Marx não para contrapor o “jovem Marx”, que junto com Engels produz o ainda muito atual Manifesto Comunista, ao Marx “maduro” que publica O capital. Mas para mostrar como o desenvolvimento teórico o leva a uma auto-superação constante.

Não é leitura ligeira; não é livro para ler na poltrona. É para mesa de trabalho, com caderno de anotações ao lado, para registrar o que é fundamental e quotidianamente necessário aos que pensam a realidade não só para contemplá-la, mas, principalmente, para transformá-la. (E antes que venha a gozação pela senilidade do lápis e papel, vale também o scanner do smartphone, para trazer o fundamental no bolso).

Nos tempos sombrios que a esquerda vive, no Brasil e no mundo, a partir das transformações trágicas pela desorganização deliberada do mundo do trabalho, através não só da financeirização globalizada, mas também pelo brutal avanço tecnológico, cujos frutos são hegemonizados pelo grande capital privado, esse livro é instrumento fundamental.

Ele nos obriga a buscar, na realidade atual, o que corresponde, na nunca interrompida luta de classes, ao proletariado dos nascentes grandes espaços da Revolução Industrial, e que Marx definia como sujeito histórico, agente revolucionário. Não nos induz a reproduzir mecanicamente o que foi elaborado pelo Mouro, com base numa realidade social totalmente distinta da atual. Pelo contrário.

Mas é mais um instrumento para, sobre os tijolos categoriais de Marx, nos ajudar a desconstruir esse capitalismo cada vez mais anti-humano, regressivo, predador, concentrador de riqueza e difusor de miséria Humana. E buscar os caminhos eficazes da construção de uma sociedade superior, socialista, antes que a barbárie nos alcance;

Grato pelo trabalho, amigo e camarada Zé Paulo.

Grato à Boitempo, pela edição.

* * *

***

Milton Temer é jornalista político. Ex-deputado federal (PT-RJ), é atualmente membro da Executiva Estadual (RJ) do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), sigla que ajudou a fundar. É um dos autores do Dossiê sobre o golpe de 1964 na revista Margem Esquerda #22. A revista Margem Esquerda #25 abre com uma longa entrevista, realizada por Gilberto Maringoni e Ivana Jinkings, sobre a trajetória crítica e militante de Milton Temer.

O anticomunismo preventivo

Por LINCOLN SECCO*
Assim como o fascismo, o anticomunismo não foi uma resposta a qualquer revolução e seu caráter preventivo é estrutural I aterraeredonda.com.br/o-anticomunismo-preventivo 

Imagem: Ciro Saurius

“Que partido oposicionista não foi acusado de comunista por seus inimigos no governo? Que oposição não lançou de volta a pecha estigmatizante do comunismo tanto contra os partidos de oposição mais progressistas como contra seus adversários reacionários?” (Marx e Engels, Manifesto Comunista).

Em pleno século XXI um movimento anticomunista aparentemente démodé conquistou o poder no Brasil.[i] Inicialmente tolerado como folclórico e mesmo apoiado pela mídia corporativa, depois se revelou monstruoso. Os comentaristas de mídia fingem esquecer que eles mesmos demonizaram como “radical” não qualquer política de extrema esquerda, mas o mais moderado reformismo. Foi o precedente para que emergissem do esgoto ideológico as caracterizações bizarras do cristianismo da libertação, do petismo, de performances artísticas e comportamentos sexuais como comunismo.

O anticomunismo é um elemento de longa duração e surgiu no Brasil antes de qualquer movimento socialista ou comunista. No século XIX, a palavra “comunismo” aparecia nos compêndios jurídicos, discursos de deputados e artigos de jornais associada ao crime, à preguiça[ii], à irracionalidade e ao agigantamento do estado[iii]. Decerto, não se tratava de um fenômeno persistente e enraizado na sociedade civil e nas forças armadas. Estas, ainda não estavam constituídas e centralizadas, material e ideologicamente, o que só aconteceria depois de 1930; e a “sociedade civil” e a política eram espaços de uma restrita coterie.

Contudo, a particular gênese histórica do anticomunismo não contradiz sua validade em outros períodos. Antes exibe um traço estrutural “preventivo”, como veremos a seguir. Uma consulta na hemeroteca digital da Biblioteca Nacional revela que as folhas periódicas nacionais resumiam assiduamente as notícias europeias contrarias ao comunismo. Como já discuti antes, o nosso país não esteve apartado das linhas mestras que norteavam o debate ideológico no Velho Mundo, ainda que faltasse aqui aquilo que denominei infraestrutura intelectual[iv].

Um exemplo já estudado foi o debate sobre a possível chegada de imigrantes da Comuna de Paris nos jornais e no parlamento brasileiros, o qual provocou inúmeras intervenções contrárias ao socialismo e ao comunismo. Os anais da Câmara dos Deputados registram aplausos à vitória da “civilização na capital da França” [v].

Mas de qual comunismo falavam?

Comunismo

As elites imperiais e escravistas estavam perfeitamente conscientes dos significados das correntes socialistas, anarquistas e comunistas. Diferenciavam as primeiras comunidades alternativas inspiradas no socialismo francês utópico e o potencial perigo da associação das ideias socialistas com as revoltas brasileiras[vi]. Leram os libelos europeus antissocialistas, como o best seller de François Guizot, imediatamente traduzido no Brasil[vii]. Marx era citado como “chefe supremo da Internacional” e um jornal publicou um pequeno texto atribuído a ele[viii]. Em 1851 encontra-se uma referência à primeira edição do Manifesto Comunista, publicada em Londres e na qual não constavam os nomes dos autores[ix]. Era muito comum os jornais publicarem notas de falecimento de “célebres comunistas”, como Blanqui; ou sobre a prisão de líderes, como Louise Michel. Havia também artigos que tentavam resumir a trajetória e a obra de Marx e quando o termo marxisme surgiu na França, logo foi introduzido no Brasil com a consciência de que se tratava de um “coletivismo revolucionário”[x] e não reformista ou gradual.

Isso não impediu muitos jornalistas e políticos de forjar uma caricatura. Na definição de um parlamentar, o comunismo era o nivelamento das fortunas de todos os indivíduos pela espoliação[xi]. As políticas estatais de distribuição de renda (“equilibrar as fortunas”) já seriam um indício socialista. O deputado Casimiro Moraes Sarmento denunciava qualquer reforma mínima como “comunismo encapotado” pelas “formas especiais de que se reveste”. Na opinião do mesmo parlamentar, esse comunismo disfarçado distorcia a economia política e até a Bíblia[xii]. Para ele, a “pior espécie de comunismo” era o ensino público e gratuito de todos os níveis e o apoio a teatros e artistas[xiii]. Alguns juristas da Faculdade de Direito de São Paulo também consideravam a instrução pública um princípio comunista[xiv]. Outro parlamentar, o sr. Melo Franco, disse que era contra o apoio ao teatro porque os pobres sustentariam artistas e não assistiriam suas apresentações[xv].

Quando se pensa em acusações de comunismo dirigidas em pleno século XXI ao megainvestidor Soros, ao Papa, às universidades, à Venezuela e a um governador paulista de direita, o historiador tem a sensação de déjà vu. Para um deputado, comunismo era viver às custas do Estado; para outro, o Paraguai sob Solano López era um país comunista e houve quem chegasse ao cúmulo de declarar que o sistema socialista infelizmente já estava implantado no país porque o Estado pagava a passagem de mendigos europeus para formarem núcleos coloniais aqui[xvi].

Anos depois, um parlamentar ousou defender na tribuna os pobres livres (moradores ou foreiros) de Pernambuco, deixando claro que era favorável ao latifúndio, mas preconizava um papel subsidiário à pequena propriedade até para evitar uma revolta social. Durante sua exposição foi apartado por um colega que gritou: “aí vem o comunismo”[xvii]. Embora aleatórios, os exemplos são índices de uma permanência no debate político.

Ainda que o comunismo imaginado por alguns políticos fosse hiperbólico, havia um fundamento real. Eles sabiam que o comunismo já era na Europa um movimento real e prático e não um conjunto de ideais de reforma social. E no Brasil as fugas, insurreições e atos violentos contra senhores estavam documentados nos relatórios apresentados pelos chefes de polícia ou pelos presidentes de província às assembleias. Mesmo assim, havia exageros retóricos que cumpriam a função de prevenir as classes dominantes contra qualquer ameaça, mesmo mínima, aos seus interesses materiais.

Não quero com isso dizer que o anticomunismo foi a forma predominante de defesa dos interesses escravistas; na verdade era marginal. A maioria preferia defender a liberdade, a propriedade e os contratos (sic) entre escravizados e escravizadores recorrendo apenas ao liberalismo. Mas o fato de que os debates sobre a Comuna de Paris coincidiram com a apreciação da Lei do Ventre Livre (aprovada em 28 de Setembro de 1871) propiciou campo aberto para a associação do abolicionismo com o comunismo.

A lei tão somente previa que os filhos de escravas nascidos no Brasil seriam livres, o que contrariava as leis e costumes coloniais e, portanto, o alegado direito de propriedade. Mesmo assim, as crianças poderiam permanecer em poder dos senhores até a idade de oito anos completos, quando os proprietários poderiam receber do Estado a indenização de 600$000, ou utilizar-se dos serviços do menor até a idade de 21 anos. No calor dos debates associou-se o projeto de lei ao comunismo[xviii]. Até mesmo o governo foi assim chamado. Christiano Ottoni (1811-1896), citando uma frase talvez lida em segunda mão em Marx e Engels, declarava que se os escravos fossem emancipados teriam tudo a ganhar e nada a perder com a subversão da sociedade existente. Ele acrescentava que aquela lei permitiria a qualquer comunista repetir aqui as desgraças de Paris[xix].

Comunismo e abolicionismo

Os inimigos dos negros tachavam a alforria de ideia comunista; criticavam a audácia de abolicionistas cearenses por colocar placas nas ruas dizendo que a escravidão era crime e os comparavam a comunistas. O comunismo também era o equivalente de um “Estado salteador” que pretendia expropriar os fazendeiros e criar um “imposto comunista de 40%” sobre o comércio de seres humanos. Obviamente, os “lavradores” se declaravam favoráveis à emancipação (que viria de atos individuais de benevolência e de indenização ou de reformas graduais) e não à abolição (que era sinônimo de revolução)[xx].

O Visconde de Bom Retiro afirmava que a libertação dos sexagenários sem indenização era um atentado à propriedade, inconstitucional e comunista. Outros aludiam ao “projeto comunista de abolições”, ao “imperial projeto de emancipação comunista” e o próprio D. Pedro II foi vinculado ao comunismo[xxi].

O gabinete Dantas, que durou de 6 de julho de 1884 a 6 de maio de 1885, propôs uma lei mais ousada que previa o registro do “elemento servil”; libertação de escravizados com 60 anos de idade ou mais; e assentamento dos libertos em terrenos desapropriados às margens das estradas de ferro e dos rios navegáveis. Naturalmente, o Conselheiro Dantas foi alcunhado de comunista[xxii].

Quando se debateu a lei de 28 de setembro de 1885, também conhecida como Lei Saraiva-Cotegipe ou Lei dos Sexagenários, que determinou a libertação dos que tinham mais de 60 anos, a ligação com o comunismo se repetiu. O barão de Cotegipe pedia recursos em títulos públicos para indenizar os proprietários, mas Andrade Figueira denunciou na Câmara dos Deputados que o governo entraria na indústria privada (ele se referia às fazendas) até para fixar o salário, o que naturalmente era um atentado socialista e comunista. Havia também o pânico da imediata libertação que provocaria vinganças e a queda da lavoura. Como se lia num artigo da época, “a abolição de um jato é uma solução comunista”[xxiii].

Isso levava abolicionistas intransigentes a se defenderem das acusações de que eram comunistas, anarquistas e contra a família e a liberdade[xxiv]. A posição contrária à indenização de senhores escravistas também era rotulada de comunista. Contra isso, um cronista afirmou que, numa acepção restrita, quem fazia comunismo era o próprio Cotegipe que pretendia usar o Estado para indenizar escravizadores[xxv].

Conclusão

O anticomunismo é uma operação de propaganda que visa constituir um inimigo no espaço público através da caricatura de suas ideias e práticas[xxvi]. Não se trata de postura intelectual ou tradução política de uma teoria, mas de uma técnica de mobilização. Na história brasileira a polarização política foi em muitos momentos assimétrica. No caso aqui em tela, a defesa da imigração e da abolição, por membros da elite dissidente, sequer rompia com os fundamentos racistas e a linguagem da biologia social da época. Ainda assim, era considerada revolucionária sem sê-lo. Joaquim Nabuco afirmava a inferioridade do negro[xxvii], embora depois tenha centrado sua posição num ideário liberal mais avançado[xxviii]. Seu objetivo era a conciliação de classes.

O prefixo “anti” não é constituído como negação determinada do comunismo. O que ele supostamente nega não nos permite passar ao seu oposto, afinal, o comunismo real não conserva nada do anticomunismo. Essa sutileza teórica e historiográfica faltou, por exemplo, a Ernst Nolte, na sua Historikerstreit[xxix]. Apesar do anátema lançado àquele historiador por ter visto no nacional socialismo apenas uma reação exagerada ao bolchevismo, toda a imprensa liberal continuou a situar líderes neofascistas e moderados trabalhistas do século XXI numa balança de equivalência, sob o rótulo de populistas ou extremistas de direita e de esquerda.

Sem conseguir opor-se a reformas por meios legais, a Direita cedeu lugar ao seu lado extremo. Contudo, seu adversário continuava a ser uma contida esquerda socialdemocrata. Nas raras oportunidades em que se percebeu uma ameaça revolucionária, ela foi exagerada pelo discurso da extrema direita.

A ausência de um movimento comunista internacional e da própria União Soviética não significa que o fenômeno do anticomunismo não existisse antes e não continue atuando depois. A demonização da China é um Ersatz, já que aquele país restringe sua concorrência na arena internacional ao comércio, diferentemente da União Soviética durante a Guerra Fria.

Assim como o fascismo, o anticomunismo não foi uma resposta a qualquer revolução e seu caráter preventivo é estrutural. Obviamente, no entre guerras ele reagiu também ao Komintern[xxx]. Embora seu alvo seja hipostasiado, o objetivo é concreto: reagir a reformas, ainda que graduais, e se antecipar às radicais.

 

*Lincoln Secco é professor do Departamento de História da USP. Autor, entre outros livros, de Caio Prado Júnior – o sentido da revolução (Boitempo).

 

Notas


[i]     Publicado originalmente em Maria Antonia, Boletim do Gmarx USP, N. 55, 2020.

[ii]    Vide, por exemplo, Diario do Commercio, Rio de Janeiro, 3/10/1870.

[iii]    Ayres, Vivian N. “Marx e o comunismo nos periódicos paulistas do século XIX”, Mouro, n. 13, São Paulo, janeiro de 2019, p. 187.

[iv]    Secco, Lincoln. A batalha dos livros: formação da esquerda no Brasil. Cotia: Ateliê, 2018.

[v]    Annaes do parlamento brasileiro, Rio de Janeiro, 13/7/1871, p. 124; 27/12/1872.

[vi]    Aurora Paulistana, São Paulo, 5/04/1852.

[vii]   Deaecto, Marisa. A Democracia na França, de François Guizot (1848-1849). Tese (Livre Docência). São Paulo: ECA – USP, 2019.

[viii]  Diario de São Paulo, São Paulo, 6/5/1871. Diario de Pernambuco, Recife, 23/7/1871.

[ix]    Correio mercantil e instructivo, politico e universal, Rio de Janeiro, 8/11/1851.

[x]    A Provincia de Minas, Ouro Preto, 30/11/1882; Diario da Manhan, Maceió, 15/2/1883.

[xi]    Annaes do parlamento brasileiro, Rio de Janeiro, 25/8/1852.

[xii]   Annaes do parlamento brasileiro, Rio de Janeiro, 31/5/1854.

[xiii]  Annaes do parlamento brasileiro, Rio de Janeiro, 25/8/1852.

[xiv]  Ayres, Vivian N. Da sala de leitura à tribuna: livros e cultura jurídica em São Paulo no século XIX. Tese (Doutorado em História Econômica). São Paulo: USP, 2018.

[xv]   Annaes do parlamento brasileiro, Rio de Janeiro, 25/6/1855.

[xvi]  Annaes do parlamento brasileiro, Rio de Janeiro, 19/7/1854; 22/5/1855; 26/8/1860.

[xvii]  Annaes do parlamento brasileiro, Rio de Janeiro, 19/6/1866.

[xviii] Viotti da Costa, Emilia. O abolicionismo. São Paulo: Unesp, 2008, p.52.

[xix]  Diário do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 24/6/1871; 3/8/1871; 17/7/1871. Ele era irmão de Teófilo Ottoni, com quem participou da Revolução Liberal de 1842 em Minas Gerais.

[xx]   Diário do Brazil, Rio de Janeiro, 27/6/1884; 25/5/1884; 19/6/1884; 29/6/1884.

[xxi]  O Paiz, São Luiz, 22/8/1884. Diário do Brazil, Rio de Janeiro, 25/7/1884; 1/8/1884; 27/8/1884; 12/8/1884.

[xxii]  Diário do Brazil, Rio de Janeiro, 17/7/1884. Uma crítica a essa posição em: A Federação, Porto Alegre, 22/8/1884. Jornal dirigido por Júlio de Castilhos.

[xxiii] Annaes do parlamento brasileiro, Rio de Janeiro, 16/7/1885; Durocher, Maria Josefina Matildes. Ideias por coordenar a respeito da escravidão. Rio de Janeiro: Typ. do Diario do Rio de Janeiro, 1871. p.5; O Espírito Santense, Vitória, 8/10/1887.

[xxiv] Jornal do Recife, Recife, 20/4/1884 e 30/5/1885.

[xxv] O Espírito Santense, Vitória, 23/6/1888.

[xxvi] Labica, Georges. Dictionnaire du Marxisme. Paris: Presses universitaires de France, 1982. Verbete: “anticomunismo”.

[xxvii] Exemplo disso é: Nabuco, J. O Abolicionismo. Londres: Abraham Kingdon, 1883.

[xxviii] Azevedo, Maria C. M. Onda negra, medo branco. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987, p.100.

[xxix] Essa polêmica é dos anos 1980, mas ainda assim a obra anterior de Nolte é importante para o estudo do fascismo. Por exemplo: Nolte, Ernst. Les mouvements fascistes. L’Europe de 1919 à 1945. Paris: Calmann – Lévy, 1969.

[xxx] Remeto a discussão para Secco, Lincoln. História da União Soviética: uma introdução. São Paulo: Maria Antônia, 2020. E também artigos sobre o fascismo que publiquei no site A Terra é Redonda. Acessar em: https://aterraeredonda.com.br/tag/lincoln-secco.

Octavio Ianni

Neste dossiê, marxismo21 examina a fecunda e criativa obra teórica de OCTAVIO IANNI. Como afirmam seus organizadores, além de ser um dos fundadores da Sociologia no Brasil, Octavio Ianni é, inegavelmente, um dos mais competentes e rigorosos intérpretes marxistas da sociedade brasileira. Livros, artigos, entrevistas e outros materiais de autoria de Ianni são aqui divulgados bem como textos de pesquisadores de sua extensa produção intelectual. | Marxismo 21

 

Octavio Ianni (1926-2004)

 

A Editoria é grata ao competente e incansável trabalho dispendido por quatro pesquisadores da obra de Octávio Ianni, responsáveis pela organização do rico material que o site disponibiliza. São eles, André Rocha Santos (IFSP), Deni Alfaro Rubbo (UEMS), Diogo Valença (UFRB) e Rodrigo Castelo (UniRio).

Editoria, janeiro 2021

Nota: Em virtude da pandemia – que implicou o fechamento de bibliotecas públicas -, livros e ensaios de Octavio Ianni, previstos para este dossiê, não puderam ser digitalizados.

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Octavio Ianni, marxista convicto e confesso

A. Santos, D. Rubbo, D. Valença e R. Castelo (orgs.)

Além de ser um dos fundadores da Sociologia no Brasil, Octavio Ianni (1926-2004) é, sem sombra de dúvida, um dos mais competentes e rigorosos intelectuais marxistas da sociedade brasileira. Soube utilizar, de forma consistente e totalizante, o método dialético, o materialismo histórico e a análise das classes sociais para elucidar – sem qualquer dogmatismo – temas caros à nossa realidade social. Em uma trajetória complexa e multifacetada, se tornou um dos grandes analistas do nosso país, ao lado de nomes como Caio Prado Júnior, Carlos Nelson Coutinho, Clóvis Moura, Emília Viotti da Costa, Florestan Fernandes, Heleieth Saffioti, Jacob Gorender, Leandro Konder, Mário Pedrosa, Nelson Werneck Sodré, Vania Bambirra, dentre tantas e tantos outros.

O jovem Ianni, ingressante aos 23 anos na turma de 1949 do curso de Ciências Sociais da antiga Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP),  era um rapaz “ensimesmado”, “modesto” e “curioso” nas palavras do grande mestre e amigo de toda a vida Florestan Fernandes. Ambos compartilhavam, ainda, a origem humilde e as dificuldades financeiras para concluir o ensino superior. De certa forma, Florestan Fernandes reconhecia-se em Octavio Ianni. O estudante vindo de Itú no interior de São Paulo chegou mesmo a interromper o curso por dois anos. Período no qual se casou com Elene Ianni e desempenhou trabalhos manuais como assistente de editora na Companhia Editora Nacional, e como tipógrafo em Osasco. Realidade bem diferente da maior parte dos colegas da Faculdade de Filosofia, muitos deles oriundos de famílias tradicionais paulistanas ou de imigrantes de classe média (RODRIGUES, 2011).

Do curso terminado em 1954 algumas marcas que irão compor a personalidade do grande sociólogo que iria se tornar: a perseverança em enfrentar os obstáculos (materiais e intelectuais) e a opção pelo povo negro e pela classe trabalhadora da cidade e do campo. Segundo Antonio Candido, eram características essenciais do amigo: “a coerência, o senso do dever, a constante preocupação política, em sentido largo. Esta preocupação norteava as suas ideias e as suas atitudes, fora dos partidos, mas dentro dos interesses mais legítimos da coletividade” (CANDIDO, 2005). ler mais

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I. Livros:

Clique aqui para ter acesso aos livros abaixo relacionados.

CARDOSO, Fernando Henrique; IANNI, Octavio. Cor e mobilidade social em Florianópolis: aspectos das relações entre negros e brancos numa comunidade do Brasil meridional. São Paulo: Editora Nacional, 1960.

CARDOSO, Fernando Henrique; IANNI, Octavio (org.). Homem e sociedade. São Paulo: Editora Nacional, 1965.

IANNI, Octavio. O colapso do populismo na América Latina. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.

_____. Raças e classes sociais no Brasil. 3 ed., revista e ampliada. São Paulo: Brasiliense, [1970] 1987.

_____. Estado e planejamento econômico no Brasil. 5 ed. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, [1971] 2009.

_____. Sociologia da sociologia latino-americana. 2 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, [1971] 1976.

_____. O imperialismo na América Latina. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1973.

_____. A formação do Estado populista na América Latina. 2 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, [1975] 1991.

_____. Escravidão e racismo. São Paulo: Hucitec, 1978.

_____ (org.). Karl Marx: sociologia. 2 ed. São Paulo: Ática, 1980.

_____. A ditadura do grande capital. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1981. [2 ed., Expressão Popular, 2019].

_____. Dialética e capitalismo: ensaio sobre o pensamento de Marx. 3 ed., revista e ampliada. Petrópolis: Vozes, [1982] 1988.

_____. Origens agrárias do Estado brasileiro. São Paulo: Brasiliense, [1984] 2004.

_____. O ciclo da revolução burguesa. Petrópolis: Vozes, 1984.

_____. A ideia de Brasil moderno. São Paulo: Brasiliense, 1992.

_____. A sociedade global. 15 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, [1992] 2013.

_____. Teorias da globalização. 9 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, [1995] 2001.

_____. Tipos e mitos da modernidade: seminários de literatura. Belém: Instituto de Artes do Pará, 2001.

_____. Enigmas da modernidade-mundo. 3 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

_____. Pensamento social no Brasil. Bauru: Edusc, 2004.

_____ (org.). Florestan Fernandes: sociologia crítica e militante. 2 ed. São Paulo: Expressão Popular, [2004] 2011.

II. Capítulos de livros:

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IANNI, Octavio. O jovem radical. In: BRITTO, Sulamita de (org.). Sociologia da juventude, I: da Europa de Marx à América Latina de hoje. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1968. p.225-242.

_____. Populismo y relaciones de clase. In: Germani, Gino et al. Populismo y contradicciones de clase. México D.F.: Ediciones Era, 1973. p.83-150.

_____. Aspectos da formação social escravista. In: LAPA, José Roberto do Amaral (org.). Modos de produção e realidade brasileira. Petrópolis: Vozes, 1980. p.157-165.

_____. Apresentação. In: RODÓ, José Enrique. Ariel. Campinas: Editora da Unicamp, 1991. p.7-12.

_____. As estratégias de desenvolvimento. In: TOLEDO, Caio Navarro de (org.). 1964: visões críticas do golpe. Democracia e reformas no populismo. Campinas: Editora da Unicamp, 1997. p.137-140.

_____. Globalização e nova ordem internacional. In: REIS Filho, Daniel Aarão et al. (org.). O século XX: o tempo das dúvidas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000. p.205-224.

_____. Apresentação. In: MARX, Karl. O 18 Brumário e cartas a Kugelmann. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002. p.11-12.

_____. O negro e o socialismo. In:___ et al. O negro e o socialismo. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2005. p.7-14.

_____. As relações de produção na agricultura. In: BERQUÓ, Elza et al. Estudos de população IV: Sertãozinho. São Paulo: Cebrap, s/d. p.50-140.

III. Artigos

Clique aqui para ter acesso aos artigos abaixo relacionados.

IANNI, Octavio. El Estado y el desarrollo económico del Brasil. Desarrollo Económico, Buenos Aires, vol.3, n.4, p.551-572, jan./mar. 1964.

_____. El Estados Unidos y lo militarismo latinoamericano. Revista Mexicana de Sociología, México D.F., vol.30, n.3, p.511-524, jul./set. 1968.

_____. La formación del proletariado rural en el Brasil. Revista Mexicana de Sociología, México D.F., vol.33, n.3, p.475-488, jul./set. 1971.

_____. A origem política da Sudene. Revista Mexicana de Sociología, México D.F., v.33, n.4, p.647-659, out./dez. 1971.

_____. Ideologia e prática do planejamento durante o Estado Novo (Revista Administração de Empresas, 1971)

_____. A vocação política das ciências sociais (Trans-Form-Ação, 1975)

_____. Raça e política. Revista Mexicana de Sociología, México D.F., v.37, n.2, p.431-444, abr./jun. 1975.

_____. Escravidão e história. Debate & crítica, São Paulo, p.131-144, 1975

_____. O ensino das ciências sociais no 1º e 2º graus (Cedes, 1985)

_____. A utopia camponesa. Revista da USP, São Paulo, n.2, p.103-118, 1986.

_____. A questão nacional na América Latina (Estudos Avançados, 1988)

_____. Raízes da antidemocracia na América Latina (Lua Nova, 1988)

_____. Literatura e consciência. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, São Paulo, n.28, p.91-99, 1988.

_____. A questão social (Revista USP, 1989)

_____. A sociologia e o mundo moderno. Tempo Social, São Paulo, vol.1, n.1, p.7-27, 1989.

_____. A crise de paradigmas da sociologia. Revista Crítica de ciências sociais, n.32, p.195-215, jun. 1991.

_____. Globalização: novo paradigma das ciências sociais (Estudos Avançados 1994)

_____. O mundo do trabalho (São Paulo em Perspectiva, 1994)

_____. Metáforas da globalização. Ideias, Campinas, ano 1, n.1, p.7-21, jan./jun. 1994.

_____. Formas sociais do tempo. Revista de Antropologia, vol.37, p.57-82, 1994.

_____. Nacionalismo, regionalismo y globalización. Estudios latinoamericanos, año 2, n.4, p.19-26, jul./dez. 1995.

_____. A racialização do mundo (Tempo Social, 1996)

_____. A sociologia de Florestan Fernandes (Estudos Avançados, 1996)

_____. Nacionalismo, regionalismo e globalização. Novos Rumos, Marília, ano 11, n.25, p.5-8, 1996.

_____. A obra de Florestan Fernandes. Ideias, Campinas, ano 4, n.1-2, p.13-24, 1997.

_____. A política mudou de lugar. São Paulo em perspectiva, São Paulo, v.11, n.3, p.3-7, 1997.

_____. As ciências sociais na época da globalização (Revista Brasileira de Ciências Sociais, 1998)

_____. Neoliberalismo e nazi-fascismo. Crítica Marxista, Campinas, 1998.

_____. Sociologia e literatura. Rua, Campinas, n.4, p.55-74, 1998.

_____. Globalização e neoliberalismo. São Paulo em perspectiva, São Paulo, vol.12, n.2, p.27-32, 1998.

_____. Insondável travessia (Lua Nova, 1999)

_____. O príncipe eletrônico. Perspectivas, São Paulo, n.22, p.11-29, 1999.

_____. O Estado-nação na época da globalização. Novos Rumos, Marília, ano 14, n.31, p.18-24, 1999.

_____. O declínio do Brasil-nação. Estudos Avançados, São Paulo, vol.14, n.40, p.51-58, 2000.

_____. Pensar de outro modo um outro Brasil. Lua Nova, São Paulo, n.54, p.119-120, 2001.

_____. A violência na sociedade contemporânea. Estudos de sociologia, Araraquara, v.7, n.12, p.7-30, 2002.

_____. Globalización, identidad y emancipación (Punto Cero, 2003)

_____. Dialética das relações raciais (Estudos Avançados, 2004)

_____. Tendências do pensamento brasileiro (Tempo Social, 2000)

_____. Tipos e mitos do pensamento brasileiro (Revista Brasileira de Ciências Sociais, 2002)

_____. A violência na sociedade contemporânea. Estudos de sociologia, Araraquara, v.7, n.12, p.7-30, 2002.

_____. Uma longa viagem (Tempo Social, 2004)

_____. Variações sobre arte e ciência (Tempo Social, 2004)

_____. A construção da categoria. Histedbr online, Campinas, número especial, p.397-416, abril de 2011 [1985].

IV. Ensaios no Cebrap

IANNI, Octavio. Diplomacia e Imperialismo na América Latina. São Paulo: Caderno Cebrap n.12, 1973.

_____. A classe operária vai ao campo. São Paulo: Caderno Cebrap n.24, 1976.

_____. A luta pela terra. São Paulo: Cebrap, 1977.

V. Entrevistas:

IANNI, Octavio. O preconceito racial no Brasil. Estudos avançados, São Paulo, vol.18, n.50, p.6-20, 2004.

_____. Entrevista. In: MARKUN, Paulo (org.). O melhor do Roda Viva: o mais antigo e respeitado programa de entrevistas da TV Cultura. São Paulo: Conex, 2005. p.223-236.

_____. Entrevista. In: LOUREIRO, Maria Rita et al. (org.). Conversas com sociólogos brasileiros: retórica e teoria na história do pensamento sociológico do Brasil. Rio de Janeiro, FGV, 2008. p.12-23. Relatório técnico n.11

VI. Projetos de pesquisa

CARDOSO, Fernando Henrique; IANNI, Octavio. Condiciones y efectos de la industrialización en Sao Paulo (proyecto de estudio). Sobretiro de Ciencias Políticas y Sociales, México D.F., año V, n.18, oct./dic. 1959.

CARDOSO, Fernando Henrique; MOREIRA, Renato Jardim; IANNI, Octávio. O estudo sociológico das relações entre negros e brancos no Brasil meridional. [São Paulo, 1955]. 11 p.

VI. Vídeos

Título de professor emérito da USP

Roda Viva, 2001

VII. Materiais diversos sobre Octavio Ianni

(Tese de doutorado 1 / Dissertações de mestrado 4 / Artigos 18  /Capítulos de livro 1 / Resenhas 2)

ADORNO, Sérgio. Octavio Ianni: a sociologia em sintonia com o tempo. Getúlio, ano 1, nº 2, Fundação Getúlio Vargas, mar., 2007, p. 42-44.

ARRUDA, Maria Arminda do Nascimento. Um intelectual vocacionado. Estudos de Sociologia, v. 9, nº 16, Araraquara, 2004, p. 169-171.

_____. Octavio Ianni, um mestre. Jornal da USP, São Paulo, 12 a 18 de abril de 2004.

BASTOS, Élide Rugai. Referência ética e intelectual. Estudos de Sociologia, v. 9, nº 16, Araraquara, 2004, p. 173-175.

BASTOS, Élide Rugai et al. Octávio Ianni (1926-2004). JORNAL da Unicamp, Campinas, 2004.

BASTOS, Élide Rugai. Octavio Ianni: diversidade e desigualdade. In: BOTELHO, André; SCHWARCZ, Lilian (org.). Um enigma chamado Brasil: 29 intérpretes. São Paulo: Cia. das Letras, 2009. p.378-389.

BERNARDES, Juliano. A Formação do Estado Desenvolvimentista brasileiro na obra de Octávio Ianni. Dissertação (Mestrado em Sociologia). Universidade Estadual de Campinas, 2009.

BEZERRA, Lucas. Octavio Ianni e o proletariado rural no Brasil. Outubro, São Paulo, n.32, p.159-179, outubro de 2019.

BITTAR, Mariluce. A construcao da categoria na perspectiva da dialética: uma aula de Octavio Ianni. Histedbr, Campinas, número especial, p.417-422, abril de 2011.

BOTELHO, André. Octavio Ianni: a sociologia como vocação. Achegas.net: revista de ciência política

BRITO, Jeanne Gomes de. Octavio Ianni: da metamorfose do povo à democracia popular. Cadernos de campo: revista de ciências sociais, v. 1, nº 11, Araraquara, 2005, p. 17-31.

BRITO, Jeanne Gomes de. Estado e desenvolvimento no pensamento de Octavio Ianni. Perspectivas, São Paulo, v. 48, p. 155-181, jul./dez. 2016.

CANDIDO, Antonio. Octávio Ianni: um homem justo. In: Revista de crítica literaria latinoamericana. Año XXXI, nº 61. Lima-Hanover, 1er. Semestre de 2005, pp. 203-205.

CASTELO, Rodrigo; RIBEIRO, Vinícius; LIMA, Ricardo de. A violência como potência econômica: da acumulação primitiva ao novo imperialismo. In: BOSCHETTI, Ivanete (org.). Expropriação e direitos no capitalismo. São Paulo: Cortez, 2018. p.265-292.

CHAGAS, Rodrigo. Octavio Ianni, ditadura militar e a Amazônia. Textos & Debates, Boa Vista, n.24, p.79-106, 2014.

COHN, Gabriel. A longa viagem de Octavio Ianni

LAJOLO, Marisa. Do duplo ao múltiplo, ou uma carta para um mestre ausente: Octavio Ianni. Revista de crítica literaria latinoamericana, Lima-Hanover, año XXXI, n.61, p.207-215, jan./jun. 2005.

LIMA, Marcos Costa. A sociologia totalizante de Octavio Ianni

MEUCCI, Simone. Homenagem a Octavio Ianni (1926-2004). Campos, Curitiba, vol.5, n.1, p.201-210, 2004.

NOGUEIRA, Marco Aurélio. A universidade que não se apaga. Estudos de Sociologia, v. 9, nº 16, Araraquara, 2004, p. 167-168.

OLIVEIRA, Douglas Felício Silva de. Octavio Ianni e a interpretação dialética da sociedade e da sociologia do Brasil. VI Colóquio Marx e Engels, Cemarx, Campinas, 2009.

_____. A sociologia da sociologia de Octavio Ianni: as razões da crítica e a crítica da razão no pensamento social. Dissertação (Mestrado em Sociologia). Universidade Estadual de Campinas, 2011.

OLIVEIRA, Márcio. A inesperada descoberta de Otávio Ianni sobre preconceito contra descendentes de imigrantes poloneses em Curitiba. Sociedade e Estado, Brasília, vol.30, n.3, p.799-817, set./dez. 2015

ORTIZ, Renato. A tensão da ironia apaixonada

ORTIZ, Renato. A ironia apaixonada. Sociologias, Porto Alegre, ano 10, nº 20, jun./dez. 2008, p. 319-328.

SANTANA, Danilo Correia da Silva. Cultura popular e revolta: uma leitura crítica da atualidade de Octavio Ianni nos estudos de cultura de periferia – o hip hop em questão. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal de Goiás, Faculdade de Ciências Sociais, Programa de Pós-Graduação em Sociologia, Goiânia, 2016.

SERÁFICO, Marcelo. Lições do artesanato intelectual: a herança do mestre. In: Sociologias, Porto Alegre, nº 11, jan./jun. 2004.

SILVA, Nívia Cristiane Pereira da. Questão social e questão racial no Brasil: a visão de Octavio Ianni. Em Pauta, Rio de Janeiro, vol.6, n.23, p.191-202, julho de 2009.

TAUIL, Rafael Marchesan. Octavio Ianni: o início de sua trajetória intelectual e uma nova interpretação sobre a questão racial. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais). Universidade Federal de São Paulo: Guarulhos, 2013.

VALLE, Maria Ribeiro do. A sociologia de Octavio Ianni. In: Mediações, Londrina, v. 18 n. 1, p.337-341, jan./jun. 2013.

VIII. Resenhas de livros

CASTELO, Rodrigo. A ditadura do grande capital. Margem Esquerda, São Paulo, n.33, p.153-155

COUTINHO, Carlos Nelson. Os enigmas da modernidade, de Octavio Ianni

MARINI, Ruy Mauro. Estado e capitalismo. Foro Internacional, México D.F., v.7, n.1-2, p.163-166, jul./dez. 1966.

IX. Coleção Octavio Ianni, Biblioteca da FCLar, Unesp, campus Araraquara

 

Publicado originalmente em https://marxismo21.org/octavio-ianni/

A teoria da dependência: 50 anos depois

Por LUÍS EDUARDO FERNANDES*

Comentário sobre o livro recém-editado de Cláudio Katz | A Terra é Redonda

 

                         El Lissitzky, Merz-Matinéen, 1923

 

Cláudio Katz é um prestigiado economista marxista argentino. Possui uma vasta obra, com livros e artigos publicados em diversos idiomas. El porvernir del socialismo (2004), Las disyuntivas de La izquierda en América Latina (2008), Bajo El Imperio del Capital (2011) e Neoliberalismo, neodesenvolvimentismo, socialismo (Expressão Popular, 2016), são alguns bons exemplos de sua produção sempre identificada com os ideários da “Pátria Grande” e a perspectiva socialista.

Livro vencedor do prêmio Libertador de Pensamento Crítico, A teoria da dependência: 50 anos depois reúne uma série de artigos e ensaios a fim de apresentar uma interpretação original da dependência no bojo da tradição marxista. No Brasil, em especial em alguns círculos acadêmicos e políticos, a teoria marxista da dependência (TMD) e a divulgação da obra de Ruy Mauro Marini, Vânia Bambirra e Theotônio dos Santos, com justeza, vêm adquirindo mais audiência e adeptos na última década. Para além de realizar um mero balanço epistemológico do tema, o economista argentino consegue produzir uma interpretação original da dependência a fim de atualizá-la diante dos novos desafios contemporâneos impostos pelo capitalismo e pelo imperialismo.

O livro possui uma estrutura sugestiva, provocante e bem elaborada. Apesar de ser acessível, deve ser lido com calma e atenção, pois em cada capítulo Katz enfrenta alguma importante polêmica pretérita ou presente. Ao enfrentar as polêmicas, sem tergiversar, o autor produz um caminho próprio para as suas investigações e interpretações dos fenômenos. Sem dúvida, será muito difícil para o leitor atento não questionar parte das críticas ou conclusões de Katz. No entanto, seu mérito reside justamente nessa característica rebelde e questionadora, sem abrir mão do rigor teórico e da consequência política na luta de classes.

A primeira parte do livro é destinada ao debate sobre a relação centro-periferia na tradição marxista anterior à teoria marxista da dependência. A começar pelo pensamento marxiano, Katz segue a interpretação de Kevin Anderson e Nestor Kohan com relação ao amadurecimento do revolucionário alemão com relação à periferia capitalista e a superação de visões equivocadas e eurocêntricas que Marx tinha no passado.

Embora a denúncia do colonialismo e uma concepção multilinear da história esteja presente desde a juventude de Marx, este supunha que a periferia repetiria a industrialização do centro, assim como o capitalismo se expandiria em escala mundial, criando um sistema interdependente que facilitaria a transição acelerada ao socialismo. Ele acreditava que a expropriação dos artesãos e dos camponeses levaria a uma expropriação posterior dos seus exploradores. A China era retratada como uma sociedade bárbara, a Índia descrita como um país estagnado pela predominância de comunidades rurais, a América Latina quase não despertava maiores interesses dos fundadores do marxismo.

Foi a “descoberta” da lei do valor, o caráter desigual do desenvolvimento capitalista (a questão da classicidade) e o estudo mais sintomático de países periféricos e coloniais como a própria Índia, Irlanda, Rússia, México e outros que possibilitou uma perspectiva mais apurada de Marx com relação ao desenvolvimento capitalista na periferia. Katz, citando Nestor Kohan, afirma que a revisão sobre a questão nacional-colonial por parte de Marx precipitou uma virada para a construção de uma perspectiva multilinear que ressaltava o papel transformador dos sujeitos na história.

Segundo Katz, a retomada de Marx é importante porque seu pensamento lançou as bases para explicar como o capitalismo gera o subdesenvolvimento. Apesar de não ter formulado uma teoria do colonialismo nem exposto uma tese da relação centro-periferia, as observações de Marx sobre o impacto positivo das lutas nacionais na consciência dos operários do centro forneceram bases para o anti-imperialismo contemporâneo. Apesar de Katz enfatizar essa virada metodológica e o amadurecimento político de Marx, vale também destacar a importância do desenvolvimento de sua crítica da economia política: isto é, a descoberta da lei do valor e a análise da concorrência intercapitalista como elementos dorsais para identificarmos a tendência ao desenvolvimento desigual do capitalismo.

É justamente essas questões vinculadas ao campo da crítica da economia política que o autor argentino melhor enfatiza ao analisar as contribuições de outros três clássicos do marxismo: Lênin, Rosa Luxemburgo e Trótski. Katz incorpora elementos e categorias sobre o imperialismo e a dependência advindos desses três teóricos revolucionários. De Lênin, o economista argentino reivindica a noção de desenvolvimento desigual e a riqueza de suas análises sobre as vias não clássicas de desenvolvimento do capitalismo. A obstrução à industrialização da periferia, para o autor russo, seria uma asfixia econômica por fatores endógenos e exógenos das formações sociais periféricas. Sobre a questão do imperialismo leninista, Katz pondera uma leitura não dogmática, em especial sobre o apontamento de “última etapa capitalista”. Já de Rosa Luxemburgo, o autor argentino enfatiza o pioneirismo da teórica polonesa em interpretar a relação centro-periferia como uma necessidade do capitalismo mundial em expansão.

Para Katz, o germe da proposição de “desenvolvimento do subdesenvolvimento” estaria nos estudos de Luxemburgo sobre a acumulação capitalista e o moderno imperialismo. A dificuldade de realização dos capitais somente através dos mercados internos dos países imperialistas impunha a necessidade de se extrair lucros das colônias e semicolônias, através do controle de tais mercados, da pilhagem colonial ou de maiores taxas de exploração do trabalho nessas regiões. Apesar de não concordar com o diagnóstico subconsumista de Luxemburgo, Katz valoriza suas contribuições, em especial a noção de acumulação por espoliação ou desposseação tão reivindicada por diversos economistas e geógrafos contemporâneos, como David Harvey.

Já de Trótski, o economista argentino incorpora a noção de desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo. Segundo o autor, Trótski não só registrou as assimetrias, mas também as misturas de formas avançadas e atrasadas nas formações incorporadas ao mercado mundial. Ou seja, ao acrescer o princípio da combinação ao desenvolvimento desigual, Trótski ilustrou bem a diversidade de ritmos de desenvolvimento e a mistura entre o arcaico e moderno.

Num raro esforço contemporâneo, Katz também revisita os debates socioeconômicos sobre o capitalismo e imperialismo no pós-Segunda Guerra. Nesse sentido, o economista argentino tentou fazer uma síntese dialógica entre três grandes “escolas” de interpretação do fenômeno do imperialismo contemporâneo.

A primeira seria a do grupo da Monthly Review; liderado por Paul Baran, Paul Sweezy e Harry Magdoff, a tradicional revista marxista estadunidense tem o capitalismo monopolista e o imperialismo contemporâneo como uns dos principais objetos de estudo. Desdobrando o argumento de Lênin de que o capitalismo monopolista desenvolvera uma nova tendência, a da estagnação, a “Escola da Monthly Review” localiza o imperialismo como uma espécie de contratendência à estagnação ao lado dos gastos improdutivos, consumo de luxo, militares, etc. Baran e Sweezy enfatizam a teoria do “dreno imperialista”, ou seja, como grande parte do excedente econômico das periferias é transferido para os países imperialistas. Magdoff materializa esse argumento através dos seus estudos empíricos sobre a política externa norte-americana e os seus novos mecanismos de extração de excedentes.

A segunda escola revisitada por Katz é vinculada ao pensador egípcio Samir Amin. Amin, infelizmente, é pouco conhecido e difundido no Brasil, mas possui uma expressiva e extensa obra econômica, política e filosófica. Foi um dos mais notáveis marxistas terceiro-mundistas, atento analista das transformações econômicas, sociais e geopolíticas do capitalismo e imperialismo. Nesse sentido, Katz reivindica, em especial, dois argumentos-síntese de Amin. O primeiro é de que, principalmente após a década de 1970, o sistema imperialista teria adaptado as rivalidades econômicas a uma gestão política-militar compartilhada pelas grandes potências: o imperialismo coletivo.

Com essa tese, à época, Amin se diferenciava à tese das sucessões hegemônicas que postulavam a necessária substituição da supremacia estadunidense por outra potência dominante. O outro argumento central de Amin, destacado por Katz, é a atualização da lei do valor de Marx, isto é, a sua “mundialização”. O famigerado processo de “globalização produtiva e financeira” rompeu com os limites nacionais da lei do valor. A base econômica do imperialismo contemporâneo, para Amin, seria a vigência de diferentes taxas no grau de exploração da força de trabalho e a expropriação de riquezas naturais e sociais da periferia.

O último autor revistado foi o economista franco-belga Ernest Mandel. Para Katz, a interpretação mandeliana sobre o “capitalismo tardio” também trouxe importantes contribuições para a reflexão da relação centro-periferia. Ao contrário de Baran e Sweezy onde a teoria do dreno enfatiza mais os elementos exógenos da dominação imperialista, em Mandel o desenvolvimento desigual e combinado se atualizou. Para o economista franco-belga, o pós-Guerra foi marcado por um período contraditório de obstrução do desenvolvimento na periferia. Se, por um lado, um grupo de países periféricos perpetuou a primarização agromineira para atender à nova demanda de insumo, por outro, alguns países periféricos alcançaram algum desenvolvimento industrial com o processo de substituição de importações.

Sendo assim, ampliar-se-ia a transferência de mais valia e lucros para os países imperialistas através de diversos mecanismos endógenos e exógenos à acumulação capitalista nos países dependentes ou periféricos. Para Mandel, para além da deterioração dos termos de troca, a dependência se expressa também nos diferentes graus de exploração e produtividade do trabalho, inclusive, em regiões periféricas no interior dos países imperialistas, algo que Mandel chamou de “colônias internas”.

A segunda parte do livro é destinada a apresentar, em linhas gerais, as formulações da teoria marxista da dependência, seus críticos, diferenças e proximidades com a teoria do sistema-mundo de Immanuel Wallerstein e um breve balanço crítico da obra do alemão André Gunder Frank. Katz dá um destaque especial às proposições de Ruy Mauro Marini com relação a uma legalidade específica do capitalismo dependente latino-americano.

Marini conceitua o capitalismo dependente a partir de suas observações sobre o ciclo de financiamento, produção e comercialização dessas economias em comparação com os países centrais e o menor investimento privado nas ex colônias. Constatou também que o capital estrangeiro drenava recursos por meio de royalties, excedentes ou compra de maquinaria. No entanto, o cerne para compreender a extração dos lucros extraordinários dos grandes monopólios estaria na superexploração do trabalho, em especial por conta da população excedente de trabalhadores em diversas regiões latino americanas.

De certa forma, Marini propõe desdobramentos da lei do valor de Marx a partir das especificidades latino-americanas. Superexploração do trabalho e subimperialismo, devido às atrofias do mercado interno e o “desenvolvimento do capitalismo dependente”, fazem parte de um arsenal de categorias desenvolvido não só por Marini, mas também por Vania Bambirra, Theotônio dos Santos e outros intelectuais. No entanto, talvez o ponto alto dessa segunda parte seja a tentativa de síntese e aproximação entre dois autores marxistas latino-americanos divergentes: Agustín Cueva e Marini.

Cueva, entre os anos 1960 e 1980, foi um dos grandes críticos da teoria marxista da dependência, em especial sua versão preliminar cristalizada em André Gunder Frank. Para Cueva, numa leitura mais próxima à tradição dos partidos comunistas, embora existissem particularidades históricas no capitalismo latino-americano, não existiria uma legalidade própria desse capitalismo. O equatoriano contestou teórica e empiricamente as noções de superexploração, como pauperismo absoluto dos trabalhadores, e subimperialismo a partir de análises empíricas da economia argentina e brasileira, por exemplo. Suas proposições ficaram conhecidas como marxismo endogenista.

Contudo, em especial, na fase de redemocratização dos sistemas políticos latino-americanos, crise da dívida externa e ascensão neoliberal, Katz destaca uma maior proximidade nas posições entre Marini e Agustín Cueva. Apesar de manterem diferenças importantes, para Katz, o encontro entre Marini e Cueva fornece importantes sínteses para desvendarmos a dependência latinoamericana, sem dúvida um caminho não sectário e dialógico fundamental para o marxismo latinoamericano neste século: “No plano econômico, a região é subdesenvolvida em comparação com os países avançados. Na divisão internacional do trabalho, a América Latina ocupa um lugar periférico, em oposição à inserção privilegiada das potências centrais. No aspecto político, sofre dependência, ou seja, margens estreitas de autonomia e contrapostas ao papel dominante exercido pelo império”. [KATZ, 2020, p. 137]

A terceira e última parte do livro reúne artigos de Katz sobre a sua proposição de atualização da dependência no século XXI – por isso, também, é a parte mais polêmica e instigante de sua obra. Esses artigos animaram o debate marxista dentro e fora na América Latina. Sumariamente, Katz concorda que a problemática das “duas crises” da periferia industrializada investigadas por Marini intensificar-se-ia nesse século, isto é, por um lado haveria uma sangria de divisas provocada pelo pagamento de juros, patentes e royalties aos grandes monopólios internacionais e, por outro, haveria uma crise de realização devido à atrofia dos mercados internos. Outro legado oriundo dos fundadores da TMD que Katz reivindica é a atualidade das transferências de valor e mais-valor por meio das cadeias globais produtivas lideradas por grandes corporações sediadas em países imperialistas.

No entanto, o economista argentino questiona a validade da categoria de superexploração como base socioeconômica da dependência e do imperialismo contemporâneo. Para ele a internacionalização da lei do valor devido ao processo de “globalização” notabilizou-se por uma hierarquização dos preços do valor da força de trabalho a partir de elementos históricos, como a correlação de forças na luta de classes, e estruturais, como a inserção de cada país nas cadeias de valor globais. Segundo Katz, a dependência não se baseia na violação, mas no cumprimento da lei do valor. Esse critério seria decisivo na caracterização da força de trabalho e, também, forneceria um guia para resolver velhos enigmas da teoria marxista, como a transformação de valores em preços (KATZ, 2020, p. 280).

Sobre o “subimperialismo”, Katz afirma que as bases econômicas desse fenômeno descritas por Marini, em especial as restrições de mercado interno, não se sustentam. Além disso, entre os “países intermediários” também há importantes diferenças: o ponto central para o intelectual argentino seria o papel de cada país nas cadeias globais de valor e o respectivo poder militar. Além disso, o autor também aponta importantes diferenças no ciclo da dependência contemporânea e o redesenho da divisão internacional do trabalho após a emergência do neoliberalismo.

O predomínio extrativista na América Latina, a desindustrialização de países como Brasil e Argentina, o crescimento industrial asiático e os novos mecanismos de dominância financeira e tecnológica dos países imperialistas, em especial os EUA, são algumas transformações apontadas. Para ele, a teoria marxista da dependência clássica não daria conta de interpretar, por si só, esses novos fenômenos, embora o autor não ofereça grandes alternativas, por exemplo, numa interpretação ainda vaga sobre o desenvolvimento chinês. O economista argentino chega a reivindicar a contemporaneidade de uma renda imperialista, isto é, a apropriação de riquezas naturais e sociais por parte de grandes empresas imperialistas protegidas por seus Estados.

Por fim, diante das proposições de Katz, cabe salientar o debate de alto nível entre marxistas. Referências da teoria marxista da dependência como Jamie Osório (2018), Adrián Sotelo Valencia (2018) e Carlos Eduardo Martins (2018) produziram interessantes respostas defendendo a atualidade da categoria de superexploração para definir a particularidade da dependência latinoamericana. Osório e Valencia, em especial, sugerem que a superexploração seria uma terceira forma de exploração dentro da teoria do valor expandida no mercado mundial. Martins analisa as transformações contemporâneas do capitalismo e uma possível renovação da TMD sem abrir mão das principais categorias dos seus fundadores.

Esse é um debate que, inclusive, tem transcendido as fronteiras latino-americanas. Pesquisadores ingleses do imperialismo contemporâneo, como John Smith (2015) e Andy Higginbottom (2009), a partir de investigações das cadeias de valor globais, sustentam que a superexploração é a base econômico-social do imperialismo no século XXI. Inclusive, caminham para uma definição dessa categoria tendo como ponto de partida o cálculo das diferentes taxas de exploração nas cadeias produtivas. O Instituto Tricontinental, recentemente, apresentou um estudo interessante com relação às taxas de exploração nos países periféricos a partir da cadeia de produção do iPhone. Portanto, mais que uma definição vinculada ao pauperismo, a superexploração, no capitalismo contemporâneo, seria algo mais “relativo” diante das diferentes condições sociais, econômicas e culturais das classes trabalhadoras.

Nesse sentido, sem dúvida, a obra de Cláudio Katz merece ser lida por todos os intelectuais e militantes comprometidos com transformações estruturais nas sociedades. O esforço de atualização das teorias da dependência e do imperialismo também é um esforço de revigorar o pensamento marxista como a teoria revolucionária para o século XXI.

*Luís Eduardo Fernandes é professor de História, doutorando no programa de pós graduação em Serviço Social da UFRJ e membro do comitê central do PCB.

 

Publicado originalmente em https://aterraeredonda.com.br/a-teoria-da-dependencia-50-anos-depois

 

Referência


Cláudio Katz. A Teoria da Dependência: 50 anos depois. Tradução: Maria Almeida. São Paulo, Expressão Popular, 2020.