O PCB e a Guerra Civil Espanhola
por Paulo Schueler
Considerada uma batalha ideológica entre adeptos do fascismo e do socialismo de todo o mundo, a Guerra Civil Espanhola teve início em 1936 com a revolta de líderes do Exército contra as crescentes tendências socialistas e anticlericais do governo da Frente Popular Republicana do presidente Manuel Azaña. Os insurgentes – monarquistas, católicos e membros da Falange Fascista – foram apoiados pela Alemanha e a Itália, que reconheceram o governo instalado por Francisco Franco em 1º de outubro de 1936, quando a guerra civil estava ainda em andamento. O Partido Comunista Brasileiro (PCB) comprovou seu internacionalismo à época, enviando alguns de seus melhores quadros para a Espanha. Infelizmente, Franco venceria a disputa e derrotaria o processo de avanços vivido pelo país.
A solidariedade internacionalista para com o governo legal de Frente Popular manifestou-se pela criação, em quase todo o mundo, do “comitês de ajuda à Espanha republicana”, em especial pelo afluxo de voluntários estrangeiros, agrupados nas “Brigadas Internacionais”. O Brasil também se fez presente, através do envio de um pequeno grupo de combatentes experimentados, numa ação coordenada pelo PCB. Apesar de dispersos em diferentes unidades militares, eles se distinguiram de todos pela bravura demonstrada nas frentes de luta e pela dedicação à causa legalista, identificada pela maior parte deles com a luta antifascista e com a causa do socialismo internacional.
A maior parte dos brasileiros que tomou parte na guerra civil espanhola era egressa do movimento da Aliança Nacional Libertadora, tinha conhecido a prisão ou o exílio no período imediatamente posterior à tentativa de insurreição de novembro daquele ano, e respondia aos apelos de “solidariedade internacionalista” lançados pelo movimento comunista internacional.
Em 3 de junho de 1937, José Carlos de Macedo Soares assume o cargo de Ministro da Justiça no Brasil. Poucos dias depois, determina a soltura de todos os prisioneiros políticos ainda não condenados e quadros militares da ANL e do PCB são postos em liberdade. Nessa ocasião, afirmaria depois o dirigente comunista Roberto Morena, “se reuniu clandestinamente o Bureau Político do PCB, ampliado a alguns camaradas convidados examinando a situação política do país, a significação da luta do povo espanhol e as medidas a serem tomadas para organizar a solidariedade ativa com os combatentes espanhóis. Entre as decisões tomadas no curso dessa reunião, a de enviar um contingente de militares saídos de prisão para se engajar nas fileiras dos combatentes das Brigadas Internacionais, foi uma das mais altas manifestações de solidariedade com aqueles que lutavam pela democracia, pela liberdade e pelo socialismo em seu país”.
O Bureau Político do PCB pretendia formar um contingente de aproximadamente 100 voluntários, dentre eles Dinarco Reis – o Tenente Vermelho, mas devido às difíceis condições em que se encontrava então o Partido, não foi possível enviar esse número. Por outro lado, um certo número de militares experientes — como Agildo Barata, Agliberto Vieira de Azevedo, Gregório Bezerra, Ivan Ramos Ribeiro — tinha sido condenado a duras penas de prisão, o que diminuiu a quota de voluntários disponíveis.
Apesar de que algumas referências apontem a existência de mais de trinta brasileiros combatentes na Espanha republicana, o provável número de voluntários saídos do Brasil não ultrapassaria 25, dos quais 17 ou 18 foram mobilizados nos cenários de guerra e se tornaram efetivamente combatentes.
As motivações que presidiram à tomada de decisão, por parte desse punhado de homens, de participar da Guerra Civil Espanhola como combatentes voluntários, foram as mais diversas possíveis, mas, basicamente, podem ser identificadas duas posições: por um lado, o cumprimento de um dever de solidariedade e de internacionalismo proletário da parte dos militares vinculados ao PCB; por outro, a colaboração pessoal e direta em defesa de convicções políticas — no caso a luta contra o fascismo — mas sem injunções partidárias, da parte dos voluntários não-comunistas.
Em ambas as situações, tratava-se de uma manifestação concreta de solidariedade fundamentada na certeza de que os combates nos campos da Espanha constituíam parte de uma mesma luta geral contra as forças do fascismo; o primeiro grupo, contudo, além de ser mais numeroso, era melhor preparado organicamente e mais motivado ideologicamente, mas em ambos, seus elementos se distinguiram heroicamente em situações pessoais de combate.