Entrevista narra participação do PCB nas Ligas Camponesas

A seguir reproduzimos entrevista de Clodomir dos Santos Morais, líder camponês que chegou a ser deputado estadual de Pernambuco eleito pelo PCB em conjunto com a legenda do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), de 1955 a 1959, ao Portal do MST. A entrevista ocorreu durante a organização de evento que reuniu em Brasília diversos segmentos da luta dos trabalhadores do campo, na qual se lembrou das Ligas Camponesas das décadas de 1950 e 1960- elas mesmas uma retomada de antigas Ligas da década de 1930, originárias da ação do Partido Comunista Brasileiro (PCB) no campo.

Preso entre 1962 e 1965, Clodomir chegou a dividir a cela com o educador Paulo Freire. Com os direitos políticos cassados por uma década, foi expulso do país, permanecendo exilado por mais 15 anos.

Qual o primeiro desafio das Ligas? A institucionalização das primeiras organizações?

O Código Civil é a lei que a burguesia respeita. O Código Civil foi feito por ela. E aprovado em 1918. Então ela respeita, não rasga. Porque, se rasga, eles mesmos são afetados, eles mesmos perdem seus direitos. Então a gente estava perdendo tempo querendo resolver nossas questões com o Ministério do Trabalho [se referindo à legalização das primeiras organizações camponesas na década de 1950]. O Código Trabalhista não era para isso. E começamos as Ligas Camponesas por aí. A partir daí elas iriam longe. Tínhamos uma burguesia que acreditava nos slogans das Ligas Camponesas. Grande parte eram burgueses com dinheiro, a começar por Jânio Quadros, que foi nosso grande amigo.

A fragmentação política era uma das características desse movimento camponês?

Não eram tão fragmentadas. As Ligas eram o braço direito, ou esquerdo, se quiser, do próprio Partido Comunista. E eu também era comunista. Meteram-se até na luta armada para defender o sistema democrático que estava ameaçado, quando do suicídio de [Getúlio] Vargas.

Qual era grau de tensão política entre os dirigentes das Ligas, desde a morte de Vargas até o golpe militar de 1964?

Veio o Café Filho [sucessor de Vargas], e esperávamos o golpe. Assim como com Juscelino Kubitschek. Até chegar em 1964. Tudo mundo sentia que se aproximava [o golpe]. Lamentavelmente, as direções do PC dos estados, fora Pernambuco, não viam isso. Achavam que deviam participar de alguma forma das fileiras do Estado, para legalmente reivindicar as coisas. Legalmente não se reivindica nada. O pessoal não acreditava, achava que a gente era aventureiro. Estávamos vendo a hora de os EUA invadirem Cuba, e realmente invadiram, em 1961.

Entretanto, apoiamos Cuba sem precisar de nenhuma ajuda material desse país. Hoje temos um parlamento em que 60% é composto por latifundiários. Os maiores latifundiários do continente estão lá dentro. Um deles chegou a ser governador do Mato Grosso [Blairo Maggi], que possui um milhão de hectares de terras da Amazônia. De modo que foi uma ilusão dos camaradas do Partido Comunista que, afinal de contas, nunca quiseram discutir [o atrelamento ao Estado, o legalismo].

E como foi o Congresso de 1961?

Eles realizaram um congresso em que as Ligas participaram e virou totalmente a cara dele. Buscaram fazer um congresso para disciplinar o arrendamento de terras. Nós não estávamos pensando em arrendamento, mas numa reforma agrária, mesmo como uma bandeira de revolução burguesa. E a própria burguesia nos apoiava.

O PC armou as Ligas na iminência do Golpe de 1964?

Os que dirigiam as Ligas eram comunistas. O PC apoiava o general [Henrique Teixeira] Lott. Boa parte estava comprometida com a eleição dele, e não queria que o movimento das Ligas atrapalhasse. Mas os comunistas das Ligas de Pernambuco criaram um Comitê que cuidou do apoio à Cuba. Mas é evidente que setores se armaram. Logo após o golpe militar, as Ligas ocuparam a cidade de Vitória de Santo Antão. Ocuparam o Engenho Serra com mil homens armados. Mas as Ligas só tiveram um dispositivo que foi deflagrado pelas autoridades, hoje localizado no Estado de Tocantins.

Houve outro grande dispositivo militar no Estado do Rio de Janeiro. Eram 27 dispositivos militares. Estou terminando, daqui a seis meses, o livro História Militar das Ligas Camponesas. São quarenta anos de pesquisa. Vários quadros estiveram nos dispositivos militares das Ligas, e ninguém sabia os nomes deles, e depois, pouco a pouco, a gente foi encontrando com um e com outro e reunimos os dados.

Que rumo tomaram esses dispositivos após o golpe?

Nós desligamos esses dispositivos antes mesmo de sermos presos. A divisão interna era muito grande e os inimigos pertencentes ao sistema tinham muita força.

Qual a influência das Ligas na Guerrilha do Araguaia?

Alguns membros da Guerrilha do Araguaia adquiriram experiência com as Ligas Camponesas. Ali haviam vários caras formados pelas Ligas. Como foi também com o grupo de [Carlos] Marighella, de [Carlos] Lamarca, do Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8). Como eu estava no exílio, fui saber disso depois.

E como o senhor vê a luta dos movimentos camponeses, hoje?

O MST merece todo o respeito por tudo o que fez, mas se acomodou, de certo modo. Já perdeu bastante combatividade. Pelo oportunismo de alguns camponeses e alguns dirigentes. Mas eu continuo acreditando bastante em [João Pedro] Stedile. Ele é um técnico com política na cabeça.

Como o senhor vê a estrutura organizativa dos camponeses hoje?

Hoje é cada um por si, e Deus por todos. E você vai encontrar aí muitos assentamentos que estão em pedaços. Ainda têm papelão ou lona em cima do telhado. Temos que retomar a luta. Os movimentos camponeses de hoje viram que é mais fácil fazer o caminho que o Partido Comunista fez na época de Miguel Arraes, quando era governador de Pernambuco. Arraes chegou a ter metade de seu secretariado comunista. Não faltava nada ao partido.