O jornalista Nilton Almeida lança nesta terça-feira o livro Rebeldes pelos caminhos de ferro: os ferroviários na cartografia de Fortaleza, que resgata a trajetória dos ferroviários no Ceará. Entre eles, inúmeros militantes do PCB fizeram história no movimento operário local. A seguir, reproduzimos matéria publica no jornal O Povo, de Fortaleza, sobre o lançamento. Ao final do texto, oferecemos link em que a tese que deu origem ao livro de Nilton está disponível para download.
“A vida de José Elias Gonzaga, 82, compõe um dos capítulos mais importantes e desconhecidos da história recente de Fortaleza. Em meio aos 67 anos em que passou como ferroviário, o homem de 1,52 m – daí a alcunha de Catita – sofreu perseguição política pela ditadura militar brasileira (de 1964 a 1985). Funcionário da antiga Rede de Viação Cearense (RVC), empresa que administrava as ferrovias do Estado, ele é um dos poucos ainda vivos que, naquela época, levantaram-se contra o regime político vigente, apoiados pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB). Vice-presidente da União dos Ferroviários, José Elias é um dos personagens de Rebeldes pelos caminhos de ferro: os ferroviários na cartografia de Fortaleza, do jornalista Nilton Almeida, atual presidente da Associação Cearense de Imprensa (ACI). O livro será lançado hoje.
Na obra, o resultado da insurgência: mortes, prisões e torturas – físicas e psicológicas. “Eu morava na Demóstenes Rockert (conhecida como Vila dos Ferroviários, na avenida Francisco Sá) e, inesperadamente, estava curtindo as minhas férias com a família, chegou a polícia na minha casa e me levou”, narra José Elias sobre sua segunda prisão. Feito da primeira vez em que foi “colhido”, não recebeu maiores explicações, além da acusação de ser subversivo.
Dessa vez foram apenas 13 dias, mas a primeira contou 42, a terceira, 24 horas e a última, um mês. “Como vinham umas autoridades do governo pra cá, em visita a Fortaleza, por precaução prenderam ‘os perigosos’, porque nós éramos classificados como indivíduos perigosos. Fomos presos eu e alguns companheiros, por denúncia”, explica o motivo da segunda prisão. Em qualquer das vezes em que foi detido teve inquérito, processo ou direito a um advogado. “Não respondi a nenhum inquérito. Me perguntar o que, indagar o quê? Era só perseguição política mesmo porque naquele tempo não existia cidadania”, ele conta.
Diferente de outros companheiros, José não foi torturado fisicamente. Recebeu ameaças, ouviu que morreria esquecido na cadeia; que seria transferido para outro estado, longe da família. Acabou sendo aposentado compulsoriamente – outra maneira de punir os ferroviários subversivos. O estigma de ser um rebelde se manifestava como outra forma de perseguição por parte dos próprios colegas de trabalho, vizinhos, familiares. “Os ferroviários que viam a minha mulher desviavam o caminho, com medo de ser denunciados por serem vistos com a minha família”, narra.
Vinte e um anos após o fim do regime ditatorial, em 2006, o Governo do Estado começou a indenizar os perseguidos no Ceará com a criação da Comissão Especial de Anistia Wanda Sidou. A partir desse trabalho, os ferroviários emergiram como personagens de destaque no capítulo cearense do período da Ditadura. José Elias é um entre os 12 ex-presos e familiares de falecidos, no grupo dos ferroviários, que foram indenizados. Ele recebeu R$ 28 mil reais. Agora, ele tenta a reparação do Governo Federal, com pedido de indenização no Ministério da Justiça.
Rebeldia registrada
Foi ao fazer parte da comissão, em 2003, como representante da Secretaria de Cultura do Estado, que Nilton Almeida se deparou com histórias como a de José Elias. Relator dos pedidos de indenização de outros perseguidos políticos daquele período, o interesse jornalístico e a verve de historiador pulsaram diante das quase 800 páginas de processo somente do grupo dos ferroviários. Nascia ali o projeto de mestrado, defendido em 2009 na Universidade Federal do Ceará, e transformado em livro. Publicado pela Secretaria de Cultura do Ceará, em parceria com o Arquivo Público do Estado, Rebeldes pelos caminhos de ferro: os ferroviários na cartografia de Fortaleza resgata a atuação dos ferroviários na vida de Fortaleza, desde a chegada do trem à cidade até o fim do período ditatorial, em 1985.
“Desde que a ferrovia começa a ser implantada no Ceará, eles (os ferroviários) começam a ter uma participação muito rica na cidade. O trem é um sinal de progresso, é um avanço, permite a formação de determinados núcleos urbanos. Eles vão aparecendo em termos quantitativos, mas também na participação política por causa da importância do transporte ferroviário”, explica o autor. Apesar de contextualizar a importância econômica da ferrovia e as mudanças na própria dinâmica da capital a partir dos trilhos, o livro centra a narrativa no sujeito histórico. “O trabalho evoluiu para mostrar como esses homens foram se incorporando ao tecido social até terem uma participação efetiva nos processos de reivindicação, nas greves, nas passeatas”, resume Nilton.
Dividido em três grandes capítulos, além dos depoimentos a que teve acesso quando da comissão estadual de anistia, o livro foi baseado em pesquisas feitas em jornais e outros documentos da época, sem contar as entrevistas com ferroviários ainda vivos e viúvas. O livro de 244 páginas traz também fotos e ilustrações que dão o clima daquele período.”