Ricardo Costa
Georg Lukács nasceu um Budapeste, Hungria, no dia 13 de abril de 1885. Oriundo de família burguesa, recusou-se a seguir a vida dos negócios para dedicar-se ao estudo das artes e da literatura, revelando grande talento para a crítica. Pela Universidade de Budapeste, torna-se doutor em Leis em 1906 e em Filosofia, em 1909. Desenvolve sólida formação humanista, ao conviver com intelectuais do quilate de Béla Bartók, Eugene Varga, Max Weber, Ernst Bloch, Mannheim e outros, sofrendo forte influência da sociologia e da filosofia neokantiana. Aprofundou suas leituras de Marx, Engels e Rosa Luxemburgo após a Revolução de Outubro de 1917. No ano seguinte, entusiasmado com as possibilidades do processo revolucionário mundial, ingressou no Partido Comunista da Hungria. Em março de 1919, eclode a revolução húngara e é proclamada a República Proletária dos Conselhos, a Comuna Húngara, sob a liderança de Béla Kun. Lukács é designado vice-comissário do Povo para a Cultura e a Educação Pública, realizando profunda reforma educacional, socialização das editoras e abertura dos museus e teatros aos trabalhadores. Em agosto, porém, as tropas fascistas de Horthy massacram a experiência socialista na Hungria (5.000 pessoas executadas, 75.000 presas e 100.000 forçadas ao exílio) e obrigam o PC a atuar na clandestinidade.
No exílio em Viena, após livrar-se da extradição e da condenação à morte graças à ampla mobilização de intelectuais alemães, prepara os originais de uma de suas mais importantes obras teóricas: História e Consciência de Classe, publicada em 1923. Por sofrer forte influência do pensamento de Hegel, acabou se tornando um de seus livros mais polêmicos, renegado pelo próprio autor na sua maturidade intelectual e política, mas que serviu de referência e inspiração para teóricos da Escola de Frankfurt (como Adorno e Benjamin) e do existencialismo (Sartre). No plano teórico, a obra ataca o marxismo vulgar da II Internacional, a vertente revisionista de Bernstein e o positivismo dominante nas ciências sociais, contra os quais propõe a aplicação rigorosa da dialética materialista. No plano político, alinha-se com Rosa Luxemburgo na perspectiva da eclosão da revolução proletária mundial, que não veio. Neste livro, Lukács formula a teoria da reificação (no capitalismo, os fenômenos sociais e as relações entre os homens assumem sempre a aparência de coisas), assim como desenvolve a análise segundo a qual a realidade só pode ser estudada cientificamente a partir do ponto de vista da totalidade. O ponto polêmico é a ideia de que somente o proletariado pode conhecer a realidade em sua totalidade, pois ciência e consciência coincidiriam nele, por ele ser, ao mesmo tempo, sujeito e objeto do conhecimento, ou melhor, o conhecimento de si mesmo significaria o conhecimento de toda a sociedade. Mas esta consciência não é dada de forma imediata; seria, isto sim, produto da luta de classes: pela resistência à sua redução a mera condição de mercadoria, pela luta contra a coisificação da força de trabalho, o operariado tenderia a descobrir e questionar o processo de reificação, revelando o caráter fetichista de toda a mercadoria. Assim, a consciência de si do proletariado seria, simultaneamente, o conhecimento do conjunto das relações capitalistas.
O livro foi objeto de vigorosa condenação por parte da Internacional Comunista em seu V Congresso (1924), atacado por Bukharin e Zinoviev pelas “recaídas no velho hegelianismo” e pelo “revisionismo teórico”. Lukács acabou por afastar-se da política partidária ao ser ameaçado de expulsão do PC húngaro após a divulgação de suas Teses de Blum (pseudônimo usado na clandestinidade), derrotadas no II Congresso do Partido (1929), por defender a “ditadura democrática do proletariado e do campesinato” e retratar a classe trabalhadora como herdeira da melhor tradição da humanidade – incluindo aí a tradição revolucionária burguesa – e não apenas a criadora da nova cultura operária. Lukács entendia que a alternativa ao fascismo de Horthy deveria ser um regime de liberdades políticas, construído a partir de uma ampla frente política. Na época, a Internacional Comunista passou a repudiar a aliança com a socialdemocracia, advogando a tática da “classe contra classe”. Em 1930, Lukács segue para Moscou, onde, trabalhando no Instituto Marx-Engels, aprofunda seus conhecimentos sobre o pensamento marxiano ao dedicar-se à leitura dos Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844, o que o permite superar as concepções idealistas presentes em História e Consciência de Classe. No plano teórico cultural, busca construir uma estética marxista, aprofundando a concepção do realismo crítico, em contraposição ao naturalismo próprio da literatura burguesa e mesmo da arte proposta pelo “realismo socialista” (no período de Stálin na União Soviética), método voltado à mera descrição dos fenômenos.
Com o fim da guerra e a derrota do fascismo, Lukács retorna a Budapeste, é eleito membro do parlamento húngaro e volta a participar ativamente da vida cultural europeia, mas, entre 1949 e 1953, sofre perseguição dos seguidores de Stálin, através de campanha de “descrédito ideológico” orquestrada por militantes e dirigentes do PC húngaro. Volta, então, suas energias a escrever A Destruição da Razão, importante obra na qual investiga as raízes históricas da tragédia alemã (do caminho prussiano ao nazismo), identificando a Alemanha como o “país clássico do irracionalismo” e criticando a postura da intelectualidade moderna (com destaque para Nietzsche), representante da decadência ideológica da burguesia na etapa imperialista, cujas características principais seriam o ataque ao materialismo dialético e a apologia ao capitalismo.
Deflagrado o processo de “desestalinização” no XX Congresso do PCUS, Lukács defende a democratização da Hungria, participa do renovado Comitê Central do PC húngaro e assume o cargo de Ministro da Educação e Cultura do governo de Nagy (1956). Mas se demite ao discordar da aproximação às potências ocidentais. As tropas do Pacto de Varsóvia intervêm, Lukács é deportado para a Romênia e, quando retorna a seu país, é expulso do PC. Na década de 1960, após a publicação de sua Estética, ambiciosa tentativa de constituir uma teoria marxista das manifestações artísticas, dedica-se à elaboração de uma Ética marxista, resultando, após estudos iniciais sobre os fundamentos dos valores inscritos na práxis humana, na redação da Ontologia do Ser Social, obra somente publicada na íntegra postumamente. De acordo com o próprio Lukács, em entrevista concedida a Leandro Konder e publicada no Jornal do Brasil em agosto de 1969:
“Devemos desenvolver uma ontologia marxista capaz de determinar mais concretamente a unidade do materialismo histórico e do materialismo dialético. À base de uma concepção que seja historicista sem cair no relativismo e que seja sistemática sem ser infiel à história. Enquanto não nos desincumbirmos dessa tarefa, os marxistas estaremos deficientemente preparados para enfrentar as tendências irracionalistas de tipo marcusiano, por exemplo, ou as posições racionalistas formais difundidas pelos neopositivistas e especialmente pelos estruturalistas. Aliás, o irracionalismo e o racionalismo formal podem ser rapidamente combinados, conforme as necessidades do combate movido pela ideologia burguesa contra a razão dialética”.
Segundo José Paulo Netto, uma das grandes contribuições teóricas de Lukács, nesta obra de maturidade intelectual, é denunciar o processo de manipulação social inerente ao capitalismo tardio e as novas formas de alienação daí decorrentes. A pesquisa ontológica busca examinar as relações entre necessidade/causalidade e liberdade/teleologia, partindo da premissa segundo a qual é o processo de trabalho que instaura a relação sujeito/objeto e constitui a base da construção dos projetos de transformação social e política. Por mais críticas que tivesse aos Estados socialistas de seu tempo, fortemente marcados por práticas antidemocráticas e burocratizantes, em entrevista do início de 1970, Lukács não deixava dúvidas a respeito de seu posicionamento político e ideológico, ao qual foi fiel em toda a vida: “O pior socialismo é preferível ao melhor capitalismo”.