Geopolítica e direitos humanos: do revisionismo histórico liberal ao universalismo imperial

Geopolítica e direitos humanos: do revisionismo histórico liberal ao universalismo imperial

Caio Andrade [1]

 

“Os povos modernos conseguiram apenas disfarçar a escravidão em seus próprios países, impondo-a sem véus no novo mundo” Karl Marx [2]

 

Falsa simetria e memória seletiva

Hoje é quase um lugar-comum reconhecer que os rumos tomados pela história nas três últimas décadas foram fortemente influenciados pela derrota da experiência soviética entre 1989 e 1991, quando se estabeleceram a economia de mercado e a visão ocidental de democracia como valores quase inquestionáveis. O que não é tão discutido é o quanto esse processo criou as condições para que o capital não apenas regesse o presente, mas também dominasse as interpretações do passado com vistas ao bloqueio do futuro.

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Tempos atrozes: a dominação de classes no Brasil

Marcos Corrêa/PR
Empresários saem de reunião com Bolsonaro e vão juntos ao STF

 

 

 

ESQUERDA ONLINE

Tempos atrozes (1): fios históricos da dominação de classes no Brasil e contradições

Este é um texto para debate e não possui o formato acadêmico, desprovido das clássicas notas de rodapé. Foi redigido às pressas, diferente do tempo da escrita refletida, em função de conversa com o grande amigo Roberto Leher. Resulta porém de muitos anos de pesquisa e de reflexão e se nutre da convivência com pesquisadores aguerridos do Grupo de Trabalho e Orientação-GTO. Está aberto à crítica e é mais permeável ao erro. Esse é o tempo em que vivemos, temos pressa.
Desde a década de 1990 – não por acaso coincidindo com a chamada redemocratização – o empresariado brasileiro começou um trabalho de ‘modernização’ de suas formas de atuação social e política, continuando sua ação já clássica, setorial, junto ao Estado brasileiro, mas ampliando o escopo de sua intervenção, através de APHEs (aparelhos privados de hegemonia empresariais) voltados para convencer e capturar segmentos das classes trabalhadoras. Tiveram a bênção externa, como da AMCHAM-Br (Câmara Americana de Comércio-Brasil). Contavam com a experiência anterior do Instituto de Pesquisas Sociais e do Instituto Brasileiro de Ação Democrática-IPES-IBAD, polos centrais do golpe empresarial-militar de 1964. Essa modernização pós-Constituinte apresentava-se como ‘democratizadora’ da vida social brasileira, pela dinamização da ‘sociedade civil’ que a mídia corporativa ecoava. Muitos integrantes das esquerdas, com baixos teores críticos e enorme fascínio pelo institucionalismo, simplesmente fecharam os olhos para o fato de que a sociedade civil é âmbito – e dos mais sérios – das lutas de classes e que, portanto, não está nem fora nem acima do mercado ou do Estado. Os críticos que desconfiavam das formulações midiáticas – e com razão – muitas vezes se barricaram atrás unicamente da análise de dados econômicos, recusando-se a analisar esse âmbito estranho e complexo. Perdiam de vista parcela fundamental da atividade das classes dominantes.

 

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O negro no mundo (intelectual) do branco

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Imagem a partir de arte de Emory Douglas para o Patrido dos Panteras Negras.

 

 

Breve nota sociológica.

O intelectual negro tende a sentir um profundo isolamento nos ambientes universitários e nos espaços intelectualizados porque não se reconhece nos seus pares, nos temas de pesquisa disponíveis nem na simbologia desses locais. É como se a dinâmica em funcionamento gritasse todos os dias que “este não é o seu lugar”.

Por Jones Manoel

Blog da Boitempo

“Eles querem que alguém
Que vem de onde nós vem
Seja mais humilde, baixe a cabeça
Nunca revide, finja que esqueceu a coisa toda
Eu quero é que eles se foda!”
– EMICIDA, “MANDUME”

Quando o assunto é racismo, é uma tendência de muito apelo midiático e político tratar da dimensão de inferiorização simbólica, estética e cultural do/a negro/a e da cultura afro e afro-brasileira. Muitas vezes (quiçá na maioria delas) o complexo integrado à dominação e exploração político-econômico-ideológica compreendido como racismo é reduzido a esse determinante do fenômeno, como se o combate à cultura racista a partir do “empoderamento do negro” fosse suficiente ou central no enfrentamento ao racismo. Na realidade, essa compreensão culturalista do racismo e do seu enfrentamento, secundarizando ou ignorando as relações de produção e as estruturas de poder, constitui um dos grandes problemas e fragilidades do combate antirracista na atualidade na medida em que reduz o potencial revolucionário da luta e tende a torná-la mais fácil de ser assimilada pela ordem dominante.

 

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Gramsci sobre o totalitarismo

 

 

 

 

Por Antonio Gramsci, traduzido por Carlos Nelson Coutinho et al.

Publicado por LAVRA PALAVRA

Nos excertos abaixo, apresentamos alguns dos juízos de Antonio Gramsci acerca do conceito de “totalitarismo” – um juízo muito distante das concepções liberais correntes, amplamente fundadas da pensadora Hannah Arendt.


Caderno 6, p. 253-254

§ 136. Organização das sociedades nacionais. Assinalei de outra feita que, numa determinada sociedade, ninguém é desorganizado e sem partido, desde que se entenda organização e partido num sentido amplo, e não formal. Nesta multiplicidade de sociedades particulares, de caráter duplo – natural e contratual ou voluntário –, uma ou mais prevalecem relativamente ou absolutamente, constituindo o aparelho hegemônico de um grupo social sobre o resto da população (ou sociedade civil), base do Estado compreendido estritamente como aparelho governamental-coercitivo.

Ocorre sempre que os indivíduos pertencem a mais de uma sociedade particular e muitas vezes a sociedades que estão essencialmente (objetivamente) em contraste entre si. Uma política totalitária tende precisamente: 1) a fazer com que os membros de um determinado partido encontrem neste único partido todas as satisfações que antes encontravam numa multiplicidade de organizações, isto é, a romper todos os fios que ligam estes membros a organismos culturais estranhos; 2) a destruir todas as outras organizações ou a incorporá-las num sistema cujo único regulador seja o partido. Isto ocorre: 1) quando um determinado partido é portador de uma nova cultura e se verifica uma fase progressista; 2) quando um determinado partido quer impedir que uma outra força, portadora de uma nova cultura, torne-se “totalitária”; verifica-se então uma fase objetivamente regressiva e reacionária, mesmo que a reação não se confesse como tal (como sempre sucede) e procure aparecer como portadora de uma nova cultura. […]”


 

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A Luta de Classes e a Escravidão Racial: A Invenção da Raça Branca

publicado originalmente no LAVRA PALAVRA

 

 

 

 

Por Theodore W. Allen, traduzido por Bruno Santana. Via Read Settlers

“A burguesia latifundiária anglo-americana do século XVII desenhou a linha de separação entre a liberdade e a escravidão, uma linha pautada na cor da pele que não existiu antes durante a lei Inglesa.”


No período que antecede a Guerra Civil, um dos argumentos correntes para a escravidão racial, era de que esta tornou possível um sistema de controle social praticamente hermético. A situação permeada de conflitos e ‘sistemas’ das sociedades assalariadas na Europa, surge em contraste com a longa tradição de paz social no Sul, onde, a despeito de ressentimentos internos, a vasta maioria dos brancos pobres se aliaria com os escravos em qualquer confronto entre a força de trabalho negra e a burguesia latifundiária[1].

As altas cortes da Carolina do Sul entenderam bem que “a paz social(…) requeria que escravos fossem sujeitos à autoridade e controle de todos os homens livres quando não à imediata autoridade de seus senhores”; ali onde “um escravo não pode conclamar a lei comum ou a Carta Magna”, a paz social depende na “subordinação da classe servil à toda pessoa branca livre.”[2]

Se o servo negro decidisse fugir, qualquer pessoa branca teria o direito legal, na verdade o dever, de capturar o fugitivo, e seria recompensada pela façanha. “Homens brancos pobres”, escreve um historiador, “habitualmente mantém seus olhos abertos com negros sem permissões formais, em razão da apreensão de um fugitivo ser um ganho financeiro inesperado”[3].

O Chanceler William Harper da Carolina do Sul tranquilizou com firmeza os que estavam apreensivos com a iminência de um episódio como o de Santo Domingo acontecer nos estados escravistas estadunidenses. “É quase impossível”, escreveu, “que haja em qualquer nível um conluio (insurrecional) entre os escravos”. A razão era simples: “Da parte dos homens livres, não haveria nenhum indivíduo tão pobre ou tão degradado (exceto por criminosos ou foras da lei aqui e ali) que não se atentariam ativamente para deter ou suprimir tais ações”[4]

“Não governamos [os estados livres] por escravos negros, mas por seus próprios escravos brancos. Sabemos o que estamos fazendo—os conquistamos uma vez e podemos conquistar novamente(…)”- John Randolh da Virginia, opondo-se ao Compromisso de Missouri, em 1820[5].

O sociólogo e dono de escravos pioneiro George Fitzhugh descreveu em termos ainda mais explícitos o papel dos brancos pobres na ordem social estabelecida por e para o latifúndio burguês. “Os pobres [brancos], ” disse, “constituem nossa milícia e nossa polícia. Eles protegem os homens em posse da propriedade, como há em outros países; e fazem mais, garantem nas mãos destes homens a posse de um tipo de propriedade que eles não poderiam sustentar por um dia, sem a supervisão e proteção destes homens pobres.”[6] Aqui Fitzhugh aperfeiçoou a definição de escravidão racial. Não é simplesmente que alguns brancos possuem escravos negros, mas que nenhum branco é possuído; não é simplesmente que brancos são por definição não-escravos, mas que os brancos pobres que não possuem escravos são por definição racial, detentores do trabalho negro.

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Panafricanismo e comunismo: conversa com Hakim Adi

A par da história dominante dos partidos comunistas europeus, centrada na classe operária metropolitana, é possível reconstituir a trajetória subterrânea destes militantes comunistas e panafricanos, minoritários nos seus partidos, mas ativamente apoiados por Moscovo no intervalo entre as duas guerras. Trata-se de uma época em que os jovens partidos comunistas são dominados por Brancos, metropolitanos, ou por colonos nas colónias. Para combater o oportunismo, o chauvinismo implícito ou explícito desses militantes, a Internacional comunista procedeu à estruturação de uma série de organizações transnacionais, encarregadas de coordenar a atividade revolucionária em torno da «questão negra»: África do Sul, colónias da África negra, segregação nos Estados Unidos, etc. Hakim Adi conta agora esta história inédita, a de um encontro original entre o comunismo, o nacionalismo negro e o panafricanismo.

 

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Contra o revisionismo histórico: o pacto de não agressão germano-soviético e a Segunda Guerra Mundial

por Jones Manoel

A verdade é que, se hoje o mundo não fala alemão e a escravidão racial aberta não campeia pelo mundo, se a barbárie colonialista sofreu duros golpes no século XX, devemos agradecer à União Soviética – seu povo, o Exército Vermelho, o Partido Comunista da URSS e seu líder máximo, Josef Stálin. É isso que a União Europeia quer ocultar, mas não vai conseguir.

 

Vyacheslav Molotov assina o pacto de não agressão germano-soviético em 23 de agosto de 1939.
Ao fundo e ao centro, Joachim von Ribbentrop e Josef Stálin.

 

Recentemente, no último dia 19 de setembro, a União Europeia aprovou um documento chamado “Sobre a importância da memória europeia para o futuro da Europa”. O escrito tem como objetivo indicar a história oficial da União Europeia (UE) e combater aqueles que supostamente solapam a democracia e o histórico de defesa dos direitos humanos do continente. Numa palavra, visam atacar de uma só vez a história do movimento comunista, a Rússia e a China.

Dentre os vários absurdos contidas no documento, a resolução defende que a UE nasceu da luta contra o “totalitarismo comunista” (stalinismo) e nazista e afirma categoricamente que a Segunda Guerra Mundial teria sido causada pelo Pacto de Não-Agressão Germano-Soviético, o famoso Pacto Molotov-Ribbentrop. Diz o documento:

“Salienta que a Segunda Guerra Mundial, a guerra mais devastadora da história europeia, foi o resultado imediato do infame Pacto de Não-Agressão Germano-Soviético de 23 de agosto de 1939, também conhecido como Pacto Molotov-Ribbentrop, e dos seus protocolos secretos, através dos quais dois regimes totalitários que partilhavam o objetivo da conquista do mundo dividiam a Europa em duas zonas de influência”.

Pedro Marin, em brilhante artigo, fez um mapeamento da institucionalização do anticomunismo nos diversos países da Europa e de outros continentes, inserindo a resolução da UE no seu contexto sociopolítico maior. Eu, considerando a existência do presente escrito, me coloco uma missão diferente: tentarei mostrar como é uma mentira grotesca essa noção de que foi o Pacto Molotov-Ribbentrop que causou a Segunda Guerra, procurando inserir esse acontecimento em seu devido contexto histórico, e debater os temas correlatos (como o uso do Pacto como uma suposta prova empírica da afinidade entre Hitler e Stálin, ambos dirigentes de regimes “totalitários”, como diria Hannah Arendt).

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Pinochet, o triunfo do fascismo de mercado e a admiração mútua com o general Franco


Alejandro Torrús
 – ODIARIO.INFO

Tal como sucede todos os anos em 11 de Setembro, os grandes media recordaram as Torres Gémeas de Nova Iorque e ignoraram o golpe fascista de 1973 no Chile. Há muitas razões de actualidade para não esquecer o fascismo chileno: a sua estreita articulação com a corrente neoliberal do capitalismo; o papel dos EUA no incentivo e preparação do golpe; o facto de este fascismo dos anos 70 se associar ao que ainda vinha da década de 30 (como o franquismo) e ser incensado por forças que integram, um pouco por toda a parte, o actual levantar da cabeça da extrema-direita.

Esta quarta-feira marca os 46 anos do golpe de Estado no Chile que derrubou Salvador Allende. O doutor em História Mario Amorós publica “Pinochet. Biografia militar y política”, uma obra que aspira a converter-se numa referência mundial para estudar a figura do ditador chileno desde o início da sua carreira no Exército até aos seus últimos dias de vida.

Era o 11 de Setembro de 1973. A República do Chile era a democracia mais avançada da América Latina, mas o contexto internacional era complicado. Muito complicado. Três anos antes, o candidato da Unidade Popular Salvador Allende havia-se imposto nas eleições presidenciais com a sua “via pacífica para o socialismo”. Mas os Estados Unidos tinham como muito claro que a Unidade Popular não podia triunfar. Tinha-o deixado muito claro o seu secretário de Estado, Kissinger, durante uma reunião do Conselho de Segurança Nacional realizada em 1970. “O sucesso de um governo marxista eleito pelo povo seria um claro exemplo (e até um precedente) para outras partes do mundo”. Ali mesmo, em 1970, começaram os ataques à economia chilena para a isolar, a enfraquecer e a desestabilizar até fazer do Chile um país ingovernável. Allende, porém, resistia.

A Unidade Popular permanecia no poder e mantinha o apoio social. Foi então, em 11 de Setembro, que se recorreu à violência. Às armas. Ao sangue. Quando o exército chileno conquistou o seu próprio país e Allende perdeu a vida encurralado no Palácio de la Moneda. “A história é nossa e fazem-na os povos”, lançou o socialista na sua última mensagem à nação chilena.

Nesse 11 de Setembro de 1973 consumou-se a infâmia. Um acto de guerra, como o bombardeamento do palácio de La Moneda, acabava com a democracia chilena. Os partidos políticos eram banidos, as liberdades e os direitos dos cidadãos eram suprimidos. Chegavam o exílio e a repressão sistemática. Acabavam também o controlo dos preços, a distribuição de leite nas escolas e a proteção laboral dos trabalhadores. O império do terror era imposto. No topo da ditadura brutal e como seu rosto visível foi-se impondo a figura de Augusto Pinochet, que havia sido o chefe máximo das Forças Armadas durante a presidência de Allende. Esse militar apresentava-se assim perante o mundo como um paradigma de ditador impiedoso e entronizado pela traição. Como escreveu o historiador Josep Fontana, Pinochet simbolizou como ninguém a imagem do fascismo na América Latina.

Agora, quando passam 46 anos sobre esse momento crucial, o Doutor em História da Universidade de Barcelona, Mario Amorós, publica Pinochet. Biografia militar y política (Edições B), a primeira biografia histórica do ditador documentada em arquivos e bibliotecas de quatro países diferentes, centenas de artigos e referências na imprensa, discursos, entrevistas, testemunhos e opiniões de familiares e colaboradores. Em suma, um trabalho de mais de 800 páginas que aspira a converter-se em referência mundial para tratar uma das figuras mais importantes do século XX: Augusto Pinochet.

Este livro chega, além disso, num momento novamente complicado. Líderes como Jair Bolsonaro, presidente do Brasil, manifestaram-se a favor de Pinochet e do seu golpe de Estado. Também seguidores de Donald Trump, que escolheram o seu nome para uma polémica T-shirt com o lema “Pinochet não fez nada de mal!” e em cujas costas se vê um helicóptero a atirar pessoas pelos ares. E até Vox, em Espanha, estabeleceu contacto com José Antonio Kast, líder da extrema-direita chilena. Assim, a vaga reaccionária que percorre o mundo trata de recuperar para si a figura de Pinochet. O golpe de Estado de 11 de Setembro não seria um acto de guerra, mas sim uma “intervenção” para salvar o Chile do comunismo. Pinochet não seria um ditador, mas um governante autoritário que, através da Constituição de 1980, se auto limitou. Em suma, Pinochet teria lançado as bases para um Chile moderno.

Talvez por isso, o trabalho de Amorós é agora mais imprescindível do que nunca. A História contra o esquecimento, contra a manipulação. “Pinochet simboliza a imagem do fascismo na América Latina. Mas neste caso não falamos do fascismo da Europa entre as guerras. Trata-se de um fascismo de mercado. O golpe no Chile foi o golpe de uma classe social, a burguesia, que se serviu da força do Exército para esmagar organizações de esquerda e implantar um modelo neoliberal de economia da forma mais brutal”, explica Amorós ao Público. O autor, de facto, descreve Pinochet como um “ditador impiedoso que demonstrou uma ambição insaciável de poder”. “E o seu instrumento foi o terror, pois não hesitou em desencadear a única guerra em que participou ao longo de sua vida: a guerra contra um povo desarmado”, escreve Amorós.

Assim, a repressão da ditadura chilena também serviu para converter o Chile no laboratório mundial do neoliberalismo. O ditador cedeu em 1975 o comando económico do país a um grupo de jovens profissionais formados na Universidade de Chicago e que aplicaram as receitas neoliberais de Milton Friedman e Arnold Harberger. Em suma, a ditadura chilena realizou uma contrarrevolução capitalista em toda a regra que desfez o processo de nacionalizações iniciado por Allende, devolveu aos seus proprietários originais as terras ocupadas pelos camponeses, liberalizou os preços, reduziu o gasto público em mais de 25 % e revogou leis que impediam os despedimentos de trabalhadores. Tudo isso foi recomendado pelos Chicago Boys e pelo plano elaborado por Friedman para o Chile. O plano teve como principal apoio a repressão e a violência.

“O ‘milagre chileno’ dos Chicago Boys, tão exaltado por certos sectores, supunha que, após a sua derrota no plebiscito de 1988, em 11 de Março de 1990 Pinochet entregasse um país que tinha 40% da sua população em situação de pobreza. absoluta. E seus efeitos fazem-se sentir até hoje com umas pensões miseráveis, uma assistência médica adequada apenas para aqueles que a podem pagar, o ensino superior mais caro da América Latina e uma fractura social das mais nítidas do mundo “, denuncia Amorós

Uma admiração mútua entre ditadores

O terror de Pinochet chegou a tal ponto que, segundo documento do Ministério dos Assuntos Exteriores, o embaixador espanhol no Chile, Enrique Pérez-Hernández, recomendou ao ditador chileno “moderação e clemência” e indicou que a repressão contra a esquerda estava a ser “muito dura”. Pinochet, segundo esta documentação, garantiu ao funcionário espanhol que tomaria cuidado, principalmente em casos concretos como o de Neruda. Outro documento da diplomacia espanhola fazia um balanço de como era a situação no Chile naqueles dias: “A situação está absolutamente controlada pela Junta de Governo; mas na ponta das baionetas e das metralhadoras”. “A repressão tem sido dura e continua a sê-lo. Alguém viu que nada menos de 200 mortos são levados todas as noites para o necrotério e inclusivamente o nosso embaixador viu-os durante o dia. O número de mortes calcula-se em cerca de 4.000, dos quais metade em combate e a outra metade fuzilados sem julgamento”, informava a diplomacia espanhola.

No entanto, embora a diplomacia tenha informado o regime franquista das graves violações de direitos humanos cometidas no Chile, o ditador espanhol correspondia-se com o chileno. Apenas um dia após o golpe de Estado no Chile, Pinochet enviava uma carta a Francisco Franco para comunicar a substituição do embaixador do Chile em Espanha e transmitir-lhe uma admiração que, segundo Amorós, era mútua: “Peço-lhe que aceite os votos sinceros que formulamos pelo o bem-estar de Vossa Excelência e pela grandeza da Espanha”. De facto, dois anos depois, em 18 de Setembro de 1975, apenas dois meses antes da morte de Franco, o chefe do Estado Maior do Exército Espanhol, tenente-general Emilio Villaescusa, entregava a Pinochet, em nome de Franco, a máxima distinção do Exército espanhol em tempos de paz, a Grande Cruz ao Mérito Militar.

A morte de Franco estava próxima, mas a correspondência entre os dois ainda não havia terminado. Em 27 de Setembro, Franco executaria os últimos cinco fuzilamentos da ditadura. Três membros da ETA e dois do FRAP seriam fuzilados após conselhos de guerra sem as menores garantias processuais. O mundo voltava as costas ao regime de Franco. Mas Pinochet aplaudia: “Estou certo de que desta dura prova emergirá uma Espanha ainda mais forte, unida e respeitada pela força das suas convicções e pelo ressurgimento de suas atitudes e guardo a esperança de que no futuro se valorizará melhor o esforço dos povos de carácter para forjar o seu próprio destino “.

Pinochet foi recebido em Espanha à porta do avião por Juan Carlos I. Abraçaram-se. A carta seria respondida pelo ditador espanhol nos seguintes termos: “Não podemos tolerar que a maquinação urdida por organizações inimigas da nossa pátria comprometa o normal desenvolvimento, em paz e prosperidade, do nosso povo e é dever do governante preservar a paz e segurança do seu país contra aqueles que subvertem a ordem pública comprometendo a estabilidade e o sossego da sociedade ”.

Esta foi a última comunicação estabelecida entre Franco e Pinochet. O espanhol morreria em 20 de Novembro daquele ano e o chileno acorreria a Espanha para o seu funeral. Chegou o dia 21. Sexta-feira. Ao pé do avião, recebia-o Juan Carlos, herdeiro do ditador. Abraçaram-se. “Nestes momentos em que Franco passou à história, é um Caudilho que nos mostrou o caminho a seguir na luta contra o comunismo”, declarou Pinochet depois de se reunir alguns minutos com aquele que pouco depois seria proclamado rei da Espanha.

Paralelismos entre as duas ditaduras

A admiração que Pinochet sentia pelo ditador Franco também ficou à vista naqueles dias em que o autoproclamado “caudilho” da Espanha era enterrado. O assessor do ditador chileno Federico Willoughby-MacDonald leu um comunicado em que estabelecia paralelismos com a ditadura espanhola: “A Espanha sofreu durante muito tempo tal como nós sofrermos a tentativa perversa do marxismo que semeia o ódio e pretende mudar os valores espirituais por um mundo materialista e ateu. A coragem e a fé que engrandeceram a Espanha inspiram também a nossa luta actual … “.

De facto, Pinochet seguiu uma estratégia semelhante à de Franco para justificar, ao longo dos anos, a sua participação no golpe de Estado. “Em Pinochet aprecia-se um providencialismo presente. Tal como Franco fez, justificou praticamente o golpe para salvar o Chile do comunismo. Apenas faltou apenas proclamar-se Caudillo do Chile pela graça de Deus”, diz Amorós.

As semelhanças são importantes. Pinochet, como Franco, não foi o instigador do golpe de Estado, mas juntou-se a ele à última da hora e foi inteligente o suficiente para impor seu poder aos demais militares golpistas. Pinochet, como Franco, justificou o seu golpe de Estado como um “dever patriótico” de salvar o Chile das garras do comunismo e face ao risco de “quebrar a unidade nacional”. Os golpistas chilenos, como os espanhóis, contactaram uma potência estrangeira (Brasil) para dispor de armas de guerra caso o golpe de Estado de 11 de Setembro fracassasse e se chegasse a uma Guerra Civil, como em Espanha. E Pinochet, como Franco, esforçou-se muito para manter uma propaganda que o situasse como uma espécie de enviado de Deus para salvar o seu país.

“Co toda a razão, o fascismo espanhol considerava Pinochet como um dos seus”, escreve Amorós
De facto, o mesmo ditador chileno confessou ao presidente do Cabildo da Gran Canaria, Lorenzo Olarte, em 24 de Novembro de 1975, na sua escala de regresso ao Chile, que gostaria que fosse construído no seu país “um Vale dos Caídos” que o recordasse para a posteridade, como escreveu o jornalista Fernando Olmeda na obra El Valle de los Caídos. Una memoria de España.. E assim, como relata Amorós, o fascismo espanhol considerou Pinochet como “um dos seus”. A admiração comprovou-se nas Cortes durante a cerimônia de juramento e proclamação de Juan Carlos de Borbón como rei da Espanha. O ditador chileno foi aclamado pelo público estacionado na rua tal como quando se sentou no Congresso: “Particularmente, os militantes de Falange vitoriaram-no e lançaram sobre ele as suas boinas vermelhas. Com toda a razão, o fascismo espanhol contava-o como um dos seus.” .

No entanto, o ditador chileno não teve o seu Vale dos Caídos. As suas cinzas permanecem enterradas numa capela de um terreno particular da família Pinochet em Los Boldos, na costa central do Chile, sob uma lápide de mármore. Entretanto, em Espanha, Franco continua no Vale dos Caídos e o Supremo Tribunal tornará público em 24 de Setembro se permite ou não a exumação de Franco.

Fonte:https://www.publico.es/politica/pinochet-triunfo-fascismo-mercado-admiracion-mutua-general-franco.html

Notas sobre conservadorismo e pensamento político de direita

Comissão Nacional de Formação Política do PCB – Partido Comunista Brasileiro

a) Relação do tema com a atualidade da crise do capital

Não é por mera coincidência que a ascensão mundial das direitas tenha ganhado impulso a partir do final da década passada, se tornando cada vez mais forte nos primeiros anos da atual. É no ano de 2008 que vêm à superfície os efeitos devastadores dessa que tem sido classificada como a mais aguda crise do capitalismo desde o Crash da bolsa de 1929, e a subsequente Grande Depressão dos anos 1930. O recurso à memória ajuda a esclarecer a relação entre tais fenômenos –  crise econômica e recrudescimento autoritário – pois a história testemunha a escalada fascista e o conflito imperialista como desfecho do abalo de 90 anos atrás. Se por um lado há uma inegável diferença de estágios de amadurecimento do sistema que entra em crise, por outro permanecem similaridades estruturais que iluminam as bases materiais dessa ofensiva conservadora atual.

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