O negro no mundo (intelectual) do branco

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Imagem a partir de arte de Emory Douglas para o Patrido dos Panteras Negras.

 

 

Breve nota sociológica.

O intelectual negro tende a sentir um profundo isolamento nos ambientes universitários e nos espaços intelectualizados porque não se reconhece nos seus pares, nos temas de pesquisa disponíveis nem na simbologia desses locais. É como se a dinâmica em funcionamento gritasse todos os dias que “este não é o seu lugar”.

Por Jones Manoel

Blog da Boitempo

“Eles querem que alguém
Que vem de onde nós vem
Seja mais humilde, baixe a cabeça
Nunca revide, finja que esqueceu a coisa toda
Eu quero é que eles se foda!”
– EMICIDA, “MANDUME”

Quando o assunto é racismo, é uma tendência de muito apelo midiático e político tratar da dimensão de inferiorização simbólica, estética e cultural do/a negro/a e da cultura afro e afro-brasileira. Muitas vezes (quiçá na maioria delas) o complexo integrado à dominação e exploração político-econômico-ideológica compreendido como racismo é reduzido a esse determinante do fenômeno, como se o combate à cultura racista a partir do “empoderamento do negro” fosse suficiente ou central no enfrentamento ao racismo. Na realidade, essa compreensão culturalista do racismo e do seu enfrentamento, secundarizando ou ignorando as relações de produção e as estruturas de poder, constitui um dos grandes problemas e fragilidades do combate antirracista na atualidade na medida em que reduz o potencial revolucionário da luta e tende a torná-la mais fácil de ser assimilada pela ordem dominante.

 

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Avelãs Nunes e a história da Economia Política

 

 

Por José Paulo Netto.

O chamado Prêmio Nobel, instituído em 1895 e concedido a partir de 1901, só passou a ser atribuído a especialistas da área da Economia em 1969 – e, neste ano, os primeiros agraciados, dividindo a láurea, foram o norueguês Ragnar Frisch (1895-1973) e o holandês Jan Tinbergen (1903-1994). Este último, figura ilustre e consagrada, nos dois anos seguintes meteu-se numa polêmica com um então pouco conhecido advogado português, que criticara as suas ideias. Nome do jovem intelectual que ousou questionar o eminente premiado: António José Avelãs Nunes, nascido na pequena Pinhel, em dezembro de 1939.

Três décadas mais tarde, amadurecido e no topo de brilhante carreira universitária – que, antes do 25 de Abril, a PIDE salazarista tentara impedir –, Avelãs Nunes, já pesquisador consagrado, ocupava a Vice-Reitoria da Universidade de Coimbra, cargo que exerceu de 2003 a 2009, quando se aposentou como Professor Catedrático, que o era desde 1995. Da sua estatura intelectual e da relevância da sua intervenção acadêmica, com ressonância para além das fronteiras portuguesas, dão provas inequívocas a notável homenagem prestada pela sóbria Universidade de Coimbra ao seu professor da Faculdade de Direito – dedicando-lhe os três tomos (3.461 páginas) do volume LVII do cinqüentenário Boletim de Ciências Econômicas, editados por ela em 2014.

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Gramsci sobre o totalitarismo

 

 

 

 

Por Antonio Gramsci, traduzido por Carlos Nelson Coutinho et al.

Publicado por LAVRA PALAVRA

Nos excertos abaixo, apresentamos alguns dos juízos de Antonio Gramsci acerca do conceito de “totalitarismo” – um juízo muito distante das concepções liberais correntes, amplamente fundadas da pensadora Hannah Arendt.


Caderno 6, p. 253-254

§ 136. Organização das sociedades nacionais. Assinalei de outra feita que, numa determinada sociedade, ninguém é desorganizado e sem partido, desde que se entenda organização e partido num sentido amplo, e não formal. Nesta multiplicidade de sociedades particulares, de caráter duplo – natural e contratual ou voluntário –, uma ou mais prevalecem relativamente ou absolutamente, constituindo o aparelho hegemônico de um grupo social sobre o resto da população (ou sociedade civil), base do Estado compreendido estritamente como aparelho governamental-coercitivo.

Ocorre sempre que os indivíduos pertencem a mais de uma sociedade particular e muitas vezes a sociedades que estão essencialmente (objetivamente) em contraste entre si. Uma política totalitária tende precisamente: 1) a fazer com que os membros de um determinado partido encontrem neste único partido todas as satisfações que antes encontravam numa multiplicidade de organizações, isto é, a romper todos os fios que ligam estes membros a organismos culturais estranhos; 2) a destruir todas as outras organizações ou a incorporá-las num sistema cujo único regulador seja o partido. Isto ocorre: 1) quando um determinado partido é portador de uma nova cultura e se verifica uma fase progressista; 2) quando um determinado partido quer impedir que uma outra força, portadora de uma nova cultura, torne-se “totalitária”; verifica-se então uma fase objetivamente regressiva e reacionária, mesmo que a reação não se confesse como tal (como sempre sucede) e procure aparecer como portadora de uma nova cultura. […]”


 

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A Luta de Classes e a Escravidão Racial: A Invenção da Raça Branca

publicado originalmente no LAVRA PALAVRA

 

 

 

 

Por Theodore W. Allen, traduzido por Bruno Santana. Via Read Settlers

“A burguesia latifundiária anglo-americana do século XVII desenhou a linha de separação entre a liberdade e a escravidão, uma linha pautada na cor da pele que não existiu antes durante a lei Inglesa.”


No período que antecede a Guerra Civil, um dos argumentos correntes para a escravidão racial, era de que esta tornou possível um sistema de controle social praticamente hermético. A situação permeada de conflitos e ‘sistemas’ das sociedades assalariadas na Europa, surge em contraste com a longa tradição de paz social no Sul, onde, a despeito de ressentimentos internos, a vasta maioria dos brancos pobres se aliaria com os escravos em qualquer confronto entre a força de trabalho negra e a burguesia latifundiária[1].

As altas cortes da Carolina do Sul entenderam bem que “a paz social(…) requeria que escravos fossem sujeitos à autoridade e controle de todos os homens livres quando não à imediata autoridade de seus senhores”; ali onde “um escravo não pode conclamar a lei comum ou a Carta Magna”, a paz social depende na “subordinação da classe servil à toda pessoa branca livre.”[2]

Se o servo negro decidisse fugir, qualquer pessoa branca teria o direito legal, na verdade o dever, de capturar o fugitivo, e seria recompensada pela façanha. “Homens brancos pobres”, escreve um historiador, “habitualmente mantém seus olhos abertos com negros sem permissões formais, em razão da apreensão de um fugitivo ser um ganho financeiro inesperado”[3].

O Chanceler William Harper da Carolina do Sul tranquilizou com firmeza os que estavam apreensivos com a iminência de um episódio como o de Santo Domingo acontecer nos estados escravistas estadunidenses. “É quase impossível”, escreveu, “que haja em qualquer nível um conluio (insurrecional) entre os escravos”. A razão era simples: “Da parte dos homens livres, não haveria nenhum indivíduo tão pobre ou tão degradado (exceto por criminosos ou foras da lei aqui e ali) que não se atentariam ativamente para deter ou suprimir tais ações”[4]

“Não governamos [os estados livres] por escravos negros, mas por seus próprios escravos brancos. Sabemos o que estamos fazendo—os conquistamos uma vez e podemos conquistar novamente(…)”- John Randolh da Virginia, opondo-se ao Compromisso de Missouri, em 1820[5].

O sociólogo e dono de escravos pioneiro George Fitzhugh descreveu em termos ainda mais explícitos o papel dos brancos pobres na ordem social estabelecida por e para o latifúndio burguês. “Os pobres [brancos], ” disse, “constituem nossa milícia e nossa polícia. Eles protegem os homens em posse da propriedade, como há em outros países; e fazem mais, garantem nas mãos destes homens a posse de um tipo de propriedade que eles não poderiam sustentar por um dia, sem a supervisão e proteção destes homens pobres.”[6] Aqui Fitzhugh aperfeiçoou a definição de escravidão racial. Não é simplesmente que alguns brancos possuem escravos negros, mas que nenhum branco é possuído; não é simplesmente que brancos são por definição não-escravos, mas que os brancos pobres que não possuem escravos são por definição racial, detentores do trabalho negro.

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O socialista que ajudou a derrotar o colonialismo português

Amilcar Cabral, Fevereiro de 1964. Wikimedia

PUBLICADO ORIGINALMENTE EM REVISTA JACOBIN

Uma entrevista com
Peter Karibe Mendy

Tradução
Gabriel Landi Fazzio

Antes de seu assassinato em 1973, Amílcar Cabral era um dos principais anticolonialistas da África – um brilhante engenheiro agrônomo e socialista cuja liderança na luta armada contra o domínio português pôs o império de joelhos.

Nascido em 1912, Amílcar Lopes da Costa Cabral era um prolífico teórico marxista que não apenas liderou a guerra de independência que derrubou o domínio português na Guiné-Bissau e em Cabo Verde, mas influenciou a luta pela descolonização em todo o continente.

 

A primeira batalha – uma guerra de libertação de treze anos que ficou conhecida como “Vietnã de Portugal” – mobilizou dez mil membros do Partido Africano de Cabral pela Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) contra 35 mil tropas oficais e mercenários portugueses.Durante décadas, os portugueses sustentaram um regime colonial profundamente explorador e profundamente repressivo. Então, em 3 de agosto de 1959, as autoridades coloniais mataram cinquenta estivadores que estavam sob a liderança do PAIGC. O massacre convenceu muitos no movimento de libertação de que um caminho pacífico para a independência nacional era impossível. Eles teriam que pegar em armas.

Engenheiro agrônomo por formação, Cabral era um pan-africanista e socialista comprometido – defendendo a independência de todas as colônias africanas de Portugal, enquanto também trabalhava para criar um bloco socialista unificando Guiné-Bissau e Cabo Verde. Nas áreas liberadas durante a guerra, Cabral começou a construir uma economia quase social-democrática que apresentava planejamento estatal, empresas estatais, cooperativas e pequenas empresas privadas. Ainda que Cabral não tenha vivido para ver uma Guiné-Bissau e Cabo Verde livres – ele foi morto em 20 de janeiro de 1973, provavelmente por um assassino apoiado por Portugal – a luta de libertação que ele liderou ajudou a desencadear a queda da ditadura fascista de Portugal e seu império colonial.

Na sua nova biografia, “Amílcar Cabral: um revolucionário nacionalista e pan-africanista”, o estudioso da Guiné-Bissau Peter Karibe Mendy fornece uma introdução acessível à vida de um dos pensadores e estadistas mais originais da África. Sa’eed Husaini conversou recentemente com Mendy sobre o trabalho de Cabral como engenheiro agrônomo, suas opiniões sobre economia e luta armada – e que conselho ele daria para as lutas democráticas de hoje.

 

SH

Por que você decidiu escrever uma nova biografia de Amílcar Cabral?

PKM

Desde tenra idade, tive consciência da importância de Cabral nas lutas de libertação armada dos povos da Guiné-Bissau (então chamada Guiné Portuguesa) e Cabo Verde. Cresci ouvindo e lendo muito sobre a guerra sangrenta contra os colonizadores portugueses. A liderança efetiva de Cabral desempenhou um papel central no resultado, que culminou não apenas na independência das duas nações da África Ocidental anteriormente governadas em Lisboa, mas também serviu como um catalisador vital para a queda de quase meio século da ditadura fascista em Portugal e para o colapso do império português na África.

Embora tenha sido escrito muito sobre Cabral nas últimas quatro décadas, suas realizações notáveis permaneceram confinadas a um pequeno grupo de estudiosos africanistas e leitores em geral. No contexto do triunfalismo neoliberal, as qualidades visionárias de liderança e ideias progressistas de Cabral permaneceram amplamente desconhecidas no mundo em geral, e na pós-independência da África em particular, enquanto na Guiné-Bissau e Cabo Verde, esse conhecimento diminuiu significativamente.

Daí minha forte motivação para escrever a biografia.

SH

Seu livro documenta a notável jornada de Cabral, de estudante de agronomia a líder de um movimento de libertação bem-sucedido – e também a um dos principais teóricos sociais de sua geração. Que aspectos da formação inicial de Cabral o colocaram nesse caminho de vida?

PKM

Cabral era de origem humilde, crescendo em um ambiente colonial caracterizado por exploração e opressão brutais. Sofreu dificuldades e testemunhou em primeira mão “o povo morrendo açoitado” em sua terra natal (Guiné Portuguesa) e “o povo morrendo de fome” em sua terra natal ancestral (Cabo Verde).

Como estudante universitário em Portugal e como engenheiro agrônomo treinado, ele experimentou o racismo – que ele considerou “repugnante” em sua manifestação colonial no caso de Angola, onde trabalhou como jovem agrônomo africano.

SH

 

É correto dizer que Cabral encontrou pela primeira vez idéias revolucionárias em forma cultural e literária?

PKM

O encontro de Cabral durante o colegial com o movimento literário Claridade – que teve como objetivo definir e afirmar a identidade crioula específica do povo de Cabo Verde – o motivou a escrever poemas e prosa. Enquanto os poemas e a prosa da época se concentravam nas crises existenciais geradas pelo drama recorrente da seca, fome, pobreza, insularidade e emigração, os poemas e contos de Cabral, bem como sua crítica à literatura nativista emergente, enfatizavam a necessidade transcender a desesperança e o escapismo e se envolver em profundas mudanças.

Cabral argumentou que a utilização da cultura como arma era imperativa porque o domínio colonial implicava opressão cultural. A libertação nacional, concluiu, “é necessariamente um ato de cultura”.

SH

Como o livro documenta, Cabral estava entre um grupo de estudantes africanos que estudavam na Europa na década de 1940, que se sentiram atraídos pelo socialismo e até se juntaram a partidos políticos socialistas e comunistas europeus. O que atraiu estudantes africanos “culturalmente liberados” em Portugal para lutar contra o fascismo português?

PKM

O envolvimento de Amílcar Cabral e de seus colegas estudantes africanos na luta contra o fascismo português precedeu e, em certa medida, paralelizou o processo de “re-africanização do espírito” que experimentaram ou o “retorno às raízes” que empreenderam. Como assimilados (africanos colonizados considerados suficientemente “civilizados” para serem “assimilados” na sociedade portuguesa), eles tinham os mesmos direitos e obrigações legais que os cidadãos de Portugal.

No entanto, apesar do status de cidadãos portugueses, alguns dos estudantes africanos, como Cabral, já estavam conscientes da dura ordem colonial estabelecida em seus países e mantida firmemente pela ditadura fascista em Lisboa chamada Estado Novo. Esses estudantes se identificaram e se envolveram em atividades antifascistas como “patriotas”, mas foram particularmente atraídos pelos socialistas e comunistas portugueses que tinham mensagens de igualdade e justiça social. Seu engajamento ativo nas atividades clandestinas contra o regime permitiu que alguns deles – como Cabral, Agostinho Neto e Mario de Andrade, de Angola, e Marcelino dos Santos, de Moçambique – tivessem acesso à literatura fornecida pelo Partido Comunista Português.

SH

Após seus estudos, Cabral retornou à África na década de 1950 para realizar uma pesquisa agrícola em nome do estado colonial português. No entanto, ao realizar essa pesquisa, Cabral tomou consciência das maneiras pelas quais a economia colonial estava afetando o solo, o meio ambiente e os meios de subsistência dos agricultores africanos. Como o colonialismo desestruturou os meios de subsistência dos camponeses?

PKM

Como engenheiro agrônomo, Cabral estava bem ciente do impacto negativo do colonialismo para a terra e o meio ambiente. Ele estudou e relatou a degradação ambiental e, principalmente, a erosão do solo resultante do intenso cultivo de produtos de exportação em Cabo Verde, Guiné Portuguesa e Angola – impactos que afetaram adversamente a vida e os meios de subsistência das populações colonizadas.

A economia colonial da Guiné Portuguesa era basicamente uma economia agrária camponesa que produzia mercadorias como amendoim, arroz, sementes de palmeira e borracha para exportação. O censo agrícola de referência realizado por Cabral em 1953 mostrou que essas mercadorias de exportação eram cultivadas e reunidas sem a introdução de tecnologia avançada, sem deslocamentos fundamentais das instituições tradicionais, sem desapropriação significativa da terra e sem grandes deslocamentos populacionais.

No entanto, os meios de subsistência dos camponeses foram desestruturados pela obrigação de pagar impostos coloniais em dinheiro, o que exigia o envolvimento em uma economia de exportação e colocava em risco a segurança alimentar. Embora o arroz fosse (e continue sendo) a cultura básica mais importante, também era um dos principais produtos de exportação. A exportação de arroz causou escassez em algumas partes da colônia. Cabral destacou a importância do cultivo de arroz para a segurança alimentar da população indígena e alertou sobre a produção de amendoim que causou degradação do solo e prejudicou a agricultura tradicional.

SH

Mais radicalizado pelo encontro com as realidades da vida camponesa na Guiné Portuguesa e pela observação da violência do estado colonial, Cabral desistiu de seu trabalho como engenheiro agrônomo em 1960 para se tornar estrategista político e teórico do movimento de libertação em tempo integral. Como era Cabral no campo da política e quando, para ele, a violência se tornou necessária?

PKM

A firme aversão de Cabral ao que ele chamou de “violência gratuita” está bem documentada. Ele condenou veementemente os massacres portugueses em São Tomé e Príncipe em fevereiro de 1953, Moçambique em junho de 1955 e dezembro de 1972, na Guiné Portuguesa em agosto de 1959 e Angola em fevereiro e março de 1961.

Ele era a favor do diálogo, mas os portugueses eram intransigentes. O uso da violência foi uma medida de último recurso e a violência usada foi seletiva para evitar ou minimizar os danos colaterais.

Cabral não era um soldado treinado e nem frequentou uma academia militar. Mas ele tinha uma mente afiada que abordava a resolução de problemas com análise crítica e profunda reflexão sobre cenários construídos e possíveis resultados. Ele era um pensador estratégico e um diplomata muito articulado e habilidoso que apresentava argumentos convincentes pela causa da libertação nacional.

Desde sua decisão de dedicar sua vida à luta pela libertação até sua morte prematura, Cabral sacrificou sua posição relativamente privilegiada na metrópole e na sociedade colonial portuguesa como um agrônomo “civilizado”, “assimilado”, formado na universidade, em favor da identificação com seus companheiros colonizados, oprimidos e explorados. Isso foi consistente com sua noção de “suicídio de classe”.

SH

Certo, no livro você explica: “Reconhecendo o papel de liderança da pequena burguesia nacionalista na luta armada, Cabral enfatizou a necessidade de ‘cometer suicídio como classe’ e ‘renascer como trabalhadores revolucionários’ para evitar o ‘traição aos objetivos da libertação nacional’ e impedir a transição do colonialismo para o neocolonialismo.” É correto dizer que Cabral ajudou a desencadear a queda do Estado Novo em Portugal?

PKM

As ideias revolucionárias de Cabral e a sua conduta na luta pela libertação armada influenciaram alguns dos soldados portugueses que lutavam contra seu exército. O “movimento dos capitães” que mais tarde se tornou o Movimento das Forças Armadas (MFA) nasceu em Bissau em agosto de 1973 e foi liderado por oficiais juniores fatigados pela guerra que admiravam Cabral e aceitavam a ideia radical de que o colonialismo português na África deveria acabar.

O MFA realizou um golpe de estado em 25 de abril de 1974, que derrubou a ditadura do Estado Novo, de 48 anos, restaurou a democracia liberal em Portugal e facilitou o desmantelamento do império português na África.

SH

Você salienta que as áreas que foram liberadas sob o PAIGC de Cabral durante a luta de libertação tiveram ganhos econômicos marcantes. No entanto, muitos desses ganhos foram perdidos nos anos seguintes à sua morte. Por quê?

PKM

Nas áreas da Guiné Portuguesa liberadas pelo PAIGC, surgiu um sistema de Lojas Populares em resposta ao desejo de Cabral de “destruir a economia do inimigo e construir a nossa”. A economia agrícola camponesa foi reorganizada para beneficiar as necessidades básicas dos moradores, com as Lojas do Povo servindo como pontos de venda para produtos excedentes que eram trocados por mercadorias importadas.

Como engenheiro agrônomo, Cabral sabia que o destino de sociedades agrárias como seu país estava muito ligado ao desenvolvimento da agricultura e que, para que a produção agrícola aumentasse ou se sustentasse em alto nível, produtores e agricultores rurais precisariam ser incentivados com preços atraentes. Sua estratégia de desenvolvimento econômico enfatizava a agricultura como a base da economia da nação independente emergente e baseava nela o desenvolvimento e a industrialização nacionais. A estratégia implicava significativa intervenção estatal.

No entanto, durante a primeira década de independência, em seu esforço para consolidar a soberania sobre a economia nacional, o partido governante do PAIGC implementou um plano de desenvolvimento urbano que reforçava as disparidades rural-urbanas. Com um sistema de preços desincentivador e infraestrutura de transporte precária, a produção agrícola diminuiu.

A crise econômica resultante obrigou o partido no poder a abandonar a estratégia de Cabral e adotar reformas econômicas liberais, incluindo programas de ajuste estrutural aconselhados e amplamente financiados pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e pelo Banco Mundial. Os esforços para reestruturar a economia da Guiné-Bissau em favor da “economia de mercado livre” tiveram pouco impacto na profunda crise do desenvolvimento, caracterizada pela deterioração da infraestrutura física e social.

SH

A teoria revolucionária de Cabral visava desmantelar o colonialismo e a ditadura. O que Cabral diria hoje aos cidadãos das democracias emergentes nominalmente independentes da África?

PKM

A teoria revolucionária de Cabral visava acabar com a dominação colonial, mas ele acreditava que esse objetivo só alcançaria a “independência da bandeira”. Ele fez uma distinção entre a luta pela independência que termina na dependência neocolonial e a luta de libertação nacional que envolve descolonização mental e profundas transformações socioeconômicas que impactassem favoravelmente a vida das pessoas.

A mensagem de Cabral aos cidadãos das democracias iliberais da África contemporânea seria: A luta continua.

SH

O que ele poderia dizer aos cidadãos das democracias ocidentais hoje, enquanto lutam contra a possibilidade de recessão democrática?

PKM

Dados os paradoxos e contradições prevalecentes nas democracias ocidentais, Cabral pode se sentir justificado por seu conceito de “democracia revolucionária” – que enfatiza a participação popular em decisões que afetam vidas e meios de subsistência, controle popular sobre instituições estatais, empoderamento por meio de educação e treinamento, e o estabelecimento de uma economia eficiente para satisfazer necessidades e aspirações fundamentais.

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Quem é a classe trabalhadora brasileira?

A construção da ideia de mercado de trabalho no Brasil ainda se afirma como um instrumento de classe da ordem do capital que tergiversa sobre a exata definição da classe trabalhadora brasileira.

 

 

“Woman Washing Clothes”, de Charles Alston. Imagem extraída da capa do livro A classe trabalhadora, de Marcelo Badaró Mattos (Boitempo, 2019)

 

Por Sofia Manzano.

Um dos maiores problemas para a compreensão da realidade é a propositada confusão entre termos e conceitos presentes, não só nos meios de comunicação, mas também em trabalhos acadêmicos e científicos. Assim, dados que aparecem na mídia sobre emprego, desemprego, classe trabalhadora etc., por mais que correspondam às pesquisas dos institutos como IBGE e DIEESE, carecem de análise cuidadosa para se chegar mais próximo do que realmente ocorre com a população brasileira, principalmente a parcela dessa população que é a responsável pela produção da riqueza, ou seja, a classe trabalhadora.

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Panafricanismo e comunismo: conversa com Hakim Adi

A par da história dominante dos partidos comunistas europeus, centrada na classe operária metropolitana, é possível reconstituir a trajetória subterrânea destes militantes comunistas e panafricanos, minoritários nos seus partidos, mas ativamente apoiados por Moscovo no intervalo entre as duas guerras. Trata-se de uma época em que os jovens partidos comunistas são dominados por Brancos, metropolitanos, ou por colonos nas colónias. Para combater o oportunismo, o chauvinismo implícito ou explícito desses militantes, a Internacional comunista procedeu à estruturação de uma série de organizações transnacionais, encarregadas de coordenar a atividade revolucionária em torno da «questão negra»: África do Sul, colónias da África negra, segregação nos Estados Unidos, etc. Hakim Adi conta agora esta história inédita, a de um encontro original entre o comunismo, o nacionalismo negro e o panafricanismo.

 

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Contra o revisionismo histórico: o pacto de não agressão germano-soviético e a Segunda Guerra Mundial

por Jones Manoel

A verdade é que, se hoje o mundo não fala alemão e a escravidão racial aberta não campeia pelo mundo, se a barbárie colonialista sofreu duros golpes no século XX, devemos agradecer à União Soviética – seu povo, o Exército Vermelho, o Partido Comunista da URSS e seu líder máximo, Josef Stálin. É isso que a União Europeia quer ocultar, mas não vai conseguir.

 

Vyacheslav Molotov assina o pacto de não agressão germano-soviético em 23 de agosto de 1939.
Ao fundo e ao centro, Joachim von Ribbentrop e Josef Stálin.

 

Recentemente, no último dia 19 de setembro, a União Europeia aprovou um documento chamado “Sobre a importância da memória europeia para o futuro da Europa”. O escrito tem como objetivo indicar a história oficial da União Europeia (UE) e combater aqueles que supostamente solapam a democracia e o histórico de defesa dos direitos humanos do continente. Numa palavra, visam atacar de uma só vez a história do movimento comunista, a Rússia e a China.

Dentre os vários absurdos contidas no documento, a resolução defende que a UE nasceu da luta contra o “totalitarismo comunista” (stalinismo) e nazista e afirma categoricamente que a Segunda Guerra Mundial teria sido causada pelo Pacto de Não-Agressão Germano-Soviético, o famoso Pacto Molotov-Ribbentrop. Diz o documento:

“Salienta que a Segunda Guerra Mundial, a guerra mais devastadora da história europeia, foi o resultado imediato do infame Pacto de Não-Agressão Germano-Soviético de 23 de agosto de 1939, também conhecido como Pacto Molotov-Ribbentrop, e dos seus protocolos secretos, através dos quais dois regimes totalitários que partilhavam o objetivo da conquista do mundo dividiam a Europa em duas zonas de influência”.

Pedro Marin, em brilhante artigo, fez um mapeamento da institucionalização do anticomunismo nos diversos países da Europa e de outros continentes, inserindo a resolução da UE no seu contexto sociopolítico maior. Eu, considerando a existência do presente escrito, me coloco uma missão diferente: tentarei mostrar como é uma mentira grotesca essa noção de que foi o Pacto Molotov-Ribbentrop que causou a Segunda Guerra, procurando inserir esse acontecimento em seu devido contexto histórico, e debater os temas correlatos (como o uso do Pacto como uma suposta prova empírica da afinidade entre Hitler e Stálin, ambos dirigentes de regimes “totalitários”, como diria Hannah Arendt).

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SIMPÓSIO: 100 ANOS DA INTERNACIONAL COMUNISTA (1919-2019)

Departamento de História (FFLCH) da Universidade de São Paulo – 16 a 18 de outubro de 2019

Programação

Quarta-Feira 16 de outubro

9:00 (AH):  INTERNACIONAL SOCIALISTA, REVOLUÇÃO RUSSA E TERCEIRA INTERNACIONAL: Osvaldo Coggiola – Debatedor: Rodrigo Ricupero

9:00 (AG): O PARTIDO COMUNISTA NA HISTÓRIA DO BRASIL: José Salles – Augusto Bonicuore – Sofia Manzano – Lucca Maldonado – Frederico Falcão

9:00 (ANS): OS ARQUIVOS E O ESTUDO DA INTERNACIONAL COMUNISTA: Bernhard Bayerlein – Debatedor: Daniel Gaido

9:00 (AMS): INTERNACIONAL COMUNISTA E REVOLUÇÃO LATINO-AMERICANA: Deni Rubbo – Yuri Martins Fontes – Claudia Romero – Mariano Schlez

14:00 (AH): O ANARQUISMO E A INTERNACIONAL COMUNISTA: Ricardo Rugai – Acácio Augusto – Marly Viana – Felipe Correa – Elvio Rodrigues Martins

14:00 (AG): COMUNISMO E INTELECTUALIDADE BRASILEIRA: Francisco Alambert – Marcelo Ridenti – Paulo Barsotti – Marcos Antonio Silva – Pedro Pomar

14:00 (ANS): AS EDITORAS DA INTERNACIONAL COMUNISTA: Dainis Karepovs – Marisa Midori – Lincoln Secco – Flamarion Maués – Felipe Lacerda

14:00 (AMS): A INTERNACIONAL COMUNISTA E A CHINA: José Rodrigues Mao Jr – Andrea Longobardi – Aldo Sauda – Francisco Prandi

14:00 (CAPH): A EDUCAÇÃO NA INTERNACIONAL COMUNISTA: Carlos Bauer – Debatedores: Cássio Diniz – Ítalo de Aquino

17:30 (AH): A INTERNACIONAL COMUNISTA E OS PAÍSES ÁRABES: Soraya Misleh – Debatedor: Reginaldo Nasser

17:30 (AG): GRAMSCI, O PC ITALIANO E A INTERNACIONAL COMUNISTA: Deise Rosalio – Bernardo Ricupero – Alvaro Bianchi – Lincoln Secco

17:30 (ANS): A INTERNACIONAL COMUNISTA E A QUESTÃO NEGRA: Wilson H. Da Silva – Eduardo Januário – Gisele Sifroni – Geferson Santana

17:30 (AMS): LUIS EMILIO RECABARREN E O PARTIDO COMUNISTA CHILENO: Horacio Gutiérrez – Debatedora: Gabriela Pellegrino

19:30 (AH): A INTERNACIONAL COMUNISTA ENTRE LÊNIN E STALIN: Bernhard Bayerlein – Debatedor: Osvaldo Coggiola

19:30 (AG): HUNGRIA 1919: A REPÚBLICA DOS CONSELHOS OPERÁRIOS: Tibor Rabockzai – Debatedor: Milton Pinheiro

19:30 (ANS): A INTERNACIONAL COMUNISTA E A INSURREIÇÃO DE 1935: Marly Viana – Gilberto Maringoni – Elizabeth Cancelli – Maria Aparecida de Paula Rago

19:30 (AMS): INTELECTUAIS E INTERNACIONAL COMUNISTA: Deni Rubbo – Alessandro Soares – Marcos Del Roio – Muniz Gonçalves Ferreira

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