“A verdade é que a frase acima não foi escrita por ninguém”: quem fala na universidade?

Alessandra Caneppele, Flávio Ribeiro de Oliveira e Pierina Ludovice

 

 

A frase entre aspas que colocamos no título foi retirada de um artigo de uma docente de uma universidade brasileira, publicado no jornal El país (https://brasil.elpais.com/opiniao/2020-11-11/o-caso-stalin-e-o-espantalho-arendt-no-brasil-de-bolsonaro.html). Ela aparece logo abaixo de um parágrafo no qual a autora, substituindo o nome Stálin pelo de Hitler, reescreve um trecho de um artigo de Breno Altman e Jones Manoel publicado antes no mesmo jornal (https://brasil.elpais.com/opiniao/2020-10-31/caso-stalin-o-papel-da-vilania-na-historia.html) – parágrafo que, assim reescrito, é usado como argumento anônimo e irrefutável contra as ideias antes defendidas pelos autores originais. Tal bizarra afirmação de um não autor, através de uma dupla negação (não + ninguém = alguém), nos relembra imediatamente o que Lacan concebera como a maior enganação articulada no discurso da universidade: o ocultamento daquele que diz enquanto se mantém em cópula servil com o discurso do novo mestre, o do capitalismo. Retomemos, mesmo que brevemente, essa e algumas outras reflexões sobre tal concepção do discurso da universidade, a fim de analisar como ele poderia responder hoje à urgência de nosso momento histórico – no qual, certamente não por acaso, ele mesmo já se vê ameaçado de extinção por uma onda obscurantista.

Para tanto, partiremos das fórmulas dos discursos propostas por Lacan, privilegiando aí suas articulações entre saber e Verdade, e dos seus desdobramentos no que será a teoria de Badiou sobre os procedimentos de verdade – analisando não apenas o anonimato, mas também outras imagens usadas pela autora e que também ilustram exemplarmente o discurso da universidade (para facilitar o trabalho do leitor, grafaremos em vermelho tais expressões exemplares).

 

AS FÓRMULAS DOS DISCURSOS EM LACAN

 

No clima das manifestações de maio de 68 na França, Lacan formaliza sua teoria dos discursos, concebidos como a linguagem em ação prática e histórica materializando-se em laços sociais. Deslocando uma fila composta de quatro elementos (S1, S2, a, $) através de seus quatro distintos lugares (semblante/agente; saber; produto; verdade), Lacan escreve quatro fórmulas distribuídas nos quatro cantos de um quadrado e nomeia cada uma delas como um discurso: do mestre; da universidade; da histérica; do analista.

 

 

Depois ele acrescentará a fórmula de um quinto discurso, o do novo mestre, o capitalista, pela torsão da fração à esquerda da fórmula anterior do mestre. Aqui, portanto, não se trata mais de um deslocamento dos elementos mantidos na mesma fila (como encontramos entre os quatro primeiros discursos), mas sim de uma inversão – o que nos permite associar essa quinta escrita ao procedimento da criação de um novo mito pela inversão, justamente como é proposto na fórmula canônica do mito de Lévis-Strauss (cuja pertinência era naquele momento discutida por Lacan).

 

O discurso da universidade: a “verdade” do “não […] escrito por ninguém” é que há um que se esconde

 

Nas fórmulas o canto acima à esquerda deve ser lido como o ponto inicial do discurso, nomeado então como o “semblante” de um agente/motor desse: ou seja, aquele um que aparece como motor do discurso – embora, em função da própria estrutura do sujeito de linguagem lacaniano, deverá se reconhecer ao mesmo tempo também como aquele que é dito pela linguagem. Nesse lugar primeiro da fórmula primeira encontramos S1, escrevendo que no discurso do mestre quem ocupa o lugar de agente é aquele um que diz e se reconhece a si mesmo no lugar desse um. S1 será, então, o traço inicial daquele que, dizendo, impulsiona toda uma cadeia de significantes (S2) alojados já do outro lado da fórmula, no Outro, como o que se constitui aí como saber enquanto o trabalho incansável imposto por S1, produzindo abaixo a, o que sempre resistirá como não significado no Outro e retornará oculto sob o agente S1 como a verdade de um sujeito sempre barrado pela sua própria condição limitante de falante ($ enquanto aquele que é dito pela linguagem). O discurso do mestre, portanto, é aquele de quem se reconhece como quem diz, desse momento no qual “existe um que não” se reconhece como castrado, mas sim na potência de quem pela sua fala nomeia, traçando no real uma marca sobre a qual um saber se inaugura. Ele só é capaz de fazê-lo porque se coloca acima do sujeito barrado – acima daquele que se reconhece como servo obediente a uma língua da qual não se vê como criador.

Ora, no discurso da universidade e no do capitalista teremos no canto esquerdo inferior da fórmula, como oculto sob a lugar do agente, justamente S1 – ou seja, aquele que se reconhece como o um que diz, assumindo em si a potência desafiadora de fazê-lo. Compreendemos, então, como em ambos os discursos o que está oculto sob o semblante do agente do discurso é essa mesma verdade daquele que diz e é autor de seu próprio traço sobre o mundo. Ao ocultar esse senhor S1 esses dois discursos, da universidade e do capitalista, configuram-se como expressões de um discurso do escravo, mas de diferentes modalidades, posto que acima, como o agente/motor/semblante veremos escrito $ (o sujeito barrado) no discurso do capitalista e S2 (o saber) no discurso da universidade – logo, o que exatamente estará trabalhando no ocultamento daquele um que diz nesse último discurso?

 

O saber que apenas se “conta” em um “metro que não se dobra”

 

Ao mesmo tempo em que o um que diz está oculto (daí se nomear aqui um discurso da universidade e não aquele do universitário), vemos que a cadeia de significantes (S2 como a série dos saberes), ela mesma, passa a ocupar o lugar de origem do discurso. Lacan localiza em Descartes o momento no qual o saber passa a ser matematizado, permitindo, então, seu acúmulo exponencial e um manejo e transmissão que já não dependem mais daquele que diz. A introdução dessa escrita “maravilhosa” da formalização literal coloca o que era da ordem de uma verdade “aos pés do muro da verificação”: ou seja, a verdade passa a não ser dita por um ser de linguagem, mas verificada em sua própria eficiência. E assim na fórmula da universidade vemos um discurso que se mobiliza pela própria cadeia de significantes, por si só, em uma sucessão autônoma de metonímias entre elementos iguais, intercambiáveis, contáveis e que, como questiona Lacan, não atuará senão como um “saber absoluto”, na medida em que estabelecerá como movente único o próprio saber – ou seja, reduzirá as dimensões discursivas a apenas aquela do saber concebido como um cálculo interno a uma única cadeia de significantes. Tal saber será, então, um novo tirano a atacar rigidamente seu inimigo número um: o singular do um que o diz.

 

A imagem usada pela representante da universidade, de “um metro que não se dobra inteiramente às determinações das circunstâncias”, ilustra perfeitamente a discursividade movida por um tal saber. E a resposta precisa de Jones Manoel, ao aplicar a mesma inflexível régua anônima para Hanna Arendt, mostrou exemplarmente como tal saber funciona pelo apagamento de toda singularidade. Passa-se, então, a mesma régua sobre todos os nomes próprios, apagando com um saber matemático absoluto, sempre igual a si mesmo, qualquer resquício do um por trás do metro inflexível – imagem exemplar dos que não se curvam para obedecer! E no megafone anônimo do saber universal, a voz da nova militância deve ser prontamente verificada e neutralizada! O agente do discurso da universidade não diz, mas apenas conta, tal como o seu mestre capitalista, e para fazê-lo é necessário transformar todos em iguais – e isso, como expõe Lacan, exige contar a si mesmo na mesma régua, explorando a si mesmo como mais um na cadeia do significante mestre da mercadoria esvaziada de qualquer singularidade. Tudo se passa, então, como se o representante do discurso da universidade se sentisse incomodado pela presença de um interlocutor que não se oferece ao mesmo sacrifício que ele, voluntariamente, entrega ao mestre que não desapareceu, mas apenas ganhou um salvo-conduto por seu ocultamento.

 

O discurso atuado por um tal saber impulsionará a no campo direito do Outro, realizando-se aí através dos pequenos apetrechos produzidos pela ciência (das réguas às telinhas), os quais passariam a povoar nosso mundo, modificando-o, sem que sobre eles já alguma coisa saibamos (logo, é como falsa joia, desprovida do brilho singular do criador, que tal saber ocupa um lugar no Outro). Atentando para o que seria o estado de “cópula” entre o discurso da universidade e o do capitalista, vemos o agente desse último ($) impulsionando em sua fórmula justamente aquele que será o agente do primeiro (S2), mas já não mais como ocorria com o antigo mestre a partir de S1, mas sim de $ – logo, a cópula se efetua através do castrado.  Por isso o saber do discurso da universidade pode acrescentar novos saberes/objetos ao mundo, mas não pode recriá-lo dizendo-o de um outro modo. O saber da ciência e de sua representante institucional será, então, sempre escravo, capaz apenas de inundar o campo do Outro com mais e mais significantes do trabalho dessa sempre mesma e igual cadeia, como se ela a única possível fosse – e será, portanto, sempre um saber conservador, submisso à ordem/régua já dada.

 

Mas existe sobrevida para o discurso da universidade nessa continuidade de sua subserviência anônima ao seu mestre oculto quando já vemos a mais recente versão do capitalista desfilando em cópula com um outro tipo de discurso?

 

BADIOU E OS QUATRO PROCEDIMENTOS DE VERDADE

 

Com Lacan o sujeito do saber da ciência/universidade – depois de manifestar seu mal-estar no discurso da histérica, insistindo aí na produção de um S1 pleno – encontrará no discurso do analista sua verdade escrita na linha superior acima em uma dupla inversão dos esvaziamentos ocultos no discurso do mestre: pela falta do Outro no campo do sujeito (a) e por aquela do sujeito no campo do Outro ($). Já Badiou, como filósofo marxista, prosseguirá além do tempo lógico da falta do sujeito lacaniano, perseguindo uma indicação feita pelo próprio Lacan: por que a passagem pelo último discurso, do analista, não necessariamente faz do sujeito alguém menos capitalista? Introduz-se assim uma temporalidade que já é histórica.

 

Badiou procederá, grosso modo, através de um deslocamento dos conceitos lacanianos de real e de simbólico. O primeiro já não mais estará centralizado em uma concepção de causa/falta, mas se mostrará, pelo avesso, também como excesso/consistência. Frente ao real como um excesso, o simbólico passará a ser concebido como espaço de embates entre forças, como um histórico de luta, construção e destruição: as leis e o conjunto dos significantes do Outro que constituem o simbólico colhem em sua escrita a ação contínua de diversos e distintos S1 e seus S2, resistindo, pela repetição, a um real que não apenas os fura com uma falta, mas também os invade, destruindo e reconstruindo.  Nessa releitura encontramos o substrato da crítica de Badiou a Lacan: o sistema lacaniano padeceria do fato de que, ao final, ele se constituiria como um sistema de manutenção do que está aí, para que tudo “fique no seu lugar”, e não para que algo aí se destrua e refaça. Em termos matemáticos, Badiou formula essa crítica afirmando que o modelo topológico lacaniano teria se mantido ainda subordinado àquele algébrico e privilegiaria ainda a cadeia, a série, desconsiderando uma topologia do campo de forças e das vizinhanças constitutivas de espaços dentro e fora. Será nesse novo cenário que o filósofo poderá encontrar uma discursividade em luta histórica pela inscrição simbólica de um real que excede – o que permite, como veremos a seguir na reescrita do discurso do analista por Badiou, propor uma torsão no campo do Outro que fará do a motor de produção de S1 no lugar do saber e não mais, como líamos na fórmula lacaniana, $, colocando assim na parte de acima da fórmula o que antes permanecia oculto abaixo.

 

Desde esse outro lugar, que não é mais o do analista, Badiou poderá atribuir aos quatro cantos do quadro lacaniano dos discursos uma “verdade”, mas sem assim desqualificar a crítica ao discurso da universidade; pelo contrário. Concebendo a ciência fundamentalmente como a matemática e a física (as quais trabalhariam a partir do S2 “do vazio e do infinito pela letra”), para ele tanto essa como também os outros procedimentos de verdade (do amor, da arte e da política) poderão sempre se degradar em apenas saber (o amor em sexo; a arte em cultura; a ciência em técnica; a política em administração). E o que, grosso modo, garantiria na ciência e nos três outros lugares um procedimento de verdade não degradado em saber? Ora, tal garantia estará justamente em um posicionamento discursivo oposto àquele do saber agente no discurso da universidade em Lacan, na medida em que dependerá de um acontecimento que, rompendo a cadeia já estabelecida de saberes (S2), introduzirá no mundo um novo traço (S1) – ou seja, que se moverá desde o infinito cheio da luta pela inauguração de um novo traço e não via submissão ao infinito da repetição de uma letra já vazia da ciência. Em Badiou é a fidelidade de um sujeito ao evento como introdutor de uma novidade no campo imortal do humano (Outro) que definirá um proceder de verdade – ou seja, vemos como é justamente aquilo que Lacan apontou como o oculto nos discursos da universidade e do capitalista (S1) que reaparecerá garantindo um procedimento de verdade para Badiou: mesmo na ciência a verdade procederia pelo avesso do que a partir de Lacan se concebeu como o discurso da universidade. O proceder da verdade se dará não na servidão a uma cadeia de saber já dada, nem no ato que a fura em sua falta em uma análise, mas sim na exceção que a rompe lutando aí por um novo traço material do humano, um novo mestre (S1) – o qual, mesmo que nunca possa se realizar totalmente como outro, para Badiou poderá mover-se eticamente em direção a sua alteridade, fazendo-se cada vez menos um mestre alheio ao seu outro escravo.

 

A ética definida pela produção de S1 no procedimento da verdade política

 

Será no procedimento da verdade política que o infinito cheio de possibilidades de inscrição ocupara o primeiro lugar, ou seja, aquele do agente/motor (na arte esse primeiro lugar é ocupado pela finitude; no amor, pelo um; na ciência, como vimos, pelo infinito vazio dos S2). Logo, será aí (assim como em Lacan fora no discurso do analista), que se definirá uma ética do sujeito – posto que aí a verdade não é apenas um efeito colateral do procedimento, mas sim ocupa o lugar de sua própria e originária causa. Mas o que é o procedimento de uma verdade política? A massa, concebida enquanto um real lacaniano que excede (o a, para o bem ou para o mal, nunca se sabe!), impedindo a eternização da organização simbólica configurada como Estado, irrompe revelando por um instante, ao mesmo tempo, o a mais de poder já aí sempre inscrito como repetição da cadeia (S2) e o possível a mais de justiça a advir de sua destruição e refundação em outro S1. Apenas nesse momento o poder do Estado poderá ser capturado em uma medição – quando na liberdade de uma destruição se pesarão as novas formas possíveis de inscrição de um a mais de justiça; ou seja, de um campo simbólico marcado por aquilo que poderia ser um traço maior do equânime. Vemos, pois, como para Badiou as unidades de medição não são já dadas, eternas, mas se constituem nesse instante no qual toda a ordem dos metros se desfaz, para que uma outra medida, que se quer mais justa, se funde em uma outra ordem simbólica. A verdade política, portanto, é o próprio surgimento das condições necessárias à criação de um novo “metro” – o qual, Badiou pondera, não será escrito pela própria verdade política, mas depois, quando algo de um novo S1, por ele agora aproximado ao procedimento da verdade amorosa (um novo tipo de mestre!), proporá uma outra organização simbólica para um novo Estado. Esse, embora nunca possa chegar ao equânime de todos = S1, poderá nortear-se por esse impossível, sabendo-se, no entanto, sempre uma armadilha a aprisionar a verdade do acontecimento político (S2 já como apagamento de S1). Um novo Estado poderá ordenar simbolicamente um a mais de justiça, mas não poderá evitar também estabelecer-se como um a mais de força já não mais justa, mas sim como mera lei superegóica. Nesse contexto teórico, o que será uma ética da defesa intransigente do que já se legisla como direitos humanos?

 

A ideologia ética do “direitos humanos não podem ser rifados” como precursora do terror

 

Retomemos uma argumentação de Badiou fundamental para entendermos como a ideologia da ética dos direitos humanos será estranha ao proceder da verdade política. Analisando a situação da tortura, ele localiza essa ideologia como produzida via uma identificação à vítima, em contraposição a uma ética da verdade, na qual a identificação se faria com o torturado enquanto aquele que resiste à violência brutal em nome de seu ideal de luta. Para Badiou, a primeira identificação nos mantém presos ao humano animal e mortal e omite nossa participação na construção daquilo que faz da humanidade uma imortalidade. Ora, por que sustentamos uma tal identificação à vítima? Porque nos identificamos ao S2, somos trabalhadores servis dessa cadeia já dada como um universal em si absoluto e nos apagamos enquanto sujeitos da luta pela inscrição de um novo traço de humano (S1): ou seja, justamente porque funcionamos segundo os laços servis do discurso da universidade.

 

Mas o problema de uma tal ética não estará restrito ao seu conservadorismo servil e vitimado: na medida em que ela, por trás do metro neutro e anônimo dos direitos humanos, desconhece seu mestre, ela abrirá as portas para os piores mestres. Assim, escreve Badiou, quando “os suportadores da ideologia dos direitos humanos tentam localizar diretamente no Mal, de conformidade com seus objetivos de pura opinião”, o que seria a ordem de uma singularidade do mal, eles não só professam um “limite intransponível”, uma “absolutização religiosa do mal” como também, e de uma maneira deverás “ameaçadora”, passam a “ver Hitler por todo canto”, esquecendo-se “que ele está morto e que isso que se passa sob nossos olhos faz surgir novas singularidades do Mal”. Na impossibilidade de reconhecer a singularidade de um mestre, passa-se a ver todo mestre como um mesmo igual e absoluto – e esse não poderá ser senão a encarnação do grande Mal frente ao qual só nos resta o papel de vítimas. Vemos como o apelo à universalidade de um saber (S2), promovendo uma absoluta recusa de toda singularidade (S1), não poderá reconhecer o retorno desse último senão como mal em si – daí o horror do discurso da universidade por todo e qualquer mestre que não seja metro/régua/série. Não acreditando mais em S1, sob os pés dos piores S1 padecem, então, como vítimas amedrontados. Badiou vê como a persistência dessa discursividade faz aparecer em cena um mestre do terror que será o simulacro pleno do que deveria ser o motor do procedimento da verdade política –  terror que reduzirá toda multiplicidade ao particular de uma raça, nação, etc. e sustentará uma exclusão (os judeus, por exemplo, no nazismo) para poder se manter pleno. Para Badiou a “protestação moral” contra qualquer violência, que adora tomar Hitler como o mal em si absoluto, “prepara de fato a repetição do terror”: “nós tememos os anti-stalinistas vulgares não porque eles gritam contra os campos e as torturas – eles têm razão em gritar – mas porque eles organizam, sob os temas inoperantes da objetividade estática [ah, o metro!] ou da “ideologia totalitária” a fraqueza frente à lógica subjetiva do terror”.

 

País nascido concomitantemente ao discurso do novo mestre capitalista e do seu novo servo, não nos parece, então, que seja acaso que no Brasil de hoje justamente o discurso do torturador avance vitorioso: como resposta padrão a ele, vemos vigorar essa ética ideológica e apavorada das vítimas da privação das garantias de seus direitos, a qual mantém a todos nós brasileiros, tanto os contra como os a favor do torturador, como esse animal mortal/gado incapaz de erguer sua voz para lutar e não mais para gemer suas dores! E, apegados à fraqueza conservadora dessa falsa ética, não nos vemos hoje cada vez mais entregues aos piores mestres do nosso terror nacional? Ao invés de elevarmos a voz contra esses, preferimos atacar aqueles que levantam as suas, para que nada novo disturbe o berço esplêndido de nossa servidão voluntária.

 

A repulsa ideológica ao sujeito da exceção de uma práxis de verdade política

 

Badiou acrescenta aos quatro discursos lacanianos uma quadratura de estados de ânimo correspondentes: elogio; resignação; discordância; confiança. Nos dois primeiros, estamos dentro do espaço já dado simbolicamente (espace); nos dois últimos, transitamos na zona desfeita do simbólico (horlieu). Enquanto “formações subjetivas da ética”, os discursos definem não apenas um laço social, mas também um modo de estar subjetivo no mundo. Se já descremos do mestre, mas não temos senão os metros que dele herdamos, persistimos, resignados, reproduzindo silentes seus movimentos: somos gado vitimado empenhado em alongar nossa agonia. A aventura começa quando, pela angústia mortal, avançamos uma discordância que diz que essa régua não é toda – para, por fim, sem garantias, confiar na possibilidade de inventar a mestria de outro instrumento.

 

Nesse circuito de afetos, o humano é a eterna luta de um servo contra seu mestre, que nunca se supera – daí a importância para essa ética da figura de Prometeu. Trata-se, portanto, de uma verdade que procede de um que, sabendo-se escravo, um mortal ($), ultrapassa o medo e insiste, fiel à invenção excepcional de um outro senhor (S1) – ciente de que assim luta entre a falta e o excesso que não se batem apenas nele, mas também no campo do Outro. E é justamente por se reconhecer não sabendo tudo, por estar sem aqueles metros que nunca se quebram, que ele em uma exceção se descobrirá sabendo. Como já Engels notara em sua Dialética da Natureza e depois Lacan ressalta, embora presente na fundação das cadeias de saber que hoje vigoram na ciência, esse sujeito da exceção teve o traço de sua presença apagado pela consistência discursiva de sua letra. Instalado pela letra métrica na ideologia ética da vítima resignada, o discurso da universidade será hoje corporativo, conservador e covarde – e verá com repulsa e horror as vozes singulares da discordância confiante, enquanto, incauto, largará aberta a porta dos fundos pela qual mais e mais de terror adentra?

 

O IMPASSE NO SEXTO DISCURSO LACANIANO

 

Logo após formalizar a escrita do discurso do capitalista, reconhecendo que os laços sociais e seus discursos se modificam historicamente, Lacan anuncia sua intuição sobre o que viria depois de seu discurso analítico sobre o sujeito da ciência: “Uma outra coisa certamente deverá manter a posição do semblante, […] mas isso se chamará talvez o discurso PS. Um PS e depois um T, isso será aliás bem conforme à maneira que se enuncia que Freud via a importação do discurso psicanalítico na América … Isso será o discurso PST. Acrescente um E, isso dá PEST. Um discurso que será enfim verdadeiramente pestilento, todo inteiro votado, enfim, ao serviço do discurso capitalista. Isso poderá talvez um dia servir a alguma coisa se, claro, todo o negócio não se desenlaçar antes” (cf. Conferência na Universidade de Milão).

 

A discursividade no capitalismo, que não poderia funcionar melhor, mas justamente isso funciona rápido demais, isso se consome, isso se consome tanto quanto isso se consume” se desdobraria adiante em um discurso pestilento – ou seja, o filho da cópula discursiva entre capitalismo e universidade seria o discurso da peste! E Lacan intui que esse novo funcionamento discursivo trabalharia desfazendo aquilo mesmo que ele definira como discurso: a constituição pela linguagem dos laços sociais! Lembremos que entre os quatro primeiros discursos a fila se amarrava em um deslocamento em vai-e-vem no qual um mal-estar se produzia (histérica) para ser lido no quarto discurso (do analista). Mas, entre o novo mestre e o novo escravo, Lacan encontra um circuito que pode circular em roda, girar, cada vez mais rápido, consumindo-se, pois nada aí irromperia como o mal-estar recalcado nos laços. E sem o vai-e-vem desse retorno, é como esgarçamento do tecido social – e não mais constituição de laço – que tal discurso avançaria. Então, Lacan se pergunta se esse sexto discurso poderia servir ao surgimento de alguma outra coisa, antes de completar seu curso destrutivo; ou seja: algo poderá retornar como o recalcado desse, desdobrando-se, então, na verdade revelada em um sétimo discurso, perfazendo uma nova quadratura discursiva? (capitalista; universidade; PESTE; ?)

 

Das “fileiras” de mais um desfile de carnaval àquelas de uma batalha mortal

 

Já não vivemos hoje, sob o império discursivo das fake news e de seus mais paradigmáticos mitos (Trump e Bolsonaro) sob o reino discursivo da PESTE anunciada por Lacan? E o que tal discurso nos conta, através de seu sistemático apelo à mentira e desprezo por qualquer compromisso com o que se diz, senão que, por traz do que se diz, há sempre Um que diz? As fake news revelam o oculto atrás da régua anônima, pois apenas aí pode haver um que mente: nunca foi tão importante ler o Crátilo de Platão, onde lemos que a palavra, se não é a coisa, também não é qualquer coisa, mas está entre esses dois lugares na medida dada por um sujeito que a diz. Ora, é esse fantasma guardado no porão de um anonimato universitário que volta uivando agora no ouvido dos incautos. Deixado vago e sem guardiões, é pelos piores que o lugar do um que diz é hoje ocupado: por aqueles que não querem fazer pelo discurso um laço, uma verdade, mas sim provocar esgarçamento, confusão e destruição.

 

A escolha, seguindo Badiou, é agora entre morrer deitado ou lutar de pé.  Mas, aparentemente, na quarta-feira de cinzas de nossa civilização brasileira, os intelectuais da universidade preferem ainda recompor as “fileiras” dos desfiles de carnaval – as dos sujeitos das farsas – e não aquelas dos protagonistas de um procedimento de verdade que lhes pede a coragem de enfrentar a própria morte. Quem fala na universidade hoje parece preferir usar sua força, aprisionada em uma mera agressividade imaginária, para atacar os jovens que escolhem elevar uma voz protagonista de uma outra história – já não mais aquela do mestre da mercadoria e do capital. E assim a universidade, cega ao verdadeiro inimigo que, de dentro, a consome, continua a duelar com seus moinhos de vento.

 

Se a passagem para o discurso da universidade certamente significou uma revolução democratizante em relação ao que era antes o discurso aristocrático de um mestre para poucos, isso não significou a abolição de todo mestre, mas apenas o seu ocultamento naquilo que é o particular ao novo mestre: uma letra que permite não dizer sobre aquele que diz e, assim, pode se expandir, acumulando-se ao infinito e se perfazendo como um saber totalizante e alheio a toda singularidade.

 

No momento de crise que vivemos trata-se de exaltar – e não de atacar – a voz dos que buscam hoje romper com a repetição do metro do mestre anônimo, confiantes apenas no dever de buscarmos um outro, mais justo, que mostre seu rosto quando decidimos sobre o que fazer com tudo o que hoje pela ciência sabemos. Pois o terror da crise civilizatória protagonizada por esse nosso velho mestre oculto está aí, não é fake e não se chama Stálin – e cabe aos sujeitos da universidade e de seu saber escolherem agora entre a fileira dos que desfilarão agonizando deitados no carro alegórico do passado ou dos que erguerão seus nomes e corpos no campo mortal da batalha pelo futuro. Afinal, o inesperado e incalculável de uma massa humana pode sim irromper como força amorfa no cenário histórico das construções simbólicas (e suas configurações de Estados) e aí inscrever um outro traço de justiça – mas nunca o fará sem a exceção das vozes que escapam da vida segura e regrada das réguas já dadas para inventarem o que ainda não se sabe sobre a nossa sempre refeita humanidade.

 

 

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Sugestão de texto para chamada de leitura para a militância:

 

No X Congresso do PCB*, Francisco Milani resgata uma cena mítica da revolução cubana na qual, cercados por um exército inimigo muito mais numeroso, um dos guerrilheiros teria invertido as contas e dito “não podemos deixar o inimigo fugir”. Vemos aí como a luta militante se faz também com a força das palavras capazes de inaugurar uma nova forma de contar. Se, como lemos no artigo, o discurso da universidade, servil ao capitalismo, oculta a singularidade dessa ousadia que está na origem de todo saber da ciência, a militância precisa lutar dentro e fora das universidades por uma palavra que não apenas reproduza a história já dada, mas com ela se empenhe na invenção de um outro futuro.

 

*https://www.facebook.com/PCBSantaCatarina.SC/videos/1648565808768318/