Nem Fascismo, nem Liberalismo: Sovietismo!

 

 

Por Antonio Gramsci, via marxists.org, traduzido por Vinícius Okada M. M. D’Amico

Na crise política pela liquidação do fascismo, o bloco de oposição parece ser progressivamente um fator de ordem secundária. Sua composição social heterogênea, suas vacilações, e sua aversão a uma luta das massas populares contra o regime fascista, reduz suas ações a uma campanha jornalística e a intrigas parlamentares, as quais combatem impotentemente contra a milícia armada fascista.

 

 

No movimento de oposição ao fascismo, o papel mais importante passou para o Partido Liberal porque o bloco não possui outro programa para opor ao fascismo que não o velho programa liberal da democracia parlamentar burguesa, o retorno para a constituição, para a legalidade, para a democracia. Na discussão a respeito da sucessão ao fascismo, de acordo com o congresso do Partido Liberal, o povo italiano é colocado pela oposição diante de uma escolha: ou fascismo ou liberalismo; ou um governo ditatorial sangrento de Mussolini ou um governo de Slandri, Gioliotti, Amendola, Turati, Sturzo ou Vella, tendendo ao reestabelecimento da boa e velha democracia liberal italiana, em que a burguesia continuará, sob essa máscara, a exercer sua lei exploratória.

O operário, o camponês, que por anos odiaram o fascismo que os oprime, acreditam ser necessário, para liquidá-lo, aliar-se com a burguesia liberal, apoiar aqueles que no passado, quando estiveram no poder, apoiaram e armaram o fascismo contra os proletários e camponeses, e que há alguns meses atrás formaram um bloco sólido com o fascismo e repartiram a responsabilidade por seus crimes. E é assim a maneira como a questão da liquidação do fascismo está posta? Não! A liquidação do fascismo deve ser a liquidação da burguesia que o criou.

Quando o Partido Comunista, nos dias que se seguiram ao assassinato de Matteoti, apresentou as palavras de ordem: “Abaixo ao governo de assassinos! Dissolução da milícia fascista!”, não pensou que o governo de assassinos deveria ser substituído por um governo daqueles que em todas as suas políticas abriram o caminho e armaram os assassinos; nunca pensou que Giolitti, Nitti e Amendola, os quais estavam no poder quando a milícia fascista foi formada, seriam capazes de desarmar essa milícia à qual foram favoráveis e à qual armaram contra a classe trabalhadora.

Erguendo essas palavras de ordem, nosso partido não visou substituir o fascismo derrocado pelo velho liberalismo, cujo fracasso vexaminoso e liquidação definitiva foi assinalado pela Marcha sobre Roma. O Partido Comunista, desde o começo da crise do fascismo, afirmou que a classe trabalhadora e os camponeses deveriam ser os coveiros e sucessores daqueles no poder.

A ação da massa dos proletários industriais e dos camponeses é necessária para a derrota do fascismo, para a luta de classes com todas as suas consequências. Sem dúvida alguma o proletariado deveria e deve usar, em sua luta contra o fascismo, das contradições e conflitos que se desenvolveram internamente a burguesia e a pequena-burguesia. Mas sem ação direta, o fascismo jamais poderá ser derrubado. Colocar o problema dessa maneira significaria, ao mesmo tempo, colocar a questão da sucessão ao fascismo. Com a derrota do fascismo pela ação das massas operárias e camponesas, o liberalismo não terá lugar em sua sucessão: esse direito pertence ao governo dos trabalhadores e camponeses, que apenas eles serão capazes e terão a determinação sincera para desarmar a milícia fascista, armando a classe trabalhadora e os camponeses.

No presente momento, trata-se de uma questão distinta do retorno à constituição, à democracia e ao liberalismo. Estes últimos são palavras sorrateiras que a burguesia usa para enganar os trabalhadores da cidade e do campo, para impedir que a crise tome seu caráter verdadeiro, que é a vingança dos trabalhadores e camponeses contra o fascismo que os reprimiu e contra o liberalismo que os enganou, e que há alguns meses atrás colaboraram ou procuraram colaborar (D’Aragona, Baldesi, etc.) com Mussolini.

A crise italiana só pode ser resolvida com a ação das massas trabalhadoras. Não há possibilidade de liquidação do fascismo no plano das intrigas parlamentares, apenas um compromisso que deixa a burguesia na dianteira com o fascismo armado a seu serviço. O Liberalismo, mesmo se inoculado com as glândulas do macaco reformista, é impotente. Pertence ao passado. E todos os Don Struzos da Itália, unidos com os Turatis e os Vellas, não terão sucesso em retomar sua jovialidade necessária para a liquidação do fascismo.

Um governo das classes dos trabalhadores e camponeses, que não irá se preocupar nem com a constituição nem com os princípios sagrados do liberalismo, mas que está determinado em derrotar definitivamente o fascismo, desarmá-lo e defender os interesses dos trabalhadores da cidade e do campo contra todos os exploradores, essa sozinha é a única força jovem capaz de liquidar um passado de opressão, de exploração e crime e de dar um futuro de verdadeira liberdade a todos que trabalham.

Hoje, o Partido Comunista é o único que repete essa verdade ao proletariado. Sua influência aumenta, sua organização está se desenvolvendo, mas a maioria dos trabalhadores e camponeses, arrastados pela Confederação do Trabalho e Partido Maximalista, em seu lado avançando sobre a oposição constitucional emergente, ainda não readquiriram sua consciência de classe, ainda não entenderam que as classes operária e camponesa são o principal fator nessa crise porque possuem números irresistíveis e a grande força da juventude. Se não se quer iludir deve-se agir no plano da luta de classe enquanto uma força independente, que será em breve determinante, e não no plano da colaboração de classe no sentido de não fazer nada a não ser mudar a máscara da burguesia italiana.

A tarefa essencial de nosso partido consiste em penetrar essa ideia fundamental entre os operários e camponeses: somente a luta de classe das massas operárias e camponesas derrotarão o fascismo. Somente um governo de operários e camponeses pode desarmar a milícia fascista. Quando tais ideias essenciais tiverem penetrado o espírito das massas operárias e camponesas por meio de nossa incansável propaganda, os trabalhadores das fábricas e dos campos, ou qualquer outro partido, entenderão a necessidade de construir Comitês Operários e Camponeses para a defesa de seus interesses de classe e para a luta contra o fascismo.

Eles entenderão que esses são os instrumentos necessários da luta revolucionária e de sua vontade de substituir o governo de assassinos por um governo de operários e camponeses. No momento de fechamento do Congresso Liberal, que procura ainda vencer sobre o povo trabalhador, de um lado a outro da Itália os operários e camponeses responderão a sua sonora e vazia tagarelice com: NEM FASCISMO, NEM LIBERALISMO: SOVIETISMO!