Notas sobre conservadorismo e pensamento político de direita

Comissão Nacional de Formação Política do PCB – Partido Comunista Brasileiro

a) Relação do tema com a atualidade da crise do capital

Não é por mera coincidência que a ascensão mundial das direitas tenha ganhado impulso a partir do final da década passada, se tornando cada vez mais forte nos primeiros anos da atual. É no ano de 2008 que vêm à superfície os efeitos devastadores dessa que tem sido classificada como a mais aguda crise do capitalismo desde o Crash da bolsa de 1929, e a subsequente Grande Depressão dos anos 1930. O recurso à memória ajuda a esclarecer a relação entre tais fenômenos –  crise econômica e recrudescimento autoritário – pois a história testemunha a escalada fascista e o conflito imperialista como desfecho do abalo de 90 anos atrás. Se por um lado há uma inegável diferença de estágios de amadurecimento do sistema que entra em crise, por outro permanecem similaridades estruturais que iluminam as bases materiais dessa ofensiva conservadora atual.

Lenin, Rosa e outros expoentes da II Internacional já chamavam a atenção para o teor financeiro do capitalismo que se configurava na virada do século XIX para o XX. Em seu tempo, esse era o processo que se observava no centro dinâmico do capitalismo, essencialmente a Inglaterra, seguida por França e EUA, ainda em posição subordinada. Atualizando o argumento teórico de Marx sobre as rupturas na história, a I Primeira Guerra foi o desenlace necessário para que o nascente capitalismo monopolista e financeiro se libertasse das amarras do período vitoriano e suprisse suas necessidades expansionistas. Os velhos impérios coloniais, de impulso inicial globalizante, tornaram-se entraves para o desenvolvimento das forças produtivas em sua nova fase, e foram então substituídos pelo modelo imperialista, “fase superior do capitalismo”.

A II Guerra Mundial resulta da entrada de novos atores nessa disputa, em virtude dos arranjos de suas economias nacionais terem alcançado o estágio do capitalismo monopolista e financeiro. É como Nicos Poulantzas interpreta o fenômeno fascista na Itália e na Alemanha, por exemplo[1]. Para colocar o Estado a serviço da fração monopolista financeira, resolver a crise de hegemonia interna do bloco no poder, sanar a crise ideológica e executar uma política macroeconômica que atendesse aos interesses desse setor mais avançado das burguesias locais, foi preciso uma solução autoritária de Estado fechado. Uma vez mais, uma atualização para a conjuntura em questão de outra análise clássica de Marx, que interpretou o golpe do 18 Brumário como a solução autoritária para o compromisso entre frações de classe.

Não é fortuito que ambos tenham sido objeto de análises clássicas no campo da teoria marxista para a compreensão do processo de modernização capitalista retardatária. Tanto a “revolução passiva” de Gramsci para o Risorgimento italiano[2], quanto a “via prussiana” na análise de Lenin sobre a unificação alemã[3], são interpretações de processos de modernização conduzidos pelo alto, sob controle do Estado, em virtude da incapacidade das burguesias nacionais de impor sua hegemonia, que resultam em regimes autoritários. É esta a característica que parece importante reter, por sua repetição histórica: seja na França de 1848, ou nos processos de unificação nacional de Italia e Alemanha algumas décadas depois, a percepção de debilidade da burguesia e sua composição política com os proprietários de terra desnudam a luta de classes e o papel que cumpre o Estado autoritário no controle da classe trabalhadora e seus organismo políticos. Em todos esses momentos fica patente que a burguesia, diante de sua incapacidade de controle das massas, abdica do controle exclusivo da estrutura do Estado, alia-se a antigas frações adversárias (latifundiários) e se desvencilha dos pudores ideológicos democráticos, como estratégia de enfrentamento e controle de um movimento de trabalhadores forte e organizado.

Um instrumento político forte como Estado autoritário, que adote as medidas necessárias para debelar uma crise econômica, nos oferece o elemento material concreto do processo. Para uma compreensão mais abrangente, contudo, não é de menor relevância a análise ideológica. De maneira geral, a ideologia cumpre o importante papel de apresentar como universal um interesse que é, na realidade, particularista. À classe dominante seria impossível angariar apoio de outros setores da sociedade caso seus projetos não se apresentassem sob o manto do “bem comum”. Marx atentou para essa função de dominação em um de seus primeiros escritos, mostrando como os chamados Direitos Humanos não ultrapassavam a circunscrição dos direitos burgueses, e eram portanto insuficientes para a necessária emancipação.

A adesão da maioria à ordem estabelecida é fundamental para sua manutenção, e portanto está no centro das teorizações sobre a política desde seus primórdios. Retomando uma vez mais Antonio Gramsci, suas preocupações quanto à reprodução da ordem o levaram a refletir sobre as razões da aquiescência. A hegemonia, conceito chave na reflexão gramsciana sobre a reprodução da ordem capitalista, se constitui com coerção e consenso. A coerção é garantida com as funções repressivas do Estado, e o consenso é alcançado através do trabalho ideológico dos diferentes aparelhos da sociedade civil. No caso histórico do fascismo, o discurso ideológico se apropriou do medo e a insegurança que a profunda crise econômica disseminou. A Nação indivisa, unificada em torno de um objetivo comum a todos, constituiu a ideia forte a partir da qual se orientou o discurso ideológico que justificou as práticas autoritárias do regime. Ficam escamoteadas todas as eventuais divisões que atravessam a nação, e isso inclui a negação da estrutura de classes da sociedade capitalista. Os que insistem em apontar a sobrevivência das fraturas são inimigos do povo e sabotam seu progresso. Assim toda oposição é criminalizada, perseguida, reprimida e suprimida. Ao fim e ao cabo, uma política econômica direcionada para o benefício do grande capital, seus interesses em contraposição inclusive às outras frações burguesas e especialmente à classe trabalhadora, foi promovido como o interesse universal de toda a nação.

Com esse pequeno sumário histórico, podemos pensar as manifestações contemporâneas da direita em ascensão, suas características autoritárias, conservadoras, e o papel do discurso ideológico para compatibiliza-las com as necessidades concretas do capitalismo em seu atual estágio de desenvolvimento. Se a crise que levou à I Guerra decorria das dores do parto do capitalismo financeiro, e a que precipitou a II Guerra envolvia seu amadurecimento e inclusão de novos atores, a crise do começo do século XXI resulta de um capitalismo financeiro já plenamente amadurecido, mundializado, e sofrendo os impactos do esgotamento de seu modelo de expansão.

A estratégia adotada por instituições responsáveis pelo desenvolvimento do capitalismo no pós-II Guerra se esfacelara no início dos anos 1970. A solução produzida pelos centros de poder foi o conjunto de medidas que acabaram conhecidas como neoliberalismo, tornadas políticas de governo ao redor do mundo através da chantagem financeira exercida por instituições “multilaterais” controladas pelos grupos dominantes do capitalismo central. O 2008 norte-americano e posteriormente o 2010 europeu foram o desfecho trágico do colapso dessa estratégia, e o avanço conservador é a maneira como os causadores do colapso impõem aos setores subalternos, mais frágeis, que paguem a conta. Em outras palavras, a tática para a reestruturação da ordem capitalista internacional, a garantia da sua reprodução e a recomposição das taxas de expropriação de excedente.

Como estratégia de reorganização do espaço econômico global do capitalismo financeiro, os EUA garantiriam sua hegemonia global através da combinação de demanda internacional para seus produtos, gastos governamentais financiando o setor militar e fluxo global de capitais para Wall Street. Os EUA seria o país gerador de excedentes e articularia centros regionais na Europa (Alemanha) e Ásia (Japão) para garantir a vitalidade do mercado local e impulsionar os fluxos financeiros em direção centro do Império. O mecanismo financeiro de equilíbrio foi o Sistema de Bretton Woods, que atrelava todas as moedas ao dólar, lastreado em reservas de ouro nos EUA. Dessa forma, o impulso à produtividade industrial dessas economias serviria como estímulo à demanda industrial, paralelamente ao direcionamento do capital financeiro em direção a Wall Street. A estratégia foi abalada com as vitórias de movimentos revolucionários na Ásia; Mao Tse Tung impediu que a China se tornasse o escoadouro previsto para a produção japonesa, e a resistência obstinada de Ho Chi Minh e do Vietcong elevaram os gastos militares de forma imprevista. Paralelamente, os gastos internos dos EUA para amortecer as tensões internas da luta de classes elevaram o déficit público para além da capacidade de gerenciamento. O resultado foi aprofundamento acelerado da dívida governamental, reduzindo as reservas que o governo norte-americano dispunha. Uma quantidade crescente de dólares inundou os mercados mundiais, causando pressões inflacionárias.

Em 1971 o dólar deixa de ser convertível em ouro, e Bretton Woods chega ao fim. Em 1973 a pressão inflacionária é reforçada por aumento de preço simultâneo das commodities, pressionadas pela desvalorização do dólar. O objetivo dos EUA passa a ser financiar seus déficits gêmeos (divida publica e balança comercial negativa) sem aumentar impostos, cortar gastos do governo ou reduzir o domínio em escala global; a estratégia para alcança-lo, garantir que o resto do mundo promovesse tal financiamento. As táticas envolveriam redirecionar os fluxos comerciais, às custas dos parceiros que financiaram a expansão no pós guerra (Alemanha e Japão), aumentando a competitividade da indústria norte-americana e estabelecendo taxas de juros atraentes para o capital financeiro. “Aumento de competitividade” é um eufemismo para redução de custos com trabalho, significando na prática a redução do valor real do salário. A década de 80 se inicia com uma taxa de juros quase três vezes maior que a do fim de Bretton Woods. Ronald Reagan podia gerenciar um crescente déficit comercial, financiar o orçamento de defesa fabuloso da “Guerra nas Estrelas” e promover cortes de impostos para os mais ricos. Incapazes de manter o fluxo financeiro em equilíbrio relativo, os EUA se preparavam para um mundo de fluxos comerciais e financeiros assimétricos, para financiar seus déficits e consolidar sua hegemonia baseando-se neles.

A estratégia de hegemonia do capital financeiro se apoiava em quatro pilares fundamentais. O dólar como moeda de reserva internacional, que faz com que o aumento por sua demanda não reflita o aumento na demanda por produtos e serviços que ela produz; aumento dos custos de energia, que prejudicou Alemanha e Japão em relação aos EUA (além do comércio do petróleo estar profundamente associado a corporações norte-americanas); mão de obra barata e produtiva graças a salários estagnados paralelamente a aumento de produtividade; tudo devidamente protegido por um poder geopolítico incontestável. Para a China, a tática envolvia controlar o fornecimento de energia nos países vizinhos. Para os países da zona socialista afastados de Moscou, tratou-se de controlar a orientação de sua política econômica através da dívida externa. Esses países contraíram dívidas durante o período de juros baixos para impulsionar projetos de educação, saúde e desenvolvimento industrial. A alta acelerada das taxas de juros impôs políticas de austeridade que levaram a convulsões que acabaram por levar ao colapso dos regimes, como o caso pioneiro da Polônia. No então chamado Terceiro Mundo, operou o Fundo Monetário Internacional, oferecendo recursos para pagar as dívidas com os grandes bancos, ao preço da adesão dos países ao “pacote de ajuste”, o programa neoliberal de desmantelamento dos setores públicos, encolhimento de instituições estatais e transferência de patrimônio nacional para empresas privadas. A estrutura financeira que sustentou o neoliberalismo envolvia, portanto, um EUA comprador no comércio internacional e um governo gastador principalmente no setor militar, sustentado por um fluxo global de capitais financeiros em direção a Wall Street.

Durante a vigência de Bretton Woods, a estratégia global dos EUA para controle do capitalismo mundial se assentava no superávit comercial, reciclando esses capitais garantindo demanda para suas exportações impulsionando zonas comerciais na Europa e no Japão. A estratégia de hegemonia do período neoliberal se estrutura no sentido inverso: os EUA absorve o capital dos demais países através do sistema financeiro, e os recicla comprando suas exportações. Os Estados Unidos se tornam o grande gastador do mundo, e o impulso para seu capitalismo é um déficit comercial progressivo, que debela a estagnação do comércio internacional dos anos 70. O déficit orçamentário e o setor bancário atraem os fluxos de capitais para o sistema financeiro sediado em Wall Street. Estruturalmente, um sistema assentado na desregulamentação do mercado de trabalho e do sistema financeiro, liberando o capital para agir sem controles institucionais.

Os símbolos dessa nova era são tanto o mercado de ações quanto a nova estrutura de corporações que se valem de sua pujança, solidez e ausência de legislações específicas para espremer os custos trabalhistas e os pequenos fornecedores. O ambiente ideológico é influenciado pela disseminação da ideia de “trickle down”, a suposição de que a melhor maneira de beneficiar os pobres é acumular ainda mais riquezas nas mãos dos muito ricos; uma ideologia que informou os cortes de impostos para as classes altas durante a era Reagan, por exemplo. Uma proposta assentada em uma teoria econômica conhecida como “Economia pelo Lado da Oferta” – propondo que o o setor financeiro deveria ser liberado de toda regulamentação, e em seguida atrelado ao setor imobiliário. É essa última proposição que, ao ser praticada em larga escala pelo setor financeiro, vai se tornar a nascente da grande crise de 2008. O sistema financeiro passa a criar valor fictício em escala cada vez mais acelerada, utilizando dívidas de empréstimos hipotecários para criar novos “produtos” financeiros que desmembram tais dívidas, as recombina, e revende no mercado de fundos.

Quanto às corporações, foram desenvolvidos métodos para derrubar os custos de fornecedores, combinados ao corte de rendimentos dos trabalhadores envolvidos em todas as fases de produção e distribuição de seus produtos. Representavam o novo modelo de consumismo característico dos anos 90, com uma máquina publicitária que identificava a compra de seus produtos como símbolo de pertencimento à cultura do sucesso. O desempenho de mercado era conseguido com os preços comparativamente baixos de produtos mais ou menos supérfluos em quantidades certamente exageradas. Onde essas corporações se expandiram (o exemplo típico é o Walmart), as taxas de pobreza aumentaram. O obstáculo a ser superado era que esse consumidor médio, convencido de que sua vida só estaria completa comprando uma ampla variedade de mercadorias, vivia estagnação salarial há mais de uma década. É nesse cenário que o sistema bancário estende crédito às famílias de classe média e trabalhadora, sob a forma de hipotecas, empréstimos pessoais e cartões de crédito. Submetidos à ideologia do consumo e sua nova roupagem, as famílias tomam empréstimos para a compra da casa própria; em seguida, usam essa casa para a compra de bens de consumo. O endividamento privado aumentou de forma mais acelerada que a rentabilidade das empresas, e o primeiro efeito disseminado foi o aumento dos preços de moradia. O desenvolvimento do processo leva ao descontrole na criação de valor fictício: em 2007 cada US$ 1 da renda mundial correspondia a US$ 12 em derivativos, os “produtos” do mercado financeiro.

Os derivativos assentados na confiança das avaliações positivas que recebiam dos mesmos mecanismos que lucravam com eles, fizeram parecer que era possível tirar dinheiro (valor) do nada. A “economia real”, que operava com produção, parecia obsoleta, ultrapassada, e em termos de racionalidade econômica, não podiam competir com as atraentes margens de lucro que o sistema financeiro oferecia. Foi o canto da sereia que atraiu para a órbita do mercado de valores fictícios, corporações sólidas de longa história, como a General Motors. Seus setores financeiros, inicialmente voltados para o fornecimento de empréstimos a seus consumidores, entraram no negócio de derivativos, que acabou se tornando o setor mais lucrativo da empresa. O setor produtivo dessas empresas foi suplantado pelo peso (e a lucratividade) do braço financeiro, e toda a economia mundial foi abarcada na nova modalidade de dinheiro fácil. As baixas taxas de juro desse dinheiro privado alimentaram bolhas de ativos ao redor do mundo, e governos altamente deficitários (como a Grécia) o utilizaram para cobrir seus gastos. 

O quadro geral era de EUA e seus satélites estratégicos acumulando dívida nacional externa, as famílias do centro do capitalismo acumulando dívidas, e o sistema financeiro de Wall Street gerando e acumulando valor fictício. Paralelamente, os países da OPEP, Alemanha, Japão, Sudeste Asiático e China, acumulavam reservas para direcionar a Wall Street; foi esse fluxo de capitais que pode financiar os déficits combinados dos EUA (orçamentário e comercial), que por sua vez garantiam o a continuidade da produção  de excedentes na Europa e na Ásia. O problema nessa equação, é que esse padrão aparentemente tranquilo não pode se manter a longo prazo[4]

Em resumo, desde os anos 70 os EUA absorvem grande parte dos produtos industriais excedentes do mundo; as importações líquidas da América do Norte eram as exportações dos superavitários Alemanha, China e Japão. Os excedentes acumulados por empresas das nações excedentes retornavam aos EUA para Wall Street em busca de rentabilidade financeira, e o setor bancário norte-americano o utilizava para crédito aos consumidores, investimento direto nas empresas norte-americanas e comprar títulos do Tesouro dos EUA. Para esse esquema operar era fundamental a combinação de déficit comercial e déficit fiscal, pois sem eles o fluxo circular global dos bens de capital não se completa e a economia mundial se desestabiliza. O esquema quebrou quando o setor financeiro norte-americano utilizou o fluxo de capitais para construir enormes pirâmides de dinheiro fictício, com seus “produtos” baseados no fatiamento e recomposição de dívidas hipotecárias. Quando em 2008 a tentativa de tornar real o dinheiro fictício se mostrou inviável, todo o capital virtual criado por Wall Street virou fumaça e se tornou impossível continuar fechando o ciclo, que entrou em colapso. O setor bancário já não conseguia controlar os déficits combinados para gerar demanda suficiente em seu país e sustentar as exportações do resto do mundo. A partir de então, se tornou imprescindível para reequilibrar a economia global um novo mecanismo de reciclagem de capitais excedentes. A atividade econômica norte-americana precisou se estabilizar em um nível muito inferior, associada a um alto nível de endividamento. Haveria a possibilidade de uma recuperação econômica lenta, nos marcos do capitalismo, no caso de retomada do emprego com salários e preços mais baixos – o que foi impedido por uma política econômica sintonizada com os interesses do setor financeiro, associada à política de austeridade europeia e a queda da demanda chinesa.

Os programas de salvamento se mostraram apenas uma torrente de recursos públicos, em níveis gigantescos, para salvar o setor bancário, sem qualquer reverberação na economia real e na vida da população estadunidense. Politicamente, esse quadro se traduziu na perda de força da administração Obama, associada ao salvamento dos causadores do caos econômico, da crise que se recicla sem apontar uma possibilidade de saída. Tal como ocorreu nos anos 30, os grandes beneficiários desse cenário não emergiram do campo da esquerda, mas da extrema direita. Desdém por banqueiros, ataques à atuação das instituições, repulsa a toda representação governamental e do próprio sistema política, forjaram o discurso do Tea Party, que é a matriz do pacote ideológico dessa nova extrema direita de contornos “populistas de direita” que viceja mundo afora, Brasil incluído[5].

O caso brasileiro reflete o panorama global da crise do capital, e seus desdobramentos combinam as estratégias do centro do capitalismo para a recuperação e manutenção de sua posição hegemônica com o desenvolvimento interno da luta de classes local nessa conjuntura. A política de conciliação de classes dos governos petistas contou com estabilidade e apoio enquanto a crise econômica internacional não havia corroído, por um lado, os ganhos das frações burguesas, e por outro, a capacidade de consumo das classes trabalhadoras. Nesse cenário foi possível a Lula, ainda em 2010, sair da presidência da Republica com estratosféricos 87% de aprovação, o que não esteve à disposição de sua sucessora Dilma Roussef. Ainda em seu primeiro mandato, os efeitos da quebra do sistema financeiro, da desaceleração chinesa e das estratégias do centro para lidar com essas adversidades, desembarcam no Brasil comprometendo as margens de acumulação. Como o “reformismo fraco” do lulismo era assentado em uma estratégia de não confrontar o capital, mas operar nas margens permitidas a partir de altas taxas de acúmulo, a capacidade governamental de continuar financiando o consumo das classes trabalhadoras com crédito e salário indireto também se exauriu.

O capital político amealhado por Lula para o PT vai se desgastando progressivamente, até explodir em grandes manifestações em julho de 2013. Certamente que a explosão não foi “raio em céu de brigadeiro”, mas expressava, de forma desarticulada, o descontentamento popular fruto de equívocos do Partido dos Trabalhadores na condução de políticas de impacto nas classes baixas. A ausência de orientação política ideológica definida, expressa em uma pauta difusa que sinalizava o descontentamento popular sem clareza quanto às razões e os caminhos para a solução dos problemas, torna esse fenômeno social presa fácil para grupos organizados e atuantes da direita, em sintonia fina com as grandes corporações da comunicação. Grupos de direita que se apresentam como expressão autônoma e espontânea da população descontente passam a mobilizar esforços para organizar e divulgar os atos, contando com amplo apoio da mídia oligopolizada. O manto do espontaneísmo cumpre um duplo papel; ao mesmo tempo em que despolitiza e esteriliza a contestação às causas estruturais do sistema capitalista que engendra as crises, mobiliza seus seguidores contra os principais agentes políticos da organização das classes – partidos, sindicatos e movimentos sociais associados. Movimentos como MBL, Vem Pra Rua e Revoltados Online, que expressam a mescla de conservadorismo e liberalismo característica da nova direita, direcionam a pauta das manifestações e da interpretação hegemônica: contra a corrupção e a identificação da origem de todos os males do Brasil no sistema político e os ocupantes de postos no Estado.

Apesar de todo o desgaste enfrentado diante desses atos públicos e das manifestações em razão da Copa do Mundo no ano seguinte, nas eleições de 2014 Dilma se reelege com uma pequena margem sobre seu adversário do PSDB. Aécio Neves não reconhece a derrota, e o bloco que coordena no Congresso passa então a atuar politicamente para inviabilizar a atuação do governo. Em termos de pontos de tensão política, a resistência do parlamento se tornará ainda mais dura quando o presidente da Câmara parte para a ofensiva agressiva quando não obtém o apoio do Partido dos Trabalhadores para barrar uma investigação sobre seus desvios no comitê de ética. Comandando uma ampla rede de deputados de baixa expressividade, acata o pedido de impeachment e abre a brecha institucional necessária para galvanizar as forças de elite que se levantaram contra o reformismo fraco petista.

Os tucanos derrotados estão associados à direita tradicional, os representantes da elite econômica e seu projeto liberal que favorece o capital financeiro. Parte dessa elite foi cooptada pelos governos petistas enquanto sua política econômica foi francamente favorável ao capital financeiro. As mudanças de orientação do governo Dilma ainda no primeiro mandato, em favor de um “novo desenvolvimentismo”, favorecendo um ilusório setor nacional da burguesia, foi peça importante para a desintegração do pacto conciliatório de classes. Como os já citados trabalhos clássicos mencionados acima, a burguesia brasileira é, desde o nascedouro, uma sócia minoritária do capital internacional. Atualizando a análise histórica para a conjuntura atual, também o setor produtivo da economia brasileira se financeirizou, tendo seus interesses profundamente atrelados aos ganhos do capital financeiro. As frações da burguesia brasileira que participaram do pacto que sustentou os governos petistas retiram seu apoio.

O funcionamento do “presidencialismo de coalizão” depende do atendimento de demandas particularistas de deputados do chamado “baixo clero”, para a construção da base de apoio parlamentar a um governo que não obteve a maioria no Congresso. Essa dinâmica seguiu seu fluxo histórico durante o governo de Lula, com perfil negociador e conciliador, mas foi tortuosa durante o período Dilma, menos afeita às concessões necessárias a um governo que pretenda operar nos marcos da modalidade brasileira de capitalismo.

O capital internacional encontrava na permanência do modelo petista dois grandes obstáculos. Um relacionado ao capital financeiro, que tinha sua penetração obliterada por uma política econômica que diminuía sua participação na renda nacional em favor do capital produtivo. O outro relacionado às reservas de petróleo, inacessíveis às corporações estrangeiras com a manutenção da Petrobras e o controle do Pré-Sal.

A possibilidade de coligir todas essas fontes de oposição em uma atuação política unificada se dá com o processo de impeachment, que para obter sucesso dependia da reorientação da opinião publica que havia pendido, recentemente, para a quarta eleição consecutiva do bloco político que se pretendia deslocar do poder. Para a concretização do projeto foi fundamental a atuação das corporações de comunicação, instrumentalizando a ação de outro ator político fundamental, o Judiciário. Comandada por um juiz treinado nos EUA, a Operação Lava Jato atua politicamente para corroer a legitimidade dos governos petistas. Com o objetivo declarado de combater a corrupção sistêmica do Estado, resulta na liquidação de grupos empresariais brasileiros de projeção internacional (empreiteiras e Petrobras) e de políticos de centro-esquerda cuidadosamente selecionados. Mirando no bloco de partidos e lideranças que a direita identifica como esquerda, o efeito concreto alcançado foi a deslegitimação de toda política identificada com classes populares e minorias. Os resultados político-ideológicos junto à população vão além, replicando o feito dos teóricos do elitismo e da “democracia procedimental” entre fins do século XIX e a II Guerra Mundial. Mirando na ameaça de partidos socialistas que se massificavam, seus argumentos contra a possibilidade das classes baixas atuarem politicamente ferem de morte uma concepção substantiva de democracia.

A eleição de Jair Bolsonaro resulta dessa campanha massiva de demonização da política, assim como no século passado esse expediente levou à ascensão dos lideres fascistas. Também a exemplo dos experimentos fascistas, o bloco burguês enfrenta uma crise ideológica e de hegemonia, que não encontra em seus órgãos tradicionais e representantes uma solução adequada. A diferença é que os caminhos para a consolidação de sua estratégia não replicam os golpes de Estado e regimes de exceção clássico. Para nosso atual período histórico, os golpes se realizam pela via institucional, com recurso ao judiciário e legislativo, como no Paraguai, em Honduras, e também no Brasil; os regimes de exceção, por paradoxal que se apresente, ocorrem em plena vigência formal do Estado de Direito. As massas descrentes em um sistema que não parecia capaz de debelar a crise econômica que precariza suas vidas e intensifica os efeitos deletérios de políticas petistas equivocadas, marteladas por uma campanha ideológica intensiva, são capturadas por um discurso que identifica em um parlamentar veterano de sete mandatos consecutivos o “outsider” capaz de corrigir um sistema apodrecido. Inevitável recordar os escritos de Marx sobre o papel do Direito e do Estado na preservação dos interesses e do poder das classes dominantes. 

b) principais características ideológicas e políticas e relações com movimentos internacionais

O campo político que nos último anos vem recebendo a designação genérica de “nova direita” tem diferenciações e clivagens internas, abrangendo posições ideológicas de diferentes origens, mas com pontos de convergência que permitem seu agrupamento. Estão nesse campo neoliberais e suas vertentes, conservadores, reacionários, monarquistas, neofascistas e cristãos fundamentalistas.

No aspecto político, cada uma dessas correntes ideológicas possui perspectivas próprias sobre a organização social, a estrutura e o papel do Estado, as características e funções das instituições, que em alguma medida podem inclusive colidir umas com as outras. Os grupos mais influenciados pelo pensamento liberal tendem a definir um âmbito muito restrito para as funções do Estado, enquanto os setores mais reacionários reconhecem legitimidade em muito mais áreas de atuação estatal. Quanto aos valores morais que orientam suas posições relativas a questões comportamentais, o espectro é igualmente variado. Mais uma vez as posições que polarizam as tensões são identificadas com campo mais afeito ao liberalismo, em contraposição às vertentes mais reacionárias, cujas posições moralizantes reclamam o cerceamento de todo comportamento identificado como desviante da norma.

O liberalismo ordena seu mundo a partir da visão do indivíduo autônomo, com uma esfera privada que deve estar completamente livre da interferência da coletividade. Em tudo aquilo que sua ação não interfira na vida e na liberdade de terceiros, o indivíduo deve ter plena liberdade de escolha e ação. Seu individualismo exacerbado não reconhece no coletivo autoridade moral para se impor ao indivíduo. A ordem social que deriva dessa perspectiva toma o Estado como a institucionalização da coletividade, e portanto sua esfera de atuação não pode se sobrepor às escolhas de caráter puramente privado A referência teórica clássica é John Stuart Mill. Nas suas versões mais extremas, expressas com o neoliberalismo que surge a partir dos anos 70, o papel do Estado se restringe a proteger a vida, a liberdade e os contratos. Essa corrente se desenvolve a partir das teorias da Escola Austríaca e seus correlatos, como Ludwig von Mises, Milton Friedman e Friederich Hayek.

O conservadorismo moderno, que se desenvolve a partir das reações de Edmund Burke à Revolução Francesa, reconhece que existe mudança na história. Sua preocupação está no controle do ritmo dessas mudanças para que não sejam muito abruptas a ponto de comprometer os alicerces morais que garantem a estabilidade social. Os pilares da manutenção da ordem devem ser preservados para impedir a desagregação da sociedade. Suas posições políticas, portanto, possuem um caráter mais reativo, para impedir que as manifestações das transformações consigam imprimir na vida social, e na ordem política em particular, as alterações que consideram deletérias para a harmonia. Em sua versão clássica, conservadores reconhecem no Estado a legitimidade para impor condutas associadas à preservação de valores. Uma vertente mais contemporânea de conservadorismo, que se desenvolve a partir de meados do século XX, incorpora os valores do individualismo presentes no liberalismo. Esse amálgama de rejeição das mudanças profundas com autonomia do indivíduo é encontrada nos escritos de Michael Oakeshott[6].

O reacionarismo é uma outra modalidade de resposta ao iluminismo e os impactos da Revolução Francesa. Também se opõe à proposta iluminista de buscar organizar a sociedade a partir de pressupostos racionais, tratados como uma pretensão descabida. Em grande medida ecoando interpretações de Santo Agostinho, as hierarquias naturais seriam reflexos da ordem estabelecida por deus, e deveriam ser institucionalizadas em uma ordem social correspondente. O homem é herdeiro do pecado original, fruto do mau uso que fez do livre arbítrio recebido de deus, e nesse sentido recobre sua natureza original com uma segunda natureza que tende ao mal. É necessário uma autoridade forte, capaz de coibir as manifestações do pecado. A grande diferença de reacionários para conservadores é sua relação com o tempo histórico. Enquanto os últimos reconhecem a caminhada histórica, e pretendem um controle das mudanças que impeçam seu ritmo acelerado, os primeiros idealizam um passado mítico, e buscam fazer a roda da história voltar para trás. A origem do reacionarismo moderno está nos escritos do Conde Joseph de Maistre, um aristocrata estarrecido com os desdobramentos da revolução, que via como um castigo divino para a França. Confiando na infinita bondade e justiça divinas, de Maistre considerava que após o arrependimento do povo francês a monarquia absolutista seria restaurada, promovendo o reencontro entre o trono e o altar[7]. Reacionários, portanto, dependem da autoridade de um Estado forte para impor à coletividade sua estreita concepção de comportamento adequado; uma pretensão que não encontra guarida nos dispositivos de um Estado liberal.

Consideradas essas particularidades entre as diferentes correntes que compõem o que atualmente tratamos como o campo da “nova direita”, emerge a questão quanto aos elementos que permitem suas aproximações e conformação de uma corrente política. As pistas nos são dadas por Marx, em suas análises sobre o 1848 francês, e a coalizão que se forma entre a burguesia e os proprietários de terras, para enfrentar a primeira revolta operária moderna[8]. É na defesa de interesses e preservação de uma ordem social que garanta seus privilégios, que encontramos a razão da consolidação de uma coalizão de forças que a princípio pareceriam divergentes. À burguesia francesa interessava a defesa da sua ordem recém estabelecida, e um regime autoritário que dispusesse de instrumentos para a pacificação dos distúrbios e convulsões que reiteradamente perturbavam os negócios. Na ausência de uma fração que dispunha de força o bastante para se tornar hegemônica, era preciso conformar um bloco de poder que se contrapunha às pretensões das classes trabalhadoras, o que foi conseguido através da união entre as diferentes frações burguesas (comercial, industrial, financeira e agrícola) e os antigos adversários do período revolucionário, a aristocracia.

Para o Brasil atual, feitas as devidas correções históricas, a estrutura de motivos é bastante semelhante. Os governos petistas de conciliação de classes foram tímidos em seus avanços e generosos com as frações burguesas, promovendo o que um de seus intelectuais classificou como “reformismo fraco”[9]. Mesmo sem ameaçar a ordem burguesa, e promover uma redistribuição tímida sem comprometer as altas taxas de acumulação, os governos petistas significaram avanços para a classe trabalhadora que a elite e parte da classe média brasileiras nunca foram capazes de admitir. O processo de formação histórica das classes sociais e da nacionalidade brasileira ajudam a entender melhor as raízes desses comportamentos. Uma sociedade construída sobre as bases coloniais e escravistas como a nossa, não se livra tão facilmente do peso desse passado; a superação se torna ainda mais complicada quando os momentos críticos de transição são conduzidos pelo alto, alijando as classes populares da necessária participação para a sua orientação[10]. Soma-se a essas considerações o desvio de rota do governo Dilma no início de seu segundo mandato, que ao criar uma sensação de traição de promessas eleitorais, reduziu sua capacidade para mobilizar apoio.

Os restritos avanços na capacidade de consumo e no acesso a serviços elementares pelas classes baixas forjaram o ambiente favorável à identificação do bloco petista com uma difusa noção de “esquerda”, dentro da qual caberiam todos os fantasmas que atemorizam os componentes dos antagonistas da direita. Nesse sentido, aplica-se ao PT e seus governos, tanto quanto aos movimentos sociais, entidades de defesa de minorias e mesmo organizações à esquerda críticos ao campo petista, um pacote ideológico de ataque aos setores identificados com políticas populares em todo o ocidente, como vem acontecendo nos últimos anos em diversos países. É criado um “espantalho comunista” que ameaça a família, a propriedade, os valores basilares da sociedade ocidental, a liberdade e a religião, em uma reedição do pânico macarthista da guerra fria. A inovação está na inclusão de novos temas e atores que manifestariam essa ameaça. Se na vigência da Guerra Fria o inimigo era encarnado nos Partidos Comunistas, nos Movimentos de Libertação Nacional e nas Frentes Populares que exerciam governos democrático populares, para a atual conjuntura foram incluídos os todos os grupos que de alguma maneira encarnam ameaças à livre expansão do capital e suas margens de acumulação. São ameaças comunistas os ecologistas, a agricultura familiar, a defesa da educação pública, movimentos de defesa de indígenas e quilombolas, de lgbt, feministas, e mesmo grupos identitários baseados em orientações ideológicas que surgiram e se desenvolveram na crítica ao marxismo.

A exemplo do que ocorreu no período de desestabilização do governo João Goulart, quando grupos como IPES e IBAD não assumiam seus vínculos com agências norte-americanas, os principais atores da direita contemporânea não explicitam publicamente conexões orgânicas com grupos estrangeiros, apenas afinidades ideológicas. A coincidência de discursos  e métodos de ação, contudo, chama a atenção para a eventualidade de um centro estratégico comum às expressões locais de Brasil, Argentina, Uruguai, Espanha, Hungria, Polônia, etc. O conteúdo discursivo virulento contra os inimigos listados acima, a utilização de redes sociais, a disseminação de desinformação, a galvanização da opinião pública através das mídias tradicionais, a demonização da política que abre caminho a um “outsider”, a mobilização das instituições de Estado para conferir legitimidade a movimentos golpistas, são manifestações presentes em maior ou menor quantidade em todos os casos particulares, e são partes integrantes da estratégia de dominação que vem sendo chamada de “guerra híbrida”[11]. É razoável tratar como possibilidade real que tais expressões locais contem com apoio financeiro, logístico e de treinamento de um centro irradiador. Os eventos conhecidos apontam para que Steve Bannon, estrategista eleitoral de Donald Trump, seja uma das cabeças por trás desse movimento global.

c) A Atualidade do objeto de estudo  na atual conjuntura e seus aspectos práticos na Luta de Classes e na correlação de forças presente ( mobilização, campanhas, manifestações , impactos na opinião pública etc)

Na medida em que esse pacote conservador é o substrato ideológico da nova direita que levou ao poder o atual bloco político no Brasil, sua adequada compreensão é de enorme importância para o momento presente. É esse o discurso que cimenta o apoio popular a um governo de caráter marcadamente de classe, a favor dos latifundiários, patrões e banqueiros, contra os interesses da classe trabalhadora. Foi esse discurso moralista conservador que possibilitou a estratégia eleitoral de escamotear todas as ameaças aos direitos da classe trabalhadora, a destruição da previdência pública, as privatizações, a criminalização de movimentos sociais, a desregulamentação ambiental, as ameaças a indígenas e quilombolas.

A estratégia de campanha foi eficiente na mobilização emocional, levando as massas a eleger quem supostamente defenderia sua liberdade e suas famílias contra a ameaça vermelha, gay e bolivariana. Esse elemento é muito importante para não se reproduzir o discurso, tão equivocado quanto preconceituoso, de que a opção pelo bloco de direita se deve à ignorância e falta de instrução formal. É certo que a desinformação cumpriu papel político importante nessa tática, mas ela por si só não explica o amplo apoio que esse grupo desfruta. Pesquisas realizadas entre professores e estudantes universitários revelou que a adesão não é exclusiva dos estratos de baixa escolaridade. A ampla participação da classe média alta, composta de pequenos empresários e profissionais liberais, nos atos em favor do governo, é demonstração concreta da ausência de correlação direta entre apoio ao conservadorismo e falta de estudo.

Para cada classe e fração de classe, o bloco da nova direita conta com elementos ideológicos adequados para atender aos valores específicos. O conservadorismo moral é mais presente nas classes baixas, de orientação neopentecostal, mas não se restringe a essa parcela. A estes fala muito mais alto o temor das ameaças à família e à moralidade cristã, como a campanha de desinformação sobre kit gay e pedofilia compulsória nas escolas.

Os setores médios, apesar de também apresentarem alguma adesão ao moralismo, em função de sua própria posição de classe e o permanente medo à proletarização, são mais sensíveis ao terrorismo econômico. É a este grupo que se direciona a permanente ameaça de “Venezuelização” do Brasil. Sendo a Venezuela apresentada como um país comunista, e da mesma forma também são os governos petistas, tudo que se associa à esquerda são passos largos na direção do desemprego, perda de poder de compra, falta de acesso a bens e serviços, o caos econômico que representa a Venezuela na opinião pública brasileira recente.

Sendo necessário deslocar do poder o bloco petista que havia vencido quatro eleições consecutivas, mesmo vivendo períodos de graves crises políticas desde o primeiro mandato, seria necessário desarticular seu apoio popular através da corrosão de sua legitimidade. Para essa estratégia foi fundamental a combinação da mídia tradicional com os novos canais de comunicação, como redes sociais, blogs, sites de vídeos online e aplicativos de mensagens instantâneas. A formação de um novo consenso em torno dos valores da nova direita, em contraposição ao que possibilitou a hegemonia petista nos anos anteriores, dependeu em larga medida da eficácia dessa campanha articulada.

d) Principais expoentes teóricos do pensamento conservador e dos movimentos de Direita na atualidade e seus mecanismos e instrumentos de ação política.

O atual movimento de direita, particularmente no Brasil, carece de referências teóricas consistentes. Em nenhuma das vertentes destacadas acima, encontramos nomes de peso que poderiam ser classificados dessa forma. Os principais ideólogos, intelectuais orgânicos na acepção gramsciana, são de três tipos principalmente.

Os mais tradicionais, representando os interesses de uma direita pragmática, ligada ao mercado, são formadores de opinião dos grandes grupos de mídia. Jornalistas, analistas e “comentadores políticos” das Organizações Globo (incluindo jornal impresso, pagina de internet, rádio, tv aberta e fechada), Band, Folha de São Paulo, Estado de São Paulo, Grupo Abril e veículos locais de menor circulação. Por seu grande alcance e sua posição consolidada traduzida popularmente como respeitabilidade, têm o poder de direcionar a interpretação corrente dos fatos e processos, com destaque para a Rede Globo. A forma como apresentam, o que mostram e o que escondem, o tom da abordagem, o tempo de exposição, enfim, todas as modernas técnicas de jornalismo são mobilizadas para direcionar a interpretação que melhor atenda aos interesses defendidos por estes grupos. A cobertura da Diretas Já, o debate eleitoral do segundo turno das eleições presidenciais de 1989 ou a discrepância nas coberturas de denúncias contra Fernando Henrique Cardoso e Lula são apenas alguns dos casos mais emblemáticos do direcionamento político do “jornalismo” praticado por essas corporações de mídia, com a Globo na dianteira. Mais recentemente, a capacidade para capturar e direcionar as manifestações de 2013, ou o tratamento dispensado ao tema da reforma da Previdência dão mostras do seu potencial.

A rede Globo orienta sua cobertura em duas direções. Os jornais do início da manhã e do fim de noite têm espaço para as “análises”, como Miriam Leitão e Cesar Camarotti, modelo mais amplamente adotado no canal a cabo Globo News e na rádio CBN, com a presença de Merval Pereira. Os jornais da hora do almoço e do jantar têm caráter popular informativo, com os temas apresentados de forma sumária; seus apresentadores praticamente definem para o telespectador o que pensar. Com as recentes fraturas internas do bloco direitista, a Rede Globo tendo sido escolhida como alvo de represálias do presidente Bolsonaro e sua ala mais reacionária, o posicionamento da Organização tem sido de criticar o governo, salvando os temas caros ao setor pragmático de mercado que representa. É nessa dinâmica que se inserem as coberturas das grandes manifestações do mês de maio, cuidadosamente despidas de suas organizações sindicais, partidárias e de movimentos sociais, paralelamente ao esforço para apresentar a reforma da Previdência como a salvação para todos males da economia brasileira.

A equipe de governo entendeu que, durante a campanha, a Rede Globo foi prejudicial à candidatura de Bolsonaro. Optou por uma estratégia de enfraquecer o grupo hegemônico na mídia brasileira desde a ditadura, reduzindo o aporte de verba publicitária do governo e redirecionando para suas concorrentes, Rede Record e SBT. Ambas têm uma programação voltada a um público popular, e a tática do governo nesses meios tem sido a participação em entrevistas sem profundidade, de caráter propagandístico, e a mobilização de apresentadores para campanhas de defesa de projetos, como os apresentadores Ratinho e Ana Hickman.

Uma outra categoria de propagandistas é associada a uma tática mais recente, que se vale das novas tecnologias de informação. Ainda que seu conteúdo seja posteriormente disseminado por outros meios que atingem as gerações mais velhas, os canais originais de sua atuação têm como público preferencial os mais jovens. São os influenciadores digitais, que utilizam principalmente redes sociais como Twitter e Facebook, e paginas de vídeos online como Youtube. Nesse grupo estão representantes de todas as correntes ideológicas, que contribuem para a formação de uma massa crítica de mensagens que inundam e contaminam o debate. Posteriormente versões completas ou simplificadas de suas produções são compartilhadas nas próprias redes sociais, ou via aplicativos de comunicação rápida para telefones como whatsapp. Essa rede de formadores de opinião mobiliza, em maior ou menor profundidade, as referências teóricas mais consistentes, cujas ideias simplificam e disseminam como discurso rápido e palatável, condizente com a forma dos meios utilizados. Olavo de Carvalho é uma tradução mal feita e poluída de xingamentos da rede de conservadores de internet que já existe nos EUA há muito mais tempo; Rodrigo Constantino mimetiza o discurso ultraliberal dos chamados “libertarians”, economistas que levaram a Escola Austríaca aos extremos do privatismo. Roger, Lobão, Nando Moura e os jovens associados ao MBL são expressões nesse grupo de um fenômeno mais amplo que caracteriza o tempo. A facilidade na divulgação de opiniões sob a forma escrita ou filmada, através da internet, estimulou a produção de opiniões sobre todo e qualquer assunto. Esses últimos podem ser incluídos nesse grupo.

Particularmente no caso dos membros do MBL (Kim Kataguiry, Artur do Val e Fernando Holiday) é importante ter em mente que são uma espécie de reedição contemporânea juvenil do papel cumprido por think tanks no passado, como IPES e IBAD no período pre-64. Como este não foi o único grupo a surgir no período recente, com impacto na propaganda ideológica e na disseminação de uma opinião corrente de corte direitista, é relevante uma menção a essa categoria. Atuam como produtores de conteúdo ideológico, traduzindo para a comunicação ágil da internet as pautas e agendas da nova direita. Se encarregam de formatar em vídeos curtos, memes e textos sumários, a versão sintética que será disseminada pelas novas ferramentas de difusão de propaganda ideológica.

Por último, o grupo que representa o maior desafio para o trabalho político, considerando o tamanho do publico que influencia, sua autoridade moral perante esses seguidores, e a fidelidade dos que atingem à mensagem que disseminam – as lideranças cristãs fundamentalistas, tanto católicos quanto neopentecostais (e essa distinção tem um marcado corte de classe). O discurso de lideranças religiosas tem enorme peso junto aos fiéis, configurando a referencia de verdade que orienta suas posições

e) Desafios, Perspectivas e possíveis desdobramentos desse processo para o futuro

O grande desafio para as forças do campo revolucionário é sair da defensiva, situação em que se encontra desde os anos 90, e que tem se tornado mais crítica. Mesmo com as sucessivas crises desde então, incluindo a mais dramática de 2008/10, não encontramos uma tática eficaz para fazer a adequada denúncia da situação como desdobramento do capitalismo global, tanto quanto suas manifestações particulares em cada conjuntura nacional específica. Esse desafio envolve uma dupla tarefa: elaborar o discurso político adequado para se contrapor a posições de caráter moral/valorativo que orienta a adesão ao campo da nova direita, tanto quanto identificar os mecanismos adequados de difusão desse discurso, as ferramentas concretas de fazer chegar às massas as posições que revertam o apoio franqueado ao liberal conservadorismo atualmente.

Está claro que para enfrentar esses desafios, a reiterada insistência no retorno ao trabalho de base deve deixar de ser uma palavra de ordem metafísica e assumir a concretude que a tarefa demanda. Mas se a retomada desse trabalho é uma emergência política, as considerações sobre a forma como fazê-lo são igualmente urgentes – sob pena de continuarmos pregando para convertidos, como têm sido boa parte das manifestações e atos políticos do campo da esquerda nos últimos anos. É preciso elaborar novas formas de inserção nos bairros, nos locais de estudo e trabalho, nos movimentos de massas, que de fato tenham acolhida.

Os neopentecostais alcançaram a marca de 42 milhões de fiéis no Brasil atual, partindo de uma realidade esmagadoramente católica, através de um trabalho de base permanente. É esse trabalho de base que resulta na formação ideológica, na definição de valores que orientam comportamentos. A nova direita foi eficiente na mobilização desse público através de canais adequados de comunicação e orientação política. Não se trata evidentemente de copiar os métodos nem tampouco a substancia discursiva de qualquer desses grupos, mas de extrair lições quanto à estrutura de atuação que efetivamente tem penetração popular. É importante se preocupar com forma e conteúdo da mensagem, tanto quanto com os mecanismos de sua difusão.

As perspectivas para o futuro imediato ainda são nebulosas. A princípio a eleição da extrema direita parecia ameaçar as organizações populares com o arbítrio, ensejando a tomada de medidas de segurança de extrema cautela para a militância. Pelo menos por ora, os piores temores não se concretizaram; a repressão continua presente e atuante contra movimentos populares, mas sem a escalada violenta temida. Ao mesmo tempo, não é de se descartar por completo a possibilidade de um recrudescimento do regime, considerando as contradições internas e decorrentes tensões dentro do governo. Sendo Jair Bolsonaro a pactuada entre as frações no momento de crise de hegemonia, é preciso estar atento quanto à sua capacidade de atender aos objetivos políticos do setor com maior força na correlação interna. O interesse específico do setor financeiro nesse governo é a realização do programa ultraliberal, tendo como carros chefe a previdência pública e as privatizações. A estabilidade do governo depende do cumprimento dessa agenda, e o não execução desse programa pode significar sua remoção – que pode desaguar em um governo ainda mais autoritário. Esse é um cenário que cobraria a recuperação de táticas já mobilizadas no passado, de atuação em contextos de fechamento político.

Em qualquer dos casos, seja no prosseguimento dessa espécie de autoritarismo com fachada democrática que já vivemos, seja na eventualidade de uma escalada autoritária que culmine no fechamento político, está posta para os comunistas a necessidade candente de elaborar métodos adequados para agitação e propaganda, de um efetivo trabalho de base que alcance as massas. Tarefas incontornáveis para a formação ideológica contra hegemônica, necessária para a superação desse período histórico de ataque à classe trabalhadora. 

f) bibliografia sugerida para leituras e aprofundamento sobre o assunto.

Teorias clássicas:

Michael Oakeshott – “Conservadorismo

Joseph de Maistre – “Considerações Sobre França

Ted V. MacAllister – “Revolta Contra a Modernidade

Crise e estratégias do capitalismo global:

Nicos Poulantzas – “Fascismo e Ditadura

Yanis Varoufakis – “O Minotauro Global – A verdadeira origem da crise financeira e o futuro da economia global

Andrew Korybko – “Guerras Híbridas – Das Revoluções Coloridas aos golpes”

Crise brasileira e conjuntura:

Andre Singer – “O Lulismo em Crise

Armando Boito Jr. – “Reforma e Crise Política no Brasil – Os conflitos de classe nos governos do PT

Margem Esquerda, n. 32, 1 semestre/2019


[1] Poulantzas, “Fascismo e Ditadura”

[2] Gramsci, “Cadernos do Carcere” vol. 5

[3] Lenin, “O Desenvolvimento do Capitalismo na Rússia”

[4] Toda a análise da estratégia global do capitalismo central, nos períodos do pós guerra, podem ser vistos em detalhes em Varoufakis, “O Minotauro Global”

[5] O uso de populista aqui se aproxima da tradução para o português de narodnik, e sua acepção na crítica elaborada por Lenin a esse grupo político presente no cenário revolucionário russo. Nessa mesma direção vai o uso do termo por Losurdo em sua obra sobre a luta de classes. Em ambos os casos, temos uma crítica a determinada concepção política que se pretende de esquerda, que esposa uma concepção ideológica de “verdade que emana do povo”, menosprezando as intermediações institucionais em favor de uma aura de moralidade que recobre tudo aquilo que tem origem popular. O emprego desse termo para os grupos à direita se refere ao apelo do povo como portador da verdade, como forma de atacar o sistema político, em uma operação ideológica semelhante à dos fascismos em sua demonização da política.

[6] Oakeshott, “Conservadorismo”

[7] De Maistre, “Considerações Sobre a França”

[8] Marx, “A Luta de Classes na França – 1848/1850”

[9] Singer, “Os Sentidos do Lulismo”

[10] Prado Junior, “Formação do Brasil Contemporâneo” e Gorender, “O Escravismo Colonial”.

[11] A desestabilização interna de regimes que se pretende derrubar, através de movimentos de contestação que se apresentam como espontâneos e autônomos, para capturar a opinião pública e direcionar contra os governos, é um dos fatores componentes da guerra híbrida. Estes são elementos preparatórios para uma segunda etapa, o avanço da “guerra não convencional”, levada a cabo por grupos que não se organizam como exércitos regulares. O caso pioneiro dessa estratégia seria a guerra de desintegração da Iugoslávia, mais recentemente os casos da “Primavera Árabe”e o exemplo contemporâneo é a tentativa golpista na Venezuela. Korybko, “Guerras Híbridas – Das Revoluções Coloridas aos golpes”