Friedrich Engels (1820 – 1895) Um encontro que durou quarenta anos

“Nomes no obelisco”, de D. Valovoi e G. Lapchiná

Há uns vinte anos, dois jovens – Dmitri Valovoi e Guenrieta Lapchiná – ao passearem no Jardim de Alexandre, do Kremlin de Moscovo, ficaram interessados nos nomes gravados na pedra de um obelisco. Não foi nada fácil encontrar informação completa sobre cada pessoa ali referida. Assim, as pesquisas minuciosas converteram-se num trabalho científico profundo, que culminou com a publicação de um livro editado, em 1980, em língua russa e, mais tarde, em inglês. Dmitri Volovoi é doutor em Economia e publicista, colaborador do jornal Pravda. Guenrieta Lapchiná é economista.

Deste livro publicaremos, inicialmente, a biografia de Friedrich Engels.

Friedrich Engels (1820 – 1895)

UM ENCONTRO QUE DUROU QUARENTA ANOS

Em agosto de 1844, no seu regresso da Inglaterra à Alemanha, Engels visitou brevemente Paris, a fim de conhecer melhor K. Marx. Ambos tinham ouvido falar bastante um do outro e até se entreviam de passagem na redação da Gazela Renana, mas não chegaram a estabelecer contactos pessoais mais estreitos. E agora em Paris, na rua Vannau, no apartamento modesto do doutor Karl Marx, havia conversas sem fim até altas horas. Os dois sentiram logo que partilhavam as mesmas ideias quanto à causa comum à qual se haviam dedicado inteiramente. Tinham também algo em comum quanto ao espírito e aos interesses. Ambos sentiram aquela indescritível simpatia recíproca, que se transforma com o tempo em amizade. Os dez dias em Paris passaram como um dia só. Ao despedirem-se, não sabiam ainda que este encontro breve duraria quarenta anos. “As lendas da Antiguidade – escreveu V. I. Lénine – contam exemplos comoventes de amizade. O proletariado da Europa pode dizer que a sua ciência foi criada por dois sábios, dois lutadores, cuja amizade ultrapassa tudo o que de mais comovente oferecem as lendas dos antigos” (V.I.Lénine, Obras Completas, t.2, p. 12).

Friedrich Engels nasceu em 28 de Novembro de 1820 em Barmen (província renana da Prússia), na família de um industrial. Em 1834, entrou para o liceu de Elbervelde. Mas o seu pai decidiu que o filho mais velho devia enveredar pelo mundo dos negócios; portanto, Friedrich Engels teve de abandonar o liceu um ano antes de finalizar o curso e seguir a carreira de comerciante. Porém, nas horas livres, continua com perseverança a sua formação autodidática: estuda em profundidade obras filosóficas, históricas e económicas e revela capacidades inauditas na aprendizagem de línguas estrangeiras. Engels olha com espírito de observação o mundo que o rodeia. Ao ver a penúria extrema dos operários têxteis, ficou comovido e indignado até às profundezas do coração e, como não podia ocultar os seus sentimentos, suscitou a fúria do pai. Em 1839, escreveu as suas Cartas de Vupertal, nas quais estigmatizou a desumanidade das classes possuidoras. “Entre as classes inferiores domina uma penúria incrível, sobretudo entre os operários das manufaturas… Mas a consciência dos industriais ricos é elástica…” (K.Marx, F. Engels, Obras, t.1, p. 456).

O sentimento de justiça, tão característico do jovem Engels, atirou-o para o lado dos trabalhadores simples, cujas mãos criam todas as riquezas do mundo. E quanto maior era a sua simpatia para com eles, tanto mais crescia o ódio em relação aos opressores – a burguesia e os latifundiários. Prestado o serviço militar, em novembro de 1842, Engels deslocou-se, por exigência do pai, para Manchester (Inglaterra) a fim de trabalhar no escritório da fábrica de papel “Ermen & Engels”. Na Inglaterra, Friedrich Engels viu com os seus próprios olhos ao que levava o alto nível de desenvolvimento capitalista: luxo ostentoso e lucros cada vez mais avultados, por um lado, e exploração cada vez mais intensa, por outro. Os contrastes sociais de Manchester perturbavam Engels. Mas, ao mesmo tempo, a estadia na Inglaterra possibilitou-lhe fazer outra descoberta: o proletariado não era só uma classe que sofre, mas também uma classe em luta, combatente. Engels acompanha com atenção o desenrolar do movimento cartista e entra em contato com muitos dos seus dirigentes. Os primeiros artigos que escreveu na Inglaterra, e que foram publicados na Gazela Renana, evidenciam o processo de formação das convicções socialistas do autor.

Com 25 anos incompletos, Engels escreveu o livro A Situação da Classe Operária na Inglaterra. Este trabalho é uma das melhores obras da literatura socialista mundial. V. I. Lénine escreveu a este propósito: “Engels foi o primeiro a declarar que o proletariado não é só uma classe que sofre, mas que a miserável situação económica em que se encontra empurra-o irresistivelmente para a frente e obriga-o a lutar pela sua emancipação definitiva. E o proletariado em luta ajudar-se-á a si mesmo. O movimento político da classe operária levará, inevitavelmente, os operários à consciência de que não há para eles outra saída senão o socialismo. Por seu lado, o socialismo só será uma força quando se tornar o objetivo da luta política da classe operária” (V.I.Lénine, Obras Completas, t.2, p. 9). Com esta obra, Engels lançou a base da concepção científica da economia política e aproximou-se muito da compreensão materialista da história.

Depois do encontro e conhecimento pessoal com Marx, Engels regressou à Alemanha, onde participou ativamente na organização de comícios de esclarecimento e debates, na criação dos órgãos de imprensa comunistas e nas ações de massas contra a política feudal do governo. É claro que a sua atividade não podia escapar à polícia prussiana. Na primavera de 1845, fixou residência em Bruxelas e, juntamente com Marx, dedicou-se à elaboração da teoria revolucionária. No início de 1847, Marx e Engels aderiram à Liga dos Justos. Era uma organização que reunia um grupo de operários, principalmente emigrados, residentes em

Londres. O programa da Liga, embora com uma palavra de ordem bastante atrativa à primeira vista – “Todos os homens são irmãos” – tinha um caráter expressamente utópico e, por conseguinte, não podia satisfazer de modo algum nem Marx nem Engels. Após a sua adesão à Liga dos Justos, esta foi transformada na Liga dos Comunistas. Em junho de 1847, em Londres, realizou-se o congresso que constituiu a nova organização. Engels participou nos trabalhos do congresso como delegado dos comunistas parisienses. O Congresso preparou novos estatutos e adotou o novo nome. A palavra de ordem velha foi substituída por uma palavra de ordem

revolucionária, com conteúdo de classe: “Proletários de todos os países, uni-vos!”

Em outubro de 1847, Engels foi novamente a Paris, a fim de participar nos preparativos para o segundo congresso da Liga dos Comunistas. Ali escreveu o Projeto de Programa da Liga, conhecido comumente por “Princípios do Comunismo”. Esta obra serviu de base ao Manifesto do Partido Comunista. Em 25 de fevereiro de 1848, os operários parisienses derrubaram a monarquia de Louis-Philippe e proclamaram a Segunda República. O proletariado francês pôs-se novamente à frente do movimento europeu. O governo republicano da França enviou a Marx um convite de honra para regressar a Paris, que ele aceitou. Em 20 de março, Engels também partiu de Bruxelas, dirigindo-se a Paris. Em abril de 1848, Engels, Marx e um grupo dos seus partidários voltaram à pátria para se integrarem ativamente no movimento revolucionário. Em Colônia, criaram a Nova Gazeta Renana, o porta-voz da democracia revolucionária. Nas páginas do jornal exortavam o povo alemão à luta decisiva contra o regime feudal e o absolutismo e desmascaravam a traição da burguesia, a cobardia e inconsequência dos democratas pequeno-burgueses. Através do jornal, Marx e Engels norteavam a atividade das organizações democráticas e dirigiam a luta das massas populares. Engels publicou aí

vários artigos dedicados à insurreição de junho de 1848 em Paris. Com grande talento e conhecimento profundo do assunto, abordou a guerra de libertação nacional na Itália e na Hungria contra a monarquia austríaca. Nos finais de setembro, por ordem das autoridades, a edição da Nova Gazeta Renana ficou provisoriamente suspensa e Engels, face à ameaça de ser preso, teve de deslocar-se da Alemanha para a Suíça.

Em maio de 1849, na província renana e na Alemanha do Sul, assistiu-se à luta revolucionária armada. Engels aderiu ao destacamento dos voluntários comandado por A. Willich, membro da Liga dos Comunistas, e passou toda a campanha militar em Pfalz e Baden. Cumpria as tarefas mais difíceis e nos dias de combate sempre era visto na primeira linha. Só quando a revolução sofreu uma derrota definitiva, Engels, com os restos do exército revolucionário derrotado, abandonou a Alemanha. Mudouse para Londres, onde nessa altura morava Marx, e, juntamente com ele, participou na reorganização e consolidação da Liga dos Comunistas, prosseguindo simultaneamente na sua atividade científica.

Em novembro de 1850, por exigência do pai, Engels mudou-se de Londres para Manchester e voltou a trabalhar no escritório da firma “Ermen & Engels”. Por muito que detestasse o seu novo emprego, por muito que sonhasse, nos tempos livres, em prosseguir as investigações científicas, o desejo veemente de apoiar materialmente Marx e a sua família fez com que Engels aceitasse a proposta do pai. Estava sempre disposto a sacrificar-se para poder ajudar o amigo a concluir o seu livro O Capital. Esta amizade entre Marx e Engels não diminuiu com o tempo. Pelo contrário, cada encontro entre eles permitia descobrir novas virtudes recíprocas e proporcionava-lhes novas forças criadoras. Marx mantinha Engels a par das conclusões feitas

durante investigações científicas e pedia-lhe a sua opinião. Por seu lado, Engels, antes de responder às questões que lhe eram colocadas, submetia-as a uma profunda análise teórica.

Durante a colaboração com Marx e depois da sua morte, Engels escreveu várias obras – Anti-Dühring, A Dialética da Natureza, A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado e muitas outras.

A obra científica Anti-Dühring é uma das criações mais profundas do marxismo. É um resumo condensado das conclusões teóricas e dos princípios do marxismo. O livro proporciona a caraterística do socialismo, enquanto novo regime social que desconhece contradições antagônicas de classe e a exploração do homem pelo homem. Expõe de maneira acessível e convincente os postulados fundamentais da filosofia marxista e as bases da economia. O autor do Anti-Dühring debruça-se sobre a caraterística das relações de produção, mostra o seu caráter histórico peremptório e a necessidade objetiva da substituição das relações capitalistas por comunistas. Nas suas obras, Engels presta muita atenção às questões da organização da produção. Em particular, acentua a importância da ligação à organização consciente da

produção social à distribuição planificada. “O desenvolvimento histórico torna tal

organização cada vez mais necessária e cada vez mais viável. Com ela começa uma nova época histórica em que os próprios homens e, com eles, todos os ramos da sua atividade, em particular as ciências naturais, farão tais sucessos que eclipsarão tudo o que foi feito até hoje” (K.Marx, F. Engels, Obras, t.20, p. 359).

A Dialética da Natureza, na qual Engels trabalhou mais de 10 anos, está diretamente ligada ao Anti-Dühring. Nela o autor generalizou, sob o prisma filosófico, as aquisições mais relevantes então alcançadas no domínio das ciências naturais. O livro contém uma crítica fundamentada do materialismo mecanicista, das teorias idealistas dos cientistas burgueses e do seu método metafisico. Baseando-se em dados científicos, Engels apresenta o panorama do desenvolvimento dialético da natureza desde as formas mais simples, inferiores, então conhecidas do movimento da matéria, até ao aparecimento e à evolução da vida, até ao

aparecimento do homem e o desenvolvimento da sociedade. O pensador materialista põe a questão da necessidade de examinar as transformações recíprocas de diversas formas de movimento da matéria umas nas outras, impondo-se assim a tarefa de liquidar o abismo entre algumas ciências naturais. Nesta obra, Engels pressagia algumas descobertas científicas futuras no domínio da física e da química, da biologia e da psicologia.

Nos últimos 12 anos da vida de Engels, Marx já não estava com ele. Mas, neste período, Engels enriqueceu o marxismo com novas investigações e conclusões, cumprindo ao mesmo tempo, com toda a energia de um verdadeiro líder revolucionário, a tarefa de orientação dos partidos sociais-democratas da Europa e da América. Muitos representantes do proletariado combatente e da intelectualidade progressista pediam-lhe conselhos e apoio e ele partilhava generosamente a sua rica experiência e enormes conhecimentos. Engels fez realmente uma proeza digna de um cientista comunista para preparar o segundo e terceiro tomos de O Capital. Quando Marx morreu, os inimigos do marxismo começaram a divulgar rumores de que Marx não havia prosseguido com O Capital, parando no primeiro tomo, e que as notícias sobre o segundo tomo em preparação não eram mais do que uma “intrujice de Marx”, com o fim de se esquivar à polémica científica com os críticos das suas teorias do valor e da mais-valia

apresentadas no primeiro tomo. Após a morte de Marx, foi encontrado um rolo com manuscritos do segundo e terceiro livros de O Capital. Porém, ninguém sabia se estes já estavam preparados para o prelo. Mesmo Engels não o sabia. Que se faria com o trabalho por concluir de Marx sobre O Capital? Este problema preocupava muitos socialistas que se dirigiam com inquietude e esperança a Engels. Para o efeito, havia de se efetuar um trabalho

realmente gigantesco: ler os manuscritos do autor escritos com caligrafia bastante ilegível, decifrar numerosas notas e abreviaturas. O único que podia fazer esse trabalho era Engels.

No início, Engels julgava que poderia preparar o segundo tomo para o prelo em prazos relativamente curtos, mas, em outubro de 1883, ficou abatido pela doença que lhe fez perder pelo menos mais de meio ano. A doença fê-lo pensar que, com ele próprio, também podia acontecer qualquer coisa inesperada; no entanto, era necessário efetuar rapidamente todo o trabalho relacionado com a preparação do rascunho, isto é, ditar o texto dos manuscritos a um escriba. Foi um trabalho enorme, que levou muito tempo. As recidivas da doença impediram muitas vezes que Engels trabalhasse sentado à secretária e, então, continuava a ditar estendido no sofá, das 10 horas da manhã até às 5 da tarde, tendo, ainda por cima, de redigir à noite o que fora ditado. O segundo tomo de O Capital de Marx, redigido por Engels, veio à luz em julho de 1885. As dificuldades dos preparativos do terceiro tomo ultrapassaram todas as esperanças prévias de Engels. Esse trabalho levou-lhe cerca de dez anos. Quando Engels

trabalhava sobre o terceiro tomo, o princípio fundamental pelo qual se norteava era transmitir os resultados das investigações na linguagem singular de Marx. A intervenção de Engels no texto original limitou-se ao mais necessário. Fez acompanhar esse tomo de O Capital de uma introdução desenvolvida, na qual esclareceu o estado em que se encontravam os manuscritos e o trabalho que lhe coube. Ainda mais, desmascarou os falsificadores burgueses da concepção materialista da história e da doutrina económica de Marx. O trabalho sobre o segundo e o terceiro tomos de O Capital de Marx é o ápice da criação engelsiana, uma proeza em nome da amizade, da ciência, no interesse do proletariado de todos os países.

A obra de F. Engels Ludwig Feuerbach e o Fim da Filosofia Clássica Alemã teve grande importância no desenvolvimento do movimento revolucionário internacional. A divulgação da doutrina filosófica burguesa, muito em voga na Europa nos anos 80 do século XIX, o neokantismo, cujo objetivo único era a revisão, sob o prisma reacionário, da filosofia clássica alemã, tornou necessário o aparecimento deste trabalho. Nele, Engels submeteu à análise crítica todas as fontes do comunismo científico e realçou os méritos de Hegel no progresso do pensamento dialético e de Feuerbach no desenvolvimento do materialismo. Para mais, Engels mostrou que no processo da elaboração da filosofia marxista tinham sido ultrapassadas as visões limitadas da dialética de Hegel e do materialismo metafísico de Feuerbach – em suma, foi criado o materialismo dialético. Engels fundamentou a tese de que a questão fulcral da filosofia é a que se refere à correlação entre o ser e a consciência, entre a matéria e o espírito. Projetada no plano do movimento operário, a abordagem materialista deste problema é o critério fundamental na luta teórica entre as duas concepções contrárias, que permite travar

discussões filosóficas com os ideólogos burgueses. Na parte final da sua obra, Engels debruça-se sobre as leis gerais do progresso social. O autor explica por que é que a dialética materialista permitiu progredir muito além das descobertas de Feuerbach e revelar a essência da revolução nas concepções sobre o desenvolvimento da natureza, da sociedade e do conhecimento.

Para o movimento revolucionário mundial, a obra de Engels Ludwig Feuerbach e o Fim da Filosofia Clássica Alemã é um manual teórico na luta contra a filosofia burguesa, que permite aos socialistas distinguirem, nas suas fileiras, os adeptos da concepção idealista do mundo e lutarem intransigentemente contra eles. Engels escreveu muitas das suas obras a pedido dos socialistas de diferentes países. Regra geral, estas obras apareciam conforme a agudeza da luta. Por exemplo, para ajudar os socialistas franceses a superarem vacilações oportunistas na questão agrária e esclarecer-lhes o sentido verdadeiro dos postulados marxistas neste domínio, Engels escreveu, em 1894, o artigo “A Questão Camponesa em França e na

Alemanha”. Este trabalho marcou mais um passo em frente na elaboração da teoria marxista no domínio da questão agrária. O autor mostrou que o partido proletário só poderia conquistar o poder político com a condição de desenvolver uma ampla propaganda junto dos camponeses e de se tornar uma força de vanguarda nas aldeias. Engels sublinhou que o único caminho para o melhoramento radical na vida dos camponeses era a passagem das pequenas explorações à produção coletiva, comunitária, com a única condição de ser efetuada voluntariamente, com base em exemplos concretos. Advertiu que a política do Estado proletário em relação à grande propriedade fundiária deveria ser diferente, quer dizer, que o proletariado vitorioso iria expropriar esta propriedade, igualmente com a dos grandes industriais. Porém, Engels deu a entender que admitia a hipótese de resgate. “Se a expropriação acontecer com o resgate ou sem este, dependerá em grande parte, não de nós

próprios, mas das circunstâncias nas quais tomaremos o poder, bem como da atitude dos grandes latifundiários. Pela nossa parte, não consideramos de modo algum que o resgate é inadmissível em certas circunstâncias; para esclarecer este ponto, posso invocar a opinião de Marx que dizia a propósito que, para nós, o que importa é resgatarmo-nos do modo mais barato possível deste bando ignominioso” (K. Marx, F. Engels, Obras, t. 22, p. 523).

Engels seguiu com atenção o movimento revolucionário russo, mantendo correspondência com espíritos progressistas da Rússia. Comparando analiticamente o movimento operário na Alemanha, na França, nos Estados Unidos e na Rússia, Engels frisava que a esta última competiria, no futuro, o papel mais importante. Portanto, na Rússia, o nome de Engels era associado ao do amigo leal e companheiro de luta, K. Marx. Daí não ter sido por acaso que o maior número de cartas e condolências por motivo da morte de Marx viesse desse país, nomeadamente: os estudantes da Academia de Pedro, em Moscou, pediam, em especial, que na sepultura do autor de O Capital fosse colocada uma coroa de flores com a inscrição seguinte: “Ao defensor dos direitos do trabalho, em teoria, e ao lutador abnegado pela sua

concretização, dos estudantes da Academia de Agricultura de Pedro, em Moscou”. Até aos finais da sua vida, Engels trabalhou muito e intensamente. Dois anos antes da sua morte escreveu a brochura “Será possível o desarmamento da Europa?”, na qual chegou à conclusão de que “o sistema dos exércitos regulares europeus foi levado ao extremo de ameaçar os povos do continente com uma ruína económica inevitável, não podendo aguentar mais o fardo de exorbitantes despesas militares, ou levaria necessariamente a uma guerra total de extermínio, se estes exércitos regulares não fossem oportunamente transformados em milícia do povo armado” (Ibidem, p. 385). Engels partia do princípio de que o desarmamento e a garantia da paz eram possíveis. Estas conclusões engelsianas sobre a possibilidade da conservação da paz continuam a ser aproveitadas na atividade dos partidos comunistas. Não foi por acaso que o primeiro decreto do Poder Soviético foi o Decreto da Paz. As primeiras iniciativas do novo Estado soviético no palco internacional tinham como fim o estabelecimento de relações de boa vizinhança e cooperação, de cessação das guerras e da corrida aos

armamentos. Com o aparecimento do País dos Sovietes, a luta pela prevenção de novas guerras adquiriu dimensões históricas sem precedentes, uma base material, e tornou-se uma realidade política.

Nos últimos anos da sua vida, Engels era o único líder espiritual do movimento operário internacional. Todos os problemas relacionados com a direção do movimento, que outrora foram divididos com K. Marx, caíram sobre ele. A casa em Londres onde morava Friedrich Engels tornou-se uma espécie de estado-maior dos revolucionários de todo o mundo. Dali mantinha ligações com socialistas da Inglaterra, da Alemanha, da França, da Rússia, dos Estados Unidos e de outros países. Ali recebia correspondência, em línguas diferentes, das organizações socialistas e operárias. Ali se elaborava a estratégia da unidade do movimento

operário internacional no novo período importante do seu desenvolvimento e encontravam apoio as iniciativas sobre ações revolucionárias da classe operária. Engels considerava como uma das suas tarefas principais a criação da nova Internacional Socialista. Por altura dos anos 80 do século XIX, na maior parte dos países europeus já existiam organizações proletárias e daí surgiu a necessidade imperativa de consolidar a solidariedade entre elas. Nos fins dos anos 1880, a socialdemocracia europeia desenvolveu um vasto trabalho preparatório para convocar o congresso constituinte e Engels empenhou-se em que a nova organização internacional fosse fundada sobre uma sólida base marxista. O seu trabalho não foi em vão.

Em 14 de julho de 1889, em Paris, reuniu-se o primeiro congresso dos marxistas, do qual participaram 407 delegados, representantes de 22 nações. Na sala do congresso viam-se as palavras de ordem “Proletários de todos os países, uni-vos!”, “Expropriação política e económica da classe dos capitalistas, socialização dos meios de produção!”. O congresso formulou reivindicações programáticas sobre a legislação do trabalho, a realização das manifestações do 1.° de maio, pela jornada de 8 horas de trabalho e pela solidariedade proletária internacional. A festa do 1.° de maio de 1890 foi uma demonstração viva do fortalecimento da unidade do movimento operário e das forças crescentes do proletariado. A II Internacional centrou a sua atenção no desenvolvimento dos partidos e organizações marxistas de massas em alguns países. A sua tarefa central foi a preparação da classe operária internacional para a revolução proletária.

Em 1893, apesar da sua idade e má saúde, Engels realizou uma viagem por vários países europeus, com o fim de ativar a propaganda revolucionária das ideias marxistas. Em 12 de agosto chegou a Zurique para assistir aos trabalhos do congresso internacional socialista operário. Ali se discutiram a tática política da socialdemocracia, as tarefas de luta pelo dia de trabalho de 8 horas, o trabalho nos sindicatos e a questão agrária. A sala recebeu o companheiro fiel de luta de Marx com aplausos clamorosos. Na sua intervenção, F. Engels submeteu a uma crítica aguda o anarquismo, em torno do qual se travou a discussão durante todo o congresso. Salientou que, com a sua renúncia à estratégia e à tática do proletariado e a negação do papel dirigente do partido, os anarquistas enganam a classe operária e traem os seus interesses. F. Engels condenou resolutamente os oportunistas que supunham por ingenuidade que se podia chegar ao socialismo só pela via eleitoral. O orador exortou a manter e proteger, em todas as circunstâncias, a unidade na luta contra o capitalismo.

No início de setembro, F. Engels, acompanhado por A. Bebel, dirigiu-se a Viena, via Munique e Salisburgo. E outra vez houve saudações dos social-democratas; revelou-se outra vez a tendência de Engels para evitar elogios eloquentes; outra vez fez lembrar as tarefas dos partidos proletários. De Viena, Engels seguiu para Londres, via Alemanha. Esta viagem transformou-se numa verdadeira marcha triunfal das ideias do comunismo científico. Nos contatos com os social-democratas austríacos e alemães, Engels viu que a teoria do comunismo científico já se tornara património dos setores revolucionários da classe operária. E os operários que tiveram a oportunidade de ver e escutar Engels ficaram maravilhados com a paixão revolucionária e a firmeza de princípios do dirigente operário, com o seu humanismo e modéstia. No entanto, os anos e a vida difícil do revolucionário faziam-se sentir cada vez mais, ainda que o enfraquecimento físico não pudesse desencorajar Engels. Opunha a este um bom domínio de si próprio e a consciência do dever. E foi por isso que o seu espírito nunca quebrou. Mas, em março de 1895, sentiu outro ataque da doença e, a 5 de agosto do mesmo ano, às 22 horas e 30 minutos, deixou de bater o coração do insigne cientista revolucionário, um dos fundadores do comunismo científico. O movimento operário internacional perdeu um dos seus maiores lutadores e pensadores. Na cerimônia do enterro, a 10 de agosto de 1895, participaram, a pedido insistente do testamenteiro, somente os seus amigos mais íntimos, discípulos e companheiros de luta. “Aqui estão presentes poucos – disse Wilhelm Liebknecht -, mas estes poucos representam milhões de pessoas, todo o mundo… e eles prepararão a morte do capitalismo… Engels indicou-nos a todos o caminho e foi o dirigente nesta trajetória, foi o líder e o lutador. Nele fundiram-se num todo a teoria e a prática…”.

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